Em 2008 eu estava imersa na minha pesquisa de doutorado. Havia me colocado um cronograma, e aquele seria meu último ano de escrita, depois de um período intenso de pesquisa documental e trabalho de campo. Internamente eu me sentia pressionada, ao mesmo tempo instigada com a pesquisa e o texto da tese.
Naquele período para poder relaxar me ajudava muito ler quadrinhos, mais particularmente as graphic novels, que trazem histórias em profundidade. Por isso ia com uma certa frequência a emblemática loja especializada em quadrinhos, a Comic House, criada pelo querido Manassés Filho.
Passava algumas horas olhando os títulos, conversando com o Manassés, pegando os livros. Foi com a obra Persépolis, que conheci a artista Marjane Satrapi. Ela nos deixou no último dia 04. O comunicado de sua família dizia que ela havia partido de tristeza, assim como Nasser Ali, personagem de um de seus livros, Frango com Ameixa (Companhia das Letras, 2008).
A obra autobiográfica dela dialogava não apenas com as meninas e mulheres do Irã, mas de certo modo com muitas de nós espalhadas em diferentes países e culturas. Persépolis nos apresentava uma menina que crescia e começava a questionar uma cosmovisão na qual as mulheres não tinham lugar de autonomia, liberdade, cidadania. Uma leitura feminina/feminista da história política de seu povo, e o revelar a diáspora vivida pela autora e seus conterrâneos.
Os temas mais duros tratados por ela podiam ser ditos com um humor inteligente e questionador. Num tempo de construção de narrativas falsas, frágeis e fáceis, a obra da Marjane Satrapi representa uma pedagogia cultural relevante para tentar entender o feminino, considerando muitas intersecções.
Persépolis como uma autobiografia traz imagens representações sociais relevantes sobre o sagrado numa cultura de olhar patriarcal, que ainda hoje se faz presente em outras culturas mundo afora. No livro, compartilhou etapas de sua vida como mulher, desde a infância até a vida adulta, buscando romper o medo, as violências e aspirando um projeto de vida e autonomia. Imaginando para si mesma e para diversas mulheres do Irã outro futuro, para além do controle do Estado, da família, do marido.
Há muitas Marjanes em seus livros, essa mulher múltipla e holística na construção de uma linguagem muito particular no traço, na narrativa gráfica, no pensamento. Eu me diverti horrores ampliando meu conhecimento sobre elas e as mulheres iranianas lendo o livro Bordados, especialmente porque nele encontrei semelhanças com alguns relatos das mulheres sertanejas.
Esse ano fui ler Mulher, Vida e Liberdade, livro organizado pela autora, em que reúne vários artistas, escritores, para refletir sobre os protestos em Teerã, depois da morte de Mahsa Amini, estudante iraniana que foi detida e espancada pela polícia religiosa por não usar “devidamente” o hijab (véu usado pela maioria das mulheres mulçumanas). Nesse trabalho é possível conhecer um pouco mais sobre a história persa e a história das mulheres no Oriente.
Nos últimos meses o território iraniano vem sendo palco de uma guerra que começou em 28 de fevereiro com o bombardeio a uma escola primária feminina - a Shajareh Tayyebeh - que matou em torno de 175 pessoas, a maioria meninas entre 5 a 12 anos. Infelizmente a misoginia equipara os valores morais entre regimes políticos aparentemente diversos seja no Oriente ou Ocidente.
Em seu trabalho inteligente, criativo, bem-humorado ela nos leva ainda hoje a imaginar uma reconstrução do lugar das mulheres na cultura, na vida cotidiana, na arte. Eu guardo um sentimento de gratidão por seu legado, sua obra artística construída com muita responsabilidade, beleza e compromisso com cidadania feminina.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 19 de junho de 2026.