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Caso Epstein: transparência e opacidade

publicado: 13/02/2026 10h09, última modificação: 13/02/2026 10h09

por Sandra Raquew Azêvedo*

os últimos dias circula, intenso fluxo de informações nas redes sociais, blogs, podcasts, TVs, rádios e portais, sobre o escândalo envolvendo o magnata do mercado financeiro Jeffrey Epstein. O Caso Epstein é considerado um dos maiores escândalos envolvendo uma rede de tráfico de pessoas para exploração sexual de corpos infantis, adolescentes e mulheres dos últimos tempos.

Tratado por muitos veículos como escândalo sexual, considero o acontecimento político, uma prática de violação de corpos de crianças e mulheres no centro do poder econômico, de lideranças políticas e figuras ilustres do campo do entretenimento.

Desde 2008, o financista já havia se declarado culpado, tendo ido para prisão em 2019, aparecendo morto um mês depois de seu encarceramento. A partir daí muitos são os rumos de uma história que precisa ser passada a limpo.

O que tem sido muito comum depois da liberação seletiva de 23 mil páginas de documentos é a tendência de tratar esse fato gravíssimo como reality show. E o surgimento de temas como cortinas de fumaça para desviar o foco das questões a serem esclarecidas e enfrentadas. Além da ênfase por parte de alguns meios na visibilização das vítimas, o que incide em mais violações.

O silenciamento e a opacidade dos fatos parece-me sempre uma estratégia eficiente de manutenção das formas abusivas de poder. Um abuso sexual, a exploração de crianças, adolescentes e mulheres reflete uma relação de poder. Dentro ou fora de casa, na igreja, na escola, no Congresso Nacional, enfim, onde quer que aconteça.
A notoriedade das pessoas envolvidas e a amplitude da rede de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual do Caso Epstein tem intensificado o agendamento midiático sobre o tema. Porém, é preciso que todas as pessoas reflitam mais profundamente sobre os valores que sustentam as práticas abusivas, com olhar atento para o quê o que conservadorismo protege como segredo.

Todo escândalo possui uma anatomia. Talvez seja por isso a necessidade de mergulhar fundo, sair da superfície dos fatos que acabam por nutrir uma indústria da informação.
A midiatização de um acontecimento social é um aspecto relevante em torno de um problema tão grave como a formação de uma rede de tráfico de pessoas para fins de abuso e exploração sexual, e por isto é relevante discutir neste quesito a cultura que protege pedófilos, a educação para a desigualdade, a cultura do estupro, a exploração sexual como um jogo perverso de poder normatizado, sobretudo por muitos homens. Ou por um tipo de ordem e lógica masculina de governança.

É um escândalo político que fala sobre a nossa vida cotidiana dentro e fora de casa. A instauração no Brasil de um Pacto Nacional de Enfretamento ao Feminicídio, nos últimos dias, é uma decisão no centro de uma gestão pública dada a crise instalada na sociedade brasileira, mas para funcionar as medidas precisam ser entendidas e adotadas por todas as pessoas e instituições.

Um dos pontos importantes inclusive foi colocar os homens no centro do compromisso social para o enfrentamento as diferentes formas de violência contras meninas e mulheres, contra crianças. A começar pelo conteúdo das campanhas em torno do tema.

Prevenir, proteger, responsabilizar, educar, comunicar são atos de grande relevância para efetiva ruptura da violência estrutural contra crianças e mulheres. A cooperação entre instituições torna-se base importante diante de um grave problema.

Uma das coisas igualmente violentas que o Caso Epstein joga na cara de todos e todas nós, é a proteção aos algozes, cujos nomes, em sua maioria, estão sob sigilo. O pacto com o segredo protege quem viola e massacra ainda mais as vítimas.

Por fim, enfatizamos a responsabilidade dos meios de comunicação no debate público, por seu papel no sistema político e a mediação que exerce.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de fevereiro de 2025.