Quadrinhos autobiográficos às vezes me causam uma certa birra. Me refiro àqueles em que o autor faz um relato preguiçoso que não sai do formato recordatório + ilustração.
Explico melhor.
Para quem não é leitor de gibi: recordatório é aquela legenda que geralmente vem em cima do quadrinho e serve tanto para dizer um “enquanto isso” quanto para trazer algum pensamento de algum personagem. Por exemplo, para narrar uma situação em flashback.
Acontece que muitos quadrinhos autobiográficos, alguns bastante celebrados, contam sua história assim: cada quadro tem um recordatório que explica uma situação e o desenho apenas ilustra o que está sendo contado no texto.
“Eu ia muito lavar minhas roupas na lavanderia da esquina, onde eu sempre observava um senhor que parecia bem solitário”, diz o recordatório. No desenho, a protagonista observando um senhor. E assim é o tempo todo a cada página.
Não há construção ou desenvolvimento de cenas. A história de vida do autor até pode ser forte e relevante: a narrativa, não. Esses quadrinhos poderiam simplesmente nem ter o desenho porque o texto conta tudo.
E nada do que escrevi até agora vale para Sorria ou, de maneira geral, para a obra da estadunidense Raina Telgemeier.
Sorria, seu primeiro álbum como roteirista e desenhista, foi lançado originalmente em 2010 e ganhou há pouco uma nova edição brasileira pela editora Intrínseca, que publica atualmente as HQs de Raina no Brasil (o álbum já havia saído por aqui pela Devir, em 2015).
No livro, Raina conta o período em que teve que fazer um complicado tratamento dentário, uma época que também trouxe mudanças na escola e amadurecimento em sua vida pessoal. Como lidou com amores, encontrou sua turma e até sua arte. A obra trata de autoestima e voz pessoal e facilmente ressoa em leitores jovens que podem se identificar com os mesmos dilemas.
E a autora faz um uso exemplar da narrativa dos quadrinhos. A história é contada por meio do desenvolvimento das situações, sem pressa para passar adiante, com a construção dramática ou cômica necessária para levar o leitor junto pelos acontecimentos.
Isso faz com que recursos gráficos que saiam do trivial realmente saltem aos olhos e chamem a atenção para momentos importantes ou evocativos da narrativa: um quadro que toma a página inteira. Ou o requadro deixar de ser uma linha reta simples e ganhar várias pontas para evocar um terremoto.
O desenho também é bonito em sua simplicidade cartunesca, numa comunicação direta com o leitor. Parece, paradoxalmente, não ter qualquer ambição “artística”, mas é, sem dúvida, um belo trabalho de ilustração.
Suas HQs autobiográficas constituem, atualmente, uma trilogia: Sorria, prêmio Eisner de melhor publicação para adolescentes; Irmãs (2014; publicada aqui pela Devir), Eisner de melhor roteirista/desenhista, e Coragem (2019; lançada aqui pela Intrínseca), vencedora de dois Eisner (melhor publicação para crianças e melhor roteirista/desenhista). Duas histórias de ficção suas também já saíram aqui: Drama (2012; Devir) e Fantasmas (2016; Intrínseca), Eisner de melhor publicação para crianças. Uma trajetória vencedora que volta ao começo com Sorria.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de março de 2026.
