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Anatomia do post

publicado: 27/03/2026 09h05, última modificação: 27/03/2026 09h05

por Sandra Raquew Azevêdo*

Recentemente a Globo News lançou um documentário chamado Anatomia de Post (Dir. Eliane Scardovelli) que fala sobre o uso excessivo de celulares por criança e adolescentes. Não sou criança e adolescente faz muito tempo, mas percebo em meu cotidiano o quanto o uso das telas afeta minha saúde e sobretudo o tempo de viver.

Lembro quando em meados dos anos 1990 o sociólogo Manuel Castells lançou a trilogia “A Sociedade em Rede”, “O poder da identidade” e “Fim do Milênio”. Essa trilogia foi leitura obrigatória pelo menos para pessoas da minha área que estavam refletindo sobre a mudança de paradigma tecnológico. Naquele período não tínhamos uma onipresença do algoritmo como temos hoje.

Mas já era presente em nossa rotina o uso do celular, que ia cada vez adentrando a nossa vida cotidiana, transformando o mundo do trabalho. Ainda assim a vida não era medida pela presença digital. Tínhamos uma vida ancorada nas plataformas digitais.

No documentário vemos concretos os  situações complexas na vida de crianças e adolescentes causados pela dependência de celular, e  sentimos um pouco do horror do modelo de gestão das Big Techs – empresas de tecnologia que dominam o mercado da informação no mundo contemporâneo.

Dominar a informação é ter controle sobre a política. A micropolítica, e a macro também. A alteração de um modo de produção industrial por uma estrutura baseada em processamento de símbolos, como discutia Manuel Castells, foi um ponto de mutação da economia global. O projeto neoliberal, cuja economia se caracteriza pelo fluxo e troca instantânea de informações.

Não por acaso também a nossa estrutura de vida em sociedade está cada vez mais fragmentada e dependente de uso de telas. Para se ter uma ideia, o Brasil aparece como terceiro país que mais usa redes sociais. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, os jovens passam em média 14 horas por dia nos aplicativos. 

É num contexto de fragmentação que a interação social vai padecendo. Adoecemos, não só crianças e adolescentes. Todavia é nesse segmento que os danos da dependência de celular são avassaladores, a exemplo de problemas como distorção de imagem, bulimia, anorexia, isolamento social, ansiedade, depressão, e perdas de vida precocemente. 

O pior de todas essas coisas, como já denunciado em pesquisas e publicações – entre elas, o livro A máquina do Caos, de Max Fisher – é que essa natureza destrutiva-lucrativa é parte do modelo de negócio das empresas de tecnologia. Muitos países hoje em dia, a exemplo da Austrália e outros países da União Europeia, ao regulamentarem as redes sociais, o fazem com base em pesquisas e dados seguros sobre o funcionamento das grandes empresas de tecnologia.

Aqui nos arrastamos ainda com projetos de regulamentação. Recentemente está em vigor no país a Lei 15.211/2025, mais conhecida como ECA Digital, com foco na proteção de menores no ambiente online.

É relevante por se tratar de uma demanda urgente numa sociedade em que crianças e adolescentes são muito vulneráveis a exploração, entre elas a exploração sexual. Só que é preciso afirmar que ainda é pouco.

O discurso de ódio por exemplo é crescente. Hoje a gente entende a partir desse conceito. Só que a experiência de violência no ambiente escolar e acadêmico conhecemos de longa data, e amargamos os seus efeitos traumáticos na vida dos menores, e na vida de muita gente adulta.

Atualmente o assédio, as humilhações, a perseguição sistemática é mais sofisticada. Precisamos nos perguntar os porquês do isolamento, depressão, síndrome do pânico, baixa autoestima, queda no desempenho escolar e problemas físicos (dor de cabeça, insônia) se tornaram queixas tão presentes na vida de crianças e adolescentes.

A regulação estatal é um ponto relevante para o enfrentamento ao discurso de ódio e regulação do conteúdo nas plataformas. Estrategicamente o lobby das empresas se vale da ideia de censura para preservar um modelo de negócio que tem impactado o desenvolvimento das capacidades físicas e emocionais.

É desafiador construir uma melhor equação para o uso dos celulares, das telas em todas as idades, inclusive entre os mais velhos também. Agora, na infância e adolescência já se tem clareza o suficiente dos danos, o maior de todos, é a perda da própria vida de maneira trágica e precoce. Por isto a regulamentação das redes sociais é tão urgente.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de março de 2026.