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O medo da violência política

publicado: 15/05/2026 09h16, última modificação: 15/05/2026 09h16

por Sandra Raquew Azevêdo*

No último domingo, 10, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha lançou o relatório “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”. A gramática do medo têm sido instrumento da vida pública em diferentes esferas da sociedade brasileira - e em outros países também. Lamentavelmente.

Há alguns anos o conteúdo da violência tem sido o prato, o desjejum. Não é possível que no mundo não exista nada de bom, ou que na vida social, coletiva e comunitária nada transformador e bom esteja acontecendo.

Mas também é evidente que nossa rotina tem sido impactada pelo medo, sobretudo se você for mulher, se viver numa periferia urbana ou até mesmo na zona rural. O medo tem nos adoecido muito. E tem sido um instrumento de controle social com grande força.

Há gerações que quase não saem mais de casa. Sem contato com a realidade vai experimentando a vida mediada, editada pelos algoritmos, uma vida artificial e restrita. A construção de uma sociedade claustrofóbica passa pela gramática do medo, gerando muitos efeitos, sobretudo de desânimo, impotência, desesperança, depressão e pânico.

Distante do sentimento de autopreservação, a construção do medo como uma arma da política tem nos oprimido. Quase não falamos mais em opressão social, mas ela ainda tem feito parte da vida diária. Para se ter uma ideia, o relatório descreve que entre as mulheres o medo é totalizante, porque articula ameaças físicas, patrimoniais e sexuais.

As desigualdades sociais intensificam as situações de insegurança. Numa estrutura social assim a vulnerabilidade é imensa e a vida vai perdendo valor e sentido.

Percebi uma coisa que as informações sobre o relatório não trouxeram, que é o medo de falar sobre política. O cultivo da estratégia de polarização política fez com que refletir sobre as questões sociais estivesse num limiar muito delicado da esfera pública. Como resolver problemas socialmente relevantes sem pensar, nem conversar sobre eles, sem coletivamente negociar para construir soluções a curto, médio e longo prazos?

O discurso de ódio integra a gramática do medo de uma forma maléfica, operacionalizando uma fala totalizante. O totalitarismo tem sido nocivo para todos nós, independente das escolhas que fazemos. Talvez seja preciso ressignificar muita coisa na vida pública para enfrentar as barbáries. Compreendendo inclusive que a gente não é o centro do Universo, e que a vida é breve, muito breve. E que atravessamos uma crise ampla que não se resolve sozinha.

Atitudes bárbaras têm acontecido rotineiramente. Chocam a gente, impressionam, amargam. É preciso refletir junto sobre elas rumo a um novo pacto social com base na reconstrução de uma cultura de paz, e não de privilégios.

Que Educação deteriorada é essa que faz com que se ache “normal” e de “direito” agredir e torturar uma jovem trabalhadora doméstica grávida? Que faz com que alguém saque uma arma de modo banal e mate uma mãe de família indo pegar uma criança na escola por descontentamento no trânsito?

Eu fico juntando os cacos diante dessas situações tão absurdas. E procurando recuperar outro exercício da palavra, da educação, da política, da fé. Rumo à construção de Esperança que seja palpável. Que possa se constituir além das palavras ditas.

E mesmo no exercício da palavra, a busca e construção de um caminho mais respeitoso, mais gentil, menos doloroso, longe das paranoias e neuroses da polarização política. Não é possível pensar e agir coletivamente ancorada na postagem e repostagem de memes. A vida pública nos exige bem mais que isso.

Percebo também que não adianta socialmente ver o sangue, os conflitos, as dores, as diferentes formas de violência espelhados na tela, de modo desarticulado do debate sobre as políticas públicas.

Quais os fundamentos para nossos medos? Como superar a cultura do medo e romper com diferentes formas de controle da vida social, isolamento e desconfiança? O medo na nossa vida não pode ser uma mercadoria rentável.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de maio de 2026.