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Alta da Selic impulsiona contratação de consórcios

publicado: 27/04/2026 09h17, última modificação: 27/04/2026 09h17
Modalidade de autofinanciamento avançou 12,6% no primeiro bimestre de 2026
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Compra programada destaca-se por não cobrar juros para aquisição de bens e serviços | Foto: Evandro Pereira

por Samantha Pimentel*

Com a taxa básica de juros em 14,75% ao ano, o consórcio ganha espaço entre brasileiros como alternativa de financiamento. A modalidade, que se destaca pela ausência de juros na aquisição de bens e serviços, começou 2026 em alta, com 12,85 milhões de participantes ativos no país no fim do primeiro bimestre, 12,6% a mais que o registrado no mesmo período do ano passado, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac).

Em 2025, dos cerca de 12,75 milhões de participantes ativos, 22,9% estavam no Nordeste, segunda maior participação regional, atrás apenas do Sudeste. A Paraíba concentrou 1,5% desse total, ou seja, cerca de 195 mil pessoas participavam de consórcios. Apesar do avanço do setor e das facilidades oferecidas pela modalidade, especialistas recomendam avaliar com cuidado as vantagens e desvantagens para verificar se esse tipo de investimento é, de fato, o mais adequado às necessidades do cliente.

A modalidade funciona da seguinte forma: o consorciado une-se a um grupo com outros participantes, com foco na aquisição de uma carta de crédito de valor determinado, seja para adquirir um veículo, um imóvel ou um serviço. Para isso, todos pagam um valor mensal pelo tempo estipulado, mas a aquisição desse bem não acontece de forma imediata. Há sorteios, geralmente mensais, para contemplar algum dos participantes. Para quem dispõe de uma parte do valor total, também é possível dar lances, numa espécie de leilão, para agilizar esse processo.

Existem dois tipos de lances para adquirir a carta de crédito mais rápido e não contar apenas com a sorte. “O fixo é limitado em determinado percentual, normalmente em 40% do valor total. Já no livre, as pessoas vão dando os lances e os maiores daquele mês são validados, para o cliente também utilizar o crédito”, explica Ivo Cavalcante, consultor comercial da Sercosi Corretora de Seguros, localizada em Campina Grande.

Além disso, os valores pagos no consórcio podem sofrer alterações, geralmente anuais, de acordo com taxas como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), entre outras estabelecidas previamente em contrato. As taxas de administração variam entre administradoras, por isso vale pesquisar para garantir a melhor condição.

 Se acontecer de uma pessoa entrar num consórcio e não conseguir permanecer até o fim, devido a algum imprevisto financeiro, há a possibilidade de redução ou repasse da cota. Nesses casos, o cliente recebe a restituição do valor pago até então, com alguns descontos da administração.

O economista Alexandre Nascimento explica por que o consórcio tem se mostrado atrativo nesse momento. “Um dos índices que atualizam as parcelas do consórcio é o IPCA, que na inflação acumulada nos últimos 12 meses está em torno de 4% a 4,5%, se você comparar isso com a Selic [Sistema Especial de Liquidação e de Custódia] de 14,75%, mesmo com a taxa de administração diluída no consórcio, você tem realmente uma diferença grande”, destaca.

O economista explica, ainda, que diversas instituições financeiras operam com essa modalidade, regulada pelo Banco Central (BC). Ele recomenda que o interessado verifique, antes da contratação, se a empresa é autorizada no site do BC, evitando possíveis golpes.

Especialistas explicam vantagens e riscos

A engenheira civil, Maria Laura Fernandes Bezerra, optou pelo consórcio na hora de trocar de carro. Ela conta que seu primeiro veículo, adquirido em 2019, já havia sido comprado por essa modalidade. “O segundo automóvel que tive foi por meio de financiamento, onde consegui perceber que os juros estão muito altos. Eu estava pagando R$ 2 mil de parcelas mensais pelo carro financiado e então acabou que vendi esse carro e adquiri meu terceiro carro por meio do consórcio, um Honda Civic, pagando parcelas de menos de R$ 500 mensais”, relata, destacando que sua experiência é muito positiva.

Contudo, ela ressalta que a aquisição de bens por essa modalidade não é imediata, o que não é o ideal para todo mundo. No ato da contratação, Maria Laura conta que foi bem orientada nesse sentido, buscando alinhar seus objetivos com a previsibilidade de contemplação, e para escolher o grupo que melhor se encaixava com suas expectativas.

Segundo o consultor comercial Ivo Cavalcante, atualmente, há grupos para compra de carro com créditos a partir de R$ 25 mil e prazos de 50 a 90 meses. No caso dos imóveis, os valores começam em R$ 70 mil, mas os mais procurados ficam entre R$ 180 mil e R$ 200 mil, com prazo de até 200 meses (cerca de 16 anos). “Comparado a um financiamento, é praticamente metade do prazo. E um crédito nessa faixa de R$ 180 mil está saindo em torno de R$ 704 por mês”, afirma o consultor.

Entre os contras, o planejador financeiro, Guilherme Baía, destaca que a variação do valor das parcelas do consórcio podem ser de difícil planejamento: “Fatores como taxa de administração e fundo de reserva — que pode ser devolvido ao cliente no fim — impactam diretamente sobre o valor a ser cobrado. Considerando que os reajustes da carta de consórcio são pós-fixados, quase sempre dependendo de um índice de preços, é preciso considerar que a parcela reduzida de um consórcio até a contemplação acumula saldo devedor sobre o qual incidirá o reajuste, fazendo com que o valor da parcela a ser paga após a contemplação tornem o pagamento uma surpresa nada agradável”, aponta.

Ele pontua ainda que a evolução no valor dos imóveis, por exemplo, tende a superar os índices de preços. “Então, a demora na contemplação pode gerar insuficiência de fundos para a família conseguir a aquisição, gerando frustrações”, afirma.

Para quem usa o consórcio como uma espécie de “poupança forçada”, pensando em recolher o valor total ao fim do prazo, ele afirma que aplicar o dinheiro em investimentos seria mais eficaz. “Aplicações como Tesouro Selic, CDBs e CDI entregam liquidez e rentabilidade bastante superiores aos índices de preços, pagando rentabilidade real. Caso a família ainda não tenha condições de dar a entrada necessária e arcar com as parcelas, é melhor que ela tenha liberdade de escolhas, inclusive estando líquida [com dinheiro disponível] para eventualidades que possam surgir”, orienta.

Tanto o economista Alexandre Nascimento, quanto o planejador financeiro Guilherme Baía convergem no entendimento de que o consórcio pode ser uma alternativa interessante, desde que o consumidor compreenda bem seu funcionamento e, sobretudo, disponha de capital para ofertar lances e antecipar a contemplação do bem ou serviço desejado.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de abril de 2026.