Em breve eu celebro sete anos aqui nesse espaço de A União colaborando como cronista. Imaginar que a existência da escrita foi uma revolução entre nós. Seguida, claro, de tantas outras revoluções ainda hoje para garantir o direito a ler e escrever de modo universalizado.
Quando penso sobre esse tempo, me vejo aprendendo, são sete anos, uma infância. É um processo. O desafio sou eu mesma na relação com o tempo.
A conquista de um “teto todo meu” é quase um contínuo, porque equacionar o tempo dedicado à escrita com as demais atividades é às vezes se sentir equilibrista num picadeiro do circo da vida. Circo beat, cantaria o Fito Paez. A vida da mulher que escreve é bem diferente da vida do homem das letras.
Compartilhar um habitat das palavras que parecem particular e íntimas é um desafio. É como se perceber um pouco despida. E por sua vez se sentir aquarelando as telas brancas onde se ancoram diferentes sentidos do dia a dia. Mesmos que frases apareçam monocromáticas.
Nesses sete anos muitas coisas aconteceram. E o acontecimento como uma certa novidade do mundo vai nos mobilizando também na narrativa sobre o cotidiano e construindo uma certa memória. O que cabe em nossos dias? Ou como a escrita enquanto experiência vai nos reinventando. O tempo do avesso em mim.
Desdobrada pelas palavras. Acho que a escrita é meu vagão de trem a fazer ranger os trilhos. E a me colocar diante de tantas paisagens humanas. É uma jangada com que quase todos os dias vou me navegando aos poucos diante da finitude.
Exercer um espaço de fala, de voz é sempre uma experiência de muita responsabilidade, diante de um tempo histórico cheio de silenciamentos, isolamentos, autoritarismos, repleto de ruídos, e tantas coisas ainda indecifráveis. Por isso, certas vezes, essa experiência de escrever é meio assustadora. Para que escrever?
Por outro lado, é uma jornada de autocompreensão da vida e suas nuances. Um mover. De dentro para fora e de fora para dentro. Inspirar e expirar.
Por causa disso eu amo escutar os mais antigos, quem senta-se à margem de tudo e de todos. Ouço uma oralidade que ilumina com lampejos de sabedoria. Escuto quem vive para lutar, e luta para viver. Vou me distraindo no mundo extraviado da poesia anônima.
Gosto de escutar as paredes como se fossem sítios arqueológicos para ler o que dizem do agora e do que já passou. Presto atenção no que tenta me ensinar as raízes das árvores. E gradativamente gosto de perceber o desmanchar das cores no céu e no mar. Diluir-me entre esses lugares me ajuda muitíssimo a me recompor, a me revestir das palavras como se nelas habitasse um lugar sagrado.
Escrever é duro porque rasga, palavras são fios cortantes. Por isso não romantizo a escrita. Apenas considero que pode se desdobrar num ato amorosidade silencioso, embora eu não precise de silêncio para poder escrever.
Escrevendo, eu carrego comigo um sentimento de gratidão profunda a todas as histórias ancestrais que me chegaram desde cedo. Celebro a vida de quem me narrava as histórias nutrindo minha imaginação. Risos e dores entrelaçadas que iam desatando os nós da própria vida e abrindo novos caminhos.
Da adolescente à mulher adulta a escrita foi sendo construída como um universo paralelo, coexistindo com tantos outros ofícios: jornalista, professora, pesquisadora... Um lugar particular diante das impermanências da própria vida.
Nesses anos escrevendo nesse espaço, escrever durante o período da pandemia me marcou bastante. Narrar os dias atravessada pelo luto e pelas lutas num momento de tanto autoritarismo e violências no país.
Narrar o cotidiano entre imagens de valas à céu aberto, sentindo tristeza, cansaço, indignação. E ver, nas incertezas daquelas horas, milagres cotidianos acontecendo na partilha do pão, da esperança e na restauração de muitas vidas.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de maio de 2026.