Na última semana voltei a refletir sobre a temática do feminicídio nas mídias. A convite do professor doutor Denis Porto Renó (Unesp) proferi conferência no Colóquio Lusofonia em Debate, abordando a questão a partir de um olhar comparativo entre Brasil-Portugal.
O evento foi organizado pelo grupo de pesquisa Chorome Photo/GENEM -Grupo de Estudos sobre a Nova Ecologia dos Meios (Unesp) e Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, com apoio da Ria Editorial, e reuniu pesquisadores e pesquisadoras de países de língua portuguesa, entre outros profissionais vinculados aos meios de comunicação e plataformas digitais.
Dos primeiros textos escritos sobre esse tema até aqui testemunhei muitos avanços, fruto da trajetória de diversos grupos de mulheres e coletivos feministas que, nas ruas, mobilizavam – e ainda hoje mobilizam - a sociedade para enfrentar o problema estrutural da violência extrema contra as mulheres na sociedade brasileira.
Historicamente essas lutas resultaram em conquistas, avanços em políticas públicas, e marcos regulatórios importantes como a Lei Maria da Penha (11.340/2006) e a Lei do Feminicídio (13.104/2015).
O crime de feminicídio tipifica a morte violenta da mulher por sua condição de sexo/gênero. Tipificar o feminicídio foi uma conquista importante e nos coloca diante do dever do Estado em atuar de modo eficaz para preservar a vida das meninas e mulheres.
Mesmo com avanços nos marcos legais estamos testemunhando a escalada crescente dos casos de feminicídio em muitos países, não apenas no Brasil. A ascensão do discurso neofacista carrega também consigo uma postura misógina e um dispositivo disciplinador, sobretudo em relação ao comportamento feminino, visando seu controle através da percepção das mulheres enquanto propriedade. Sempre me pergunto como os enquadramentos midiáticos refletem ou rompem esses dispositivos de controle.
Avançamos ao tratar o feminicídio enquanto uma questão pública e não circunscrita ao âmbito doméstico, privado. Precisamos avançar um pouco mais, revisitando a construção da noticiabilidade sobre esse fenômeno global. De que maneira os feminicídios são narrados, compreendidos e interpretados?
Um desafio na noticiabilidade sobre o feminicídio tem sido o recorrente sensacionalismo presente na cobertura. A ênfase na morbidez e aspectos dramáticos quase sempre ressaltados para prender a atenção. Com a plataformização observamos crescer a monetização, a lucratividade, a partir do compartilhamento excessivo ancorado nas cenas de violência e da exposição do corpo feminino.
Acontece o que conhecemos por aniquilamento simbólico, uma vez que a narrativa jornalística revitimiza as mulheres não respeitando sua imagem, reforçando estereótipos e não problematiza as relações desiguais e o imaginário conservador que reforça a ideia da mulher enquanto propriedade.
No enquadramento hegemônico os atributos negativos desqualificam a mulher e quase sempre levam ao julgamento moral da vítima e sua culpabilização.
Nesse contexto a representação social das mulheres nas notícias não as reconhece como sujeito autônomo, reforçam uma imagem conservadora e confina as mulheres aos papéis tradicionais.
Por isto a necessidade de um enquadramento adequado, que contextualize o ciclo de violência que resulta em feminicídio, enquanto prática sistêmica de controle, dominação e aniquilamento.
Ainda hoje se faz necessário tipificar os feminicídios na narrativa jornalística e discutir a questão com maior profundidade e diversidade de fontes. Ampliar a divulgação de recursos e serviços de proteção às mulheres vítimas de violência. E questionar a responsabilidade das autoridades sobre a implementação de ações eficazes de enfrentamento.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de junho de 2026.