Escrevo lembrando do aniversário de minha mãe. Ao invés da soma, penso mesmo foi no que o tempo subtraiu, me tirou precocemente. A equação dos anos fisicamente distantes me colocou quase forçadamente no tempo presente, sem que mais me prenda a dor da despedida.
Ao celebrar a vida dela, eu nunca imagino o que poderia ter sido se sua vida tivesse sido ampliada um pouquinho mais. E sei que essas ideias para ela não fariam sentido.
Parece que o tempo nunca assustou minha mãe, como a mim me assusta e surpreende. Para ela parecia que começo-meio-fim eram como irmãs brincando de roda, brincando de mãos dadas.
Ela tinha uma certa devoção pela Lua, pelas plantas. Todas as vezes que escuto a Mercedes Sosa cantando “Como pájaros en el aire”, penso que a canção poderia ter sido uma canção feita para ela. A mulher diurna, chegando ao quintal ao amanhecer a contemplar a própria vida.
Essa mulher de agilidade nas mãos a tecer o dia. “Las manos de mi madre, parecen pájaros en el aire... las manos de me madre saben que ocorre por las mañañas, cuando amasa la vida, horno de barro, pan de esperanza” (Como pájaros en el aire – Mercedes Sosa).
Como na canção, minha mãe tinha uma maneira de amassar a vida, esse pão de esperança.
Neste dia em que completaria 86 anos eu acordei com os pássaros que cantam em minha janela bem cedo. Aí comecei a agradecer pelo tanto, pelo tudo, por sua proteção ao longo da existência.
Achei o dia estranho. Uma parte do tempo respondendo as obrigações do dia, e noutras horas respirando a amplitude da minha solidão. Falo assim, mesmo consciente de que não vivia grudada com a minha mãe e tendo deixado a casa ainda bem jovem.
Em certa medida minha mãe foi cúmplice de minha liberdade. Que no contexto de nossa história de vida representava libertação de padrões muito arcaicos de subordinação feminina. Celebramos juntas o pão da liberdade cotidiana até mesmo quando a vida não apresentava respostas simples.
Do que é feito uma mãe? De muita força criadora, mesmo quando não se pode literalmente parir. Criar sim, pode acontecer em todo tempo.
Diariamente minha mãe ia criando com suas poucas palavras, mas muito trabalho, um mundo possível para nós. Criava todo dia o pão da esperança. E os dias não precisavam ser perfeitos.
Em silêncio eu celebro seu cheiro, a maciez de seus cabelos, seu amor as plantas e interesse em nunca se afastar delas. A honestidade e a fé. A clarividência de quem viu o mundo e sua nudez, sem ficar amargurada.
Celebro os sorrisos tímidos, a generosidade em tocar meus pés nos momentos de cansaço, tendo sempre consciência de que para mim sempre foi um grande presente. E um sinal herdado dela que carrego em minha coxa direita.
Celebro especialmente em todos esses anos de “ausência” nossos reencontros enquanto durmo. Pois nos meus sonhos encontro estradas que me levam de volta aos braços de quem amo.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de fevereiro de 2026.