Na última semana visitei a cidade que nasci. A viagem foi rápida, e me fez retomar a ideia de escrever um pouco mais sobre as questões do clima, vez por outra, também neste espaço.
Ano passado participei ativamente da COP 30 em Belém e foi uma agenda intensa de trabalho. Mas optei por não escrever material jornalístico relacionado ao factual do evento naquele período. E sim, seguir atuando a partir de um horizonte de trabalho mais analítico e estratégico nesta área.
Decidi amadurecer um pouco mais a compreensão sobre questões relacionadas à transição energética, justiça climática e gênero, biomas, integridade da informação pelo clima, saúde e meio ambiente, e saberes tradicional vindos de diferentes povos e biomas.
Muitas pessoas foram testemunhas de micro e macro disputas econômicas na Conferência do Clima. Penso que a agenda da COP 30, em Belém, foi uma das mais desafiadoras, tendo em vista as guerras, a instabilidade do clima, as invasões de países, negacionismo, fanatismo e desinformação.
Vivemos intensos conflitos centrados na disputa pela dominação de reservas de água/glaciais, do petróleo, das terras raras, do controle da sociobiodiversidade.
Sim, o clima mudou, mesmo para quem já convivia com a predominância do calor ou frio. Mas é preciso lembrar que há tempos vemos claramente uma ocupação desordenada dos territórios, seja no campo ou nas cidades.
A cidade que nasci, por exemplo, tinha em 1973, algo em torno de trinta mil habitantes. Atualmente é um pouco mais de cem mil. O território já era impactado pela concentração de terras e precariedade da vida dos trabalhadores e trabalhadoras vivendo numa sociedade herdeira do regime escravocrata, cuja elite se redesenhava mudando sua atividade produtiva agropecuária para outros investimentos, entre eles, o setor imobiliário.
Digamos que a “febre do cimento”, como diria o escritor Ítalo Calvino, estava assim começando a ser parte da vida cotidiana com bastante velocidade e voracidade. Passados tantos anos, testemunho o ápice de uma expansão imobiliária crescente que impacta não só o território do sertão, mas diferentes lugares, incluso a mina de ouro que se tornou litoral brasileiro. E novos pontos de exploração de petróleo, energias renováveis, minérios.
A “febre do cimento” muda radicalmente a paisagem, o modo de vida e a condição de existência no próprio lugar. Arrasta também consigo quilômetros de árvores, que são tão fundamentais ao equilíbrio do clima.
Se a cidade possuía uma certa vegetação em seu entorno, minimizando o calor, os anos consecutivos de desmatamento e criação de loteamentos agravaram o desconforto térmico, e consequentemente a saúde de quem vive no lugar.
A febre do cimento é considerada por muitos a ponta da lança do desenvolvimento e oportunidade de geração de renda. Sem que se enfrente os impactos da desertificação que promove. O clima no sertão, assim como em outros lugares está verdadeiramente insustentável.
O modo como eu me relaciono com meu espaço físico, o meu habitat, é também o centro das mudanças necessárias diante dos desafios climáticos do presente, e para superar uma educação de valores predatórios no trato com a água, o solo, o ar, a energia, os rios e oceanos, com a comida.
Fiquei assombrada por uma certa paisagem estéril da prosperidade que se ergue pelo cimento. Mesmo tendo plena consciência da força da Caatinga em resistir.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 23 de janeiro de 2026.