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publicado: 17/06/2026 09h12, última modificação: 17/06/2026 09h12
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Romário e Roberto Baggio, os dois protagonistas da Copa de 1994 são acompanhados de perto no filme de Murilo Salles | Fotos: Reprodução/Fifa

por Renato Félix*

No sábado passado, A União publicou uma entrevista com o cineasta Murilo Salles sobre Todos os corações do mundo (Two billion hearts), documentário oficial da Fifa sobre a Copa do Mundo de 1994 e que até hoje é o melhor dessa série de filmes. Mas, por questões de espaço, ficou faltando dizer umas coisinhas interessantes sobre essa produção, que teve não só o diretor, mas uma equipe basicamente brasileira nas filmagens.

O filme foi lançado nos cinemas brasileiros em janeiro de 1996 e chegou a passar em uma das salas pessoenses. Não lembro bem em qual, acho que foi exibido no Plaza. Como minha primeira Copa foi a de 1982, cheguei em 1994 tendo encarado três derrotas (a de 1982, nunca superada). Assim, ainda em êxtase com o tetra conquistado nos Estados Unidos, assisti quatro vezes a Todos os corações do mundo no cinema.

Naquela época, era possível ficar sessões seguidas no cinema sem precisar comprar outro ingresso. Então, vi duas vezes duas sessões seguidas. Depois o filme saiu em VHS e não me lembro de quantas vezes aluguei a fita. Mas assim que pude fiz uma cópia para mim. Esta versão do filme (com narração em português de Antônio Grassi) nunca foi lançada em DVD, mas peguei minha cópia e passei para um disco caseiro, que mantenho até hoje na minha coleção.

Salles contou na entrevista que a cópia original do filme está desaparecida. “Quando foi ter a Copa aqui, em 2014, eu estou em casa, me liga um cara da Fifa que eu conhecia, me perguntando: ‘Murilo, você tem o negativo do filme?’. Eu tomei um susto. ‘O que é que você quer dizer?’”. O filme foi produzido pela empresa ISL, que licenciava as imagens da Copa para a Fifa. A empresa faliu e o filme sumiu.

Hoje em dia, uma versão está disponível no streaming gratuito Fifa+, mas sem os créditos e grafismos na tela. Parece um tipo de reconstrução a partir de cópias diferentes. “Eu fiquei revoltado”, conta. “Por eles botarem no ar um negócio tão deteriorado, tão horrível, e do filme considerado o mais legal”.

E é mesmo o mais legal. Com um espírito de narrar futebol que lembra o clássico cinejornal Canal 100, Todos os corações do mundo conta a história das principais seleções daquela Copa como uma aventura. E usa de um recurso que deixa ainda mais belas as imagens das partidas.

“Isso foi uma uma decisão antes de filmar. Eu disse: ‘Olha, eu quero filmar tudo a 30 quadros’”. O movimento normal do cinema (e na época era em película, não digital) é 24 quadros por segundo. 30 quadros  por segundo resulta em um pequeno slow motion. “O filme é todo assim, mas o que é genial é que você vê melhor as jogadas, o toque”.

Há grandes sacadas no filme, como colocar as torcidas em evidência, com seu colorido e loucuras, durante toda a narrativa. Há mais torcedores que jogadores falando, mas há um momento precioso em que a Bélgica do goleiro Preud’Homme é desclassificada e o filme flagra a esposa do arqueiro ao telefone consolando o marido. A sequência inicial de estadunidenses mostrando pouquíssima ideia sobre o que é o futebol para, mais tarde, aparecem outros completamente envolvidos com o frenesi da Copa.

Esse é o futebol-arte!

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de junho de 2026.