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Serra acima, reencontrar a nascente

publicado: 30/01/2026 09h02, última modificação: 30/01/2026 09h02

Cachoeiras da chapada: “Irmãs que não via há muito tempo” | Foto: Acervo pessoal

por Sandra Raquew Azevêdo*

Eu demoro muito a tirar verdadeiramente férias. Embora as férias me sejam dadas. Considero férias um estado mental por inteiro, em que a gente se desliga da rotina de trabalho.

Cachoeiras da chapada: “Irmãs que não via há muito tempo” | Foto: Acervo pessoal

Nós mulheres quase nunca tiramos férias. Embora seja um direito. Embora pela dupla ou tripla jornada devêssemos ganhar um salário bem melhor e quem sabe gozar de férias no mínimo três vezes ao ano.

Falo assim tendo em vista os impactos na saúde física e mental, que não deveríamos nem separar, já que tudo faz parte do corpo. O nosso corpo feminino se desgasta imensamente nestas jornadas de trabalho fruto de uma educação para a desigualdade. Mas deixo para outra coluna este tema.

Pois bem, nesse ano, uma notícia difícil de digerir me deu uma rasteira bem grande. Daí me dei conta da necessidade de puxar o fio da tomada. E puxei.Avisei em casa que iria tirar férias, férias de verdade. Relutei internamente em comprar as passagens. Mas comprei. Como canta o Belchior: " o tempo andou mexendo com a gente sim".

O tempo da pandemia da Covid-19 para mim foi um divisor de águas. Embora considere que há muitas questões emergentes dali que precisam de cuidado, tratadas, passadas a limpo e curadas. A exemplo dos lutos, da reparação histórica, da transformação de uma mentalidade política tacanha e de sofrimentos que a gente talvez carregue como resquício.

A Dádiva é estar vivo depois daquilo. Pode até parecer exagero. Mas o que aconteceu no Brasil naquela época deveria virar filme e percorrer mundo. Acho pelo menos que o documentário da Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, talvez dê conta de uma parte dessa história.

De férias, decidi ir visitar e celebrar a vida de minha amiga Judi Herrera. Seus 86 anos me emocionam assim como sua trajetória e nossa trajetória. Decidi também ir para Serra Acima, como era chamada muito antigamente Chapada dos Guimarães.Eu acho que tenho devoção por este pedaço do Planeta. Penso também se eu não acreditasse em Deus, passaria a acreditar diante de Serra Acima.

A gente fala que conhece a Chapada, mas é só modo de dizer. Porque a Chapada é imensa, exuberante, misteriosa. Um vasto mundo. Cheguei aqui pela primeira vez em 1995. Morando em Cuiabá em 1997, retornei algumas vezes. E é sempre um lugar que, mesmo deixando de viver no estado de Mato Grosso, eu sinto vontade de estar, de rever.

A população da Chapada é formada pelo povo negro e indígena. A cidade é pequena, a Natureza é imensidão.Eu gosto de me sentir adentrando os paredões. É uma emoção que não sei explicar direito. Entrar nas matas, estar no Cerrado.

Gosto de me entregar para as cachoeiras. É uma emoção tão gigante que no início dá um pouquinho de medo. Que vai diminuindo à medida que você vai entrando mais na mata e nas águas.Quando uma cachoeira te abraça e reveste, te lava e te despe, te afaga, te cura, te energiza, e te coloca num estado de inteireza.

Eu estava sentindo muita saudade das cachoeiras da Chapada como se elas fossem irmãs que não via há muito tempo.Poder reencontrar a mata, as nascentes, as flores e as quedas d'água, foi poder abraçar o meu silêncio profundo. Foi me encher de amor de volta.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de janeiro de 2025.