No dia de ontem mais uma vez as mulheres agricultoras do Pólo Sindical da Borborema marcharam nas ruas de Remígio. Por que marcham as agricultoras agroecológicas há 17 anos?
As agricultoras do Pólo Sindical da Borborema marcham pela vida das mulheres, vivendo num país em que, só no ano de 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio. Desde a tipificação do feminicídio no Brasil, em 2015, em torno de 13.703 mulheres já foram assassinadas por sua condição de ser mulher.
A Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia defende o corpo-território em sua plenitude. Porque tem fé, porque acredita na construção de um espaço não apenas para si mesmo, mas para muitas gerações de homens e mulheres num território que se constitua saudável, livre de veneno dos agrotóxicos que são pulverizados contaminando água, solo, impactando a saúde de milhares de pessoas. A agroecologia representa esse chão onde se compartilha e se cultiva a vida.
Marchamos juntas contra as falsas soluções para a crise climática por aprofundar desigualdades. São inúmeras hoje, e corroem territórios sustentáveis agravando a crise climática e as desigualdades ao redor do Planeta, especialmente no Sul global.
Desde 2022, as mulheres agricultoras colocam na agenda política os impactos causados pelos megaempreendimentos de energia eólica em seus territórios, pois elas têm experimentado nas suas vidas, saúde e no meio ambiente os impactos deste modelo de negócio que se revela ainda excludente.
Em virtude disto reivindicam que se faça uma revisão das normas de licenciamento das empresas de energia eólica para salvaguardas socioambientais frente ao avanço dos projetos em seus territórios.
A Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia é um ato político pela preservação dos espaços de vida na defesa da preservação ambiental e justiça climática. Em que as mulheres agricultoras atuam para construir e consolidar alternativas sustentáveis, democráticas visando uma transição energética justa.
Na Marcha que aconteceu nesta quinta-feira em Remígio foi lançado o programa denominado Um Milhão de Tetos Solares, numa parceria entre Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), com a Fundação Banco do Brasil, a Cáritas Francesa e a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Uma iniciativa voltada à produção democrática de energia.
O programa será executado na Paraíba, em Pernambuco, no Piauí e Norte de Minas Gerais. É considerado um fruto, sobretudo da luta das mulheres do Semiárido por um modelo descentralizado de energia, que garanta participação popular nas decisões sobre territórios.
“Precisamos debater como é que a gente produz a nossa própria energia criando autonomia, incluindo as pessoas e sem ter que tirá-las dos territórios. Sem impactar a saúde, o meio ambiente e a caatinga. As experiências exitosas com energia saem dos territórios e dos processos de experimentação das famílias agricultoras. É esse o nosso legado, uma questão muito importante para nós nesse momento”, defende Roselita Vitor Albuquerque, agricultora do Polo da Borborema e da coordenação executiva da ASA.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de março de 2026.