No primeiro episódio da série de 1966, o Batman:
— é processado pelo Charada (e fica ressabiado porque, caso o processo avance, será obrigado a revelar sua identidade no tribunal);
— dança (passando os dedos pelo olhos, como John Travolta faria em Pulp Fiction quase 30 anos depois);
— cai num “boa noite, Cinderela” (no “suco de laranja duplo” que pediu ao barman, depois de entrar numa danceteria pop pela porta da frente);
— dá um chilique porque Robin é sequestrado pelos bandidos.
E isso é só o primeiro episódio (de 25 minutos) da série que completou 60 anos na segunda-feira (12). Batman pode parecer inacreditável para quem não acompanhou na época. Mas a série foi um sucesso incrível, detonou uma batmania e foi reprisada incessantemente no Brasil.
Eu me lembro de ter assistido nas manhãs da Globo, em 1981 e 1982. Às 7h30, a emissora exibia As Aventuras do Super-Homem, com George Reeves, e às 8h30, Batman (entre os dois, o Sítio do Picapau Amarelo, depois substituído por Zé Colmeia).
Bom, quando eu era pequeno, existiam dois Batman na minha vida. Um era o do desenho dos Superamigos. O outro era o Adam West, na série de TV, com esse humor camp e a música tema irresistível (“tanãnã-nãnã-nãnã-nãnã... Batmaaaaaan!”).
Eu não tinha, claro, a menor noção dessa gozação toda com o personagem, que o primeiro episódio já deixa tão evidente. Batman certinho ao extremo e Robin vivia dizendo seus “Santa armadilha, Batman” e suas variações.
Para mim, era tudo sério e o Batman era aquele mesmo, sem tirar nem pôr. Enfrentando, com seu bat-isso e bat-aquilo, aquela galeria interminável de vilões (nos créditos não era “ator especialmente convidado”, mas “vilão especialmente convidado”).
Os episódios eram sempre divididos em duas partes, com a primeira sempre terminando com os heróis em perigo mortal, presos a alguma armadilha do vilão da vez, com a conclusão prometida para o dia seguinte e o narrador perguntando: “Será que a dupla dinâmica escapará? Confira amanhã, nesta mesma bat-hora, neste mesmo batcanal”.
A série foi produzida de 1966 a 1968, com uma adição importante na terceira temporada: a Batmoça, interpretada por Yvonne Craig num traje que parecia ter que ser descascado de seu corpo. A personagem havia estreado nos quadrinhos em 1967, já de olho em seu aproveitamento na série de TV.
Quando a série estreou, as HQs do Homem-Morcego eram mesmo bem absurdas, então a série não estava tão longe disso ao evocar um espírito camp e psicodélico, abusando das câmeras inclinadas e as onomatopeias explodindo graficamente na tela (“SOC! WHAMM! CRASH!”). Mas no decorrer dela, o desenhista Neal Adams e o roteirista Dennis O’Neil já estavam à frente de uma reinvenção do Batman nas HQs.
A dupla estava devolvendo ao herói a seriedade e o ar sombrio que ele tinha originalmente — eu só descobriria esses quadrinhos quando comecei a ler essas histórias na Editora Abril, no começo dos anos 1980 (embora elas já tivesse saído na Ebal, nos anos 1970).
Depois veio a minissérie O Cavaleiro das Trevas, obra--prima do Frank Miller, de 1986, que mostrou um Batman ainda mais sombrio e niilista. Aí, a série dos anos 1960 caiu de vez em desgraça. As pessoas falavam dela como se fosse um ultraje ao Homem-Morcego.
Com o tempo, visões bem-humoradas de um cara que combate o crime vestido de morcego passaram a ser bem aceitas de novo. Adam West e Burt Ward até voltaram a interpretar a dupla dinâmica em dois longas animados.
Reinterpretar o herói, depois de ter ouvido tantas vezes que ele não era “o Batman de verdade”, foi uma bonita homenagem para Adam West, o primeiro Batman de verdade de um monte de gente.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de janeiro de 2026.