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A cidade me fotografa

publicado: 08/05/2026 09h05, última modificação: 08/05/2026 09h05
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As passagens do tempo na vida de todos e todas nós” | Foto: Reprodução/Google

por Sandra Raquew Azevêdo*

No último sábado decidi participar de um breve passeio pelo Centro Histórico da capital paraibana. O convite para fotografar veio de um grupo do Recife, praticante de fotografia analógica, que conseguiu reunir pessoas da cidade para um encontro.

Tendo adoecido recentemente, me sentia com pouca energia. Mas considerei que a caminhada seria uma vivência interessante. Tanto pela experiência do voltar a fotografar com filme, e poder ir a uma parte da cidade que nutro afeto. Apesar das inúmeras ruínas, resiste a beleza do lugar.

Talvez, quem sabe, a permanência do rio margeando a parte “antiga” da cidade irradie uma luz solar tão bela, que seja capaz de chamar para a vida os lugares de abandono. O Centro Histórico da cidade tem se mostrado cada vez mais contrastante. Entre prédios restaurados, bares descolados, novos museus e ruinas existe uma população de rua que se ampara no vazio de algumas construções

Caminhando pelas ruas também observo as palavras e inscrições nas paredes. A arte de rua, o grafitti, a pichação, as colagens, as propagandas. Essas narrativas que me chamam a atenção. É um discurso sobre a cidade que se constrói cotidianamente entre paredes descascadas que falam coisas relevantes sobre a realidade.

Os discursos gráficos nas paredes vão deixando registrados uma crítica social onde não há nostalgia. Há o disruptivo, o corte com a fantasia da cidade construída pelo marketing do turismo.

As paredes épicas do Varadouro narram a sangria desatada da sobrevivência cotidiana. As passagens do tempo na vida de todos e todas nós. Enquanto caminhava descendo as ladeiras em direção à Praça Pedro Américo senti a falta dos fotógrafos com seus lambe-lambe. E recordei de uma foto tirada nos jardins do teatro anos atrás.

Num sábado à tarde a paisagem humana tem outro ritmo. As igrejas se enchem de ornamento para os casamentos. Há menos barulho dos carros e ônibus. Caminhei mais que fotografei. Habitei as paisagens e meu próprio silêncio.

Estando em grupo observava as pessoas no espaço. E a beleza dos diferentes equipamentos fotográficos e a disposição delas em se fazerem ali presentes. Acompanhando o grupo fui seguindo o roteiro da caminhada.

Mas por uma questão de intuição, de instinto, fiz do meu caminhar uma meditação. Fazendo dos passos uma prece. Senti uma necessidade de interceder, até mais que fotografar.

Ainda assim fiz uns poucos registros daquelas paredes falantes, ruinas sonoras que falam sobre justiça, amor, criatividade... e segui o percurso da caminhada lentamente até chegar ao Hotel Globo.

De frente para o Rio Sanhauá eu deixei me decantar pela luz sépia que ia me banhando, quando o sol deslisava no horizonte.  Há espaços que refazem a gente, e não por acaso desejamos encontrar.

Como mulher vou me movendo ciclos, mirando as fases da lua, do tempo, do corpo, dos ritmos da vida feminina. Fotografar é um tempo de mover-se como passarinho. Ao me mover pelo Centro Histórico no último sábado não arrestei um sentimento de nostalgia, fui tomada apenas pelo presente e seus sintomas.

Ao parar de frente para o rio fui um pouco capturada pelas águas que estavam um pouco alaranjadas pelo entardecer.  Encerrava o passeio com o grupo, mas continuava ali acompanhando o curso do tempo movendo tudo.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de maio de 2026.