Domingo tive que ir a uma loja. Só quem me conhece sabe o quanto eu não gosto de ir à shoppings. Caso você me encontre num é por esses motivos: ver um filme que não vai passar em nenhuma outra sala e que realmente não poderia ver em outro lugar; numa emergência relacionada à compra de um livro ou, excepcionalmente, a compra de uma peça de roupa.
Não gosto da luz, do barulho, do monte de gente andando como se estivesse num biotério (gaiola para rato de laboratório). Claro que a maior parte das pessoas se sente feliz e não há problema nenhum. Em algum momento já tive um surto de felicidade ao encontrar algum amigo ou amiga num shopping e abraçar.
Já tive um momento crítico na relação com esses lugares. Quando estava grávida eu entojei mesmo, total repulsa. Nem olhar. Mas confesso com a resistência vem de muito antes. E que experiências como cuidar da minha amiga Agostinha, que amava comer um bolinho de tapioca num cafezinho de shopping e passear olhando as lojas me conduziu a uma certa experiência de superação estando com ela. Coisas que só o afeto profundo é capaz.
Minha relação com o ato de se vestir nem sempre foi tranquila. Foi o teatro e a dança do ventre que ressignificaram. Roupa era na minha realidade uma necessidade, e não um supérfluo. Aprendi assim a olhar para elas não como fetiche, que seduz pela ideia de exclusividade, diferenciação e poder.
Vestir roupas novas no sertão estava vinculado durante muito tempo aos momentos rituais de nossa vida como batizado, casamento, aniversário, festas de final de ano, e para o povo nordestino, uma roupa nova no São João. Nem sempre as famílias tinham recursos financeiros para todas estas ocasiões. Mas nestes ciclos de festividades havia um cuidado ritual com as vestes - e com a bonita experiência de se arrumar para celebrar - por mais simples que fossem.
De uma família grande, composta majoritariamente por homens, e com apenas duas irmãs, uma mais velha com diferença de idade de dezesseis anos, e uma mais nova com seis anos a menos, eu era o hiato.
Ter sido o hiato feminino numa família grande e com muitos homens foi bom. Por outro lado, tinha assim o lado B, que envolvia uma vigilância dos maiores, e alguns atropelos e enfrentamentos na jornada.
A infância sendo tratada como uma boneca que irmã e irmãos carregavam, arrumavam os cabelos com penteados, laços, presilhas de todas as cores e formas, dos passeios desde cedo ao cinema sem sequer entender realmente o que realmente era.
Mãe, irmã, tias, primas, avó paterna, todas muito vaidosas. Dentro da vida simples de mulheres trabalhadoras sempre tinham cuidado com cabelo, unhas, sobrancelhas, maquiagem. Mainha que gostava de Carnaval, até as fantasias cuidava de arrumar mesmo em tempos de vacas magras.
Até que não sei ao certo como aconteceu, a mulher que foi minha mãe entrou num certo casulo. E isto incluía uma ruptura com a sua própria imagem. Religiosa que era, eu sempre associei esta ruptura a passagem de um tal frei, ícone do catolicismo popular, que passava em missões pelo interior do Nordeste.
Nunca vi com bons olhos essa tal visita a cidade, porque depois disto minha mãe passou a vestir uns vestidinhos como túnicas, muito comuns de ver no sertão. Você usar aos 90 anos, talvez. Mas no auge dos seus 40 anos, foi demais para mim.
Para nossa alegria, até o fim de seus dias, ela preservou o cabelo belíssimo, as sobrancelhas e unhas muito bem-feitas. Os brincos e sorriso sempre.
Na pré-adolescência acho que como na lenda de Mogli, fui deixada lá na selva, e fiquei muito tempo por lá. Não tinha mais os mimos nem os enfeites de menina. E sim repressão pelo meu corpo de mulher que florescia.
Era eu com meus cheiros, cabelos curtos, repicados ou longos e a constante farda escolar. Confesso que fiquei numa oca invisível. Me guardei um bom tempo na selvageria quase indivisível da minha adolescência e juventude, aprendendo a cuidar de mim mesma, sem ter que me confrontar com qualquer espelho.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de agosto de 2025.