Há uns oito anos que eu não passava o período junino no território ancestral. Durante o hiato revivia as memórias felizes apenas. E construía internamente um espaço para recompor os sentidos da festa da colheita.
Discretamente, durante um bom tempo, vivia um retiro secreto, que me fazia atravessar o Solstício de Inverno, me orientando por um tempo-espaço particular, quase indivisível.
Neste ano, decidi retornar ao meu lugar no período junino, movida pela possibilidade de ver de perto o projeto musical Dominguinho, que reúne três artistas contemporâneos de grande talento: Jota Pê, Mestrinho e João Gomes.
O projeto construiu um repertório qualificado da música nordestina. Deu novo tom também as festas juninas. Mas vai além delas. Porque recompõe um tecido melódico contrastante com a avalanche de música ruim que a indústria fonográfica empurra goela abaixo.
Por onde passa, o projeto Dominguinho vai irradiado a beleza de vincular gerações com um repertório alicerçado na qualidade musical e respeito à cultura popular nordestina também.
Chegando ao território ancestral, a minha Macondo, fui costurando a festas juninas do passado com as do presente. O tecido para mim sempre foi o céu do sertão. Azul, azul, sem nuvens em pleno inverno. A festa junina chega quando a gente vai colorindo o céu de bandeirinhas e balões.
A memória afetiva sempre evoca os sorrisos, a movimentação na cozinha para fazer as comidas de milho e enfeitar a casa. As idas ao sítio para ficar no alpendre contemplando a chuva de estrelas à noite, sentindo o ar um pouco mais frio, contradizendo o calor de quarenta graus do dia.
Hoje as celebrações se multiplicaram bastante, atravessadas pela máquina gigante de fazer festas geridas por grandes engrenagens da publicidade das marcas. A festa-produto. O ritual político do pão e circo.
Fico pensando que muitos nordestinas e nordestinos carregam uma festa junina dentro de si, como se fosse um Natal. Um renascimento.
O que sempre me chamou a atenção desde a infância foi o sentimento profundo de partilha entre as pessoas na vida comunitária. Assim a gente compartilhava espigas de milho, curau, canjica, arroz doce, pamonha, bolo de milho, cafezinho, as frutas da estação e por aí vai.
A gente partilhava e partilha ainda hoje a alegria de viver junto a festa. A gente partilha a música e dançamos. Arrastamos o pé. E penso que há no ciclo junino uma felicidade mesmo singular.
Impressiona verdadeiramente como a tríade triangulo, zabumba e pandeiro podem sacudir o ânimo de um povo.
Por um tempo, a experiência do luto fez hibernar em mim a festa da colheita. Mas foi esse mesmo Solstício de Inverno, a colheita, a memória do sorriso festivo de mãe, pai, avó que me trouxeram novamente à beleza do reencontro com os sentidos profundos de celebrar a Dádiva.
Reencontrar, abraçar, acolher, arrastar o pé, agradecer, cultivar esperança, semear solidariedade, cantar como uma forma de oração. Pisar no território dos inselbergs, ver a Caatinga vestida de verde.
E no meio disto tudo celebrar e reconhecer a secular resiliência climática de nós sertanejos e a sabedoria construída ao longo de séculos. Fé é também festa!
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de junho de 2026.