Notícias

Zenit 122

publicado: 24/04/2026 09h04, última modificação: 24/04/2026 09h04
Zenit 122.jpg

“Nunca me arrependi de fazer da Zenit 122 uma companheira” | Foto: Divulgação

por Sandra Raquew Azevêdo*

Sem que eu tivesse consciência disso, ainda criança, as fotografias que eu via de alguma maneira iluminavam minha vida, e me enchiam de uma emoção que não sabia explicar. Só muito, muito tempo depois foi que li sobre bases filosóficas para compreender a fotografia. Antes de saber, eu apenas sentia as fotografias acariciarem minha alma.

Quando essa semana eu toquei novamente a primeira máquina fotográfica que pude adquirir senti uma emoção grande. Porque ao abrir a caixa encontrei também dentro dela todos os documentos do equipamento.

Estavam dentro da caixa a nota fiscal, a garantia, o manual, e, para minha surpresa, minha primeira identidade de repórter, a do Jornal Questão de Ordem. Eu tive uma vontade de chorar, mas saí pela casa como se tivesse ganho um bilhete de loteria.

Talvez ao reencontrar a câmera fotográfica eu tivesse achado uma parte de mim que estivesse precisando muito rever. Ao voltar a ler a nota fiscal, relembrei a data da compra: 11 de abril de 1997, e o preço que custou à época.

Comprar o equipamento foi uma escolha difícil diante de outras necessidades latentes. Só que nunca me arrependi da escolha que fiz fazendo do modelo russo Zenit 122 uma companheira.

A necessidade de caminhar com equipamento fotográfico falou mais forte. Estava me despedindo da cidade, indo embora, e por isto, as primeiras fotos foram meus últimos registros antes de partir.

Abrindo a bolsa da câmera fui pensando no que já havia fotografado com ela. Refleti sobre as imagens da minha própria vida e seus ciclos. Fotografei a minha solidão, as paisagens pelas andanças que fiz. Registrei amigos e amigas, e as minhas meninices... Queimei filmes, fiz imagens desfocadas. E consegui preservar alguns negativos ao longo dos anos.

Fotografava sorrido para a vida. E me divertia observando as páginas de copião, vendo as imagens em miniaturas antes de ampliar. Depois colava algumas imagens do copião em agendas.

É um tipo de fascinação. Um modo de perceber o mundo. Uma maneira de me perceber também entre mundos. Um jeito de conversar sem dizer nada em som alto. Talvez seja esse jeito silencioso que tenha me capturado. E que me faz estar imersa numa outra maneira de percepção da vida.

Não consigo traduzir em palavras a emoção que o reencontro com esse equipamento adormecido despertou em mim. Talvez porque num mundo saturado de tantas imagens de guerras, violências e horror, eu esteja mesmo clamando por outros exercícios do ver.

Acho que já fiz em muitos momentos da vida imagens-abrigo repletas de significados profundos.  Especialmente hoje em dia me esforço para ir sem pressa, sem excessos, sem banalizar as imagens.

Em 2017 assisti ao filme Visage, Villages dirigido por JR e Agnès Varda. Aquele filme foi uma meditação. Alguns anos antes havia visto Janela da Alma, dirigidos por João Jardim e Walter Carvalho, que havia me ensinado valores importantes sobre os exercícios do ver. Sal da Terra (Dir. Wim Wenders, Juliano Salgado), filme sobre a vida do fotógrafo Sebastião Salgado completam um pouco minha trilogia afetiva.

Se o maior acesso à fotografia veio com a popularização dos equipamentos. Hoje o desafio é a saturação e perda de memória.

Ao voltar a ver e tocar a minha primeira câmera fotográfica retornei a lugares em mim. Para além de um momento de nostalgia, o ressurgimento da câmera analógica me pareceu uma certa esperança num porvir.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de abril de 2026.