Encontrar um imóvel para alugar em João Pessoa tem exigido mais tempo, mais flexibilidade e, principalmente, mais dinheiro. Os valores cobrados pelos aluguéis residenciais na capital paraibana avançaram em ritmo superior ao da inflação em 2025 e colocaram a cidade entre as capitais com maior alta do país, segundo dados oficiais do Índice FipeZAP de Locação Residencial.
Os preços dos aluguéis em João Pessoa iniciam 2026 acumulando um aumento médio de 15,31%. O percentual supera com folga os principais indicadores de inflação do período, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que fechou o ano em 4,26%, e o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), que registrou variação negativa de 1,05%. No ranking das capitais monitoradas, João Pessoa aparece entre as cinco com maiores altas, atrás apenas de Teresina, Belém, Aracaju e Vitória.
O movimento local acompanha uma tendência nacional. Em 2025, o Índice FipeZAP de Locação subiu, em média, 9,44% no país, considerando 36 cidades acompanhadas. Ainda assim, o avanço observado na capital paraibana ficou bem acima da média nacional, revelando uma pressão específica do mercado local. Para o economista Filipe Reis, que é professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), a explicação passa, acima de tudo, por uma lógica básica da economia.
“Quando a demanda aumenta e a oferta não cresce na mesma proporção, a tendência é de elevação dos preços”, afirma. Com João Pessoa atraindo moradores de outras regiões do país e do próprio estado, o impacto no mercado de locação é direto. “O primeiro movimento de quem chega à cidade costuma ser alugar um imóvel. Só depois vem a decisão de compra. Isso gera uma pressão inicial muito forte sobre o mercado de aluguel”, explica o economista.
Esse fluxo migratório recente, associado à percepção de qualidade de vida e custo ainda competitivo em relação a outras capitais, ajuda a entender o aumento da procura. Outro fator destacado por Filipe Reis é o patamar elevado das taxas de juros no país. Com o crédito imobiliário mais caro, parte dos potenciais compradores adia a decisão de adquirir um imóvel. “Quando os juros estão altos, o financiamento pesa mais no orçamento. Isso inibe a compra e mantém mais pessoas no mercado de aluguel”, diz.
Essa dinâmica aparece de forma concreta na experiência de quem está à procura de um imóvel. É o caso do gestor financeiro Francisco Wagner, de 44 anos, que, há cerca de duas semanas, iniciou a busca por um novo apartamento para alugar em João Pessoa. Morador do Jardim Oceania há mais de sete anos, ele precisará deixar o imóvel atual após a venda do prédio onde mora.
“Estou assustado. Os preços estão bem altos. Um apartamento da mesma tipologia do que eu moro hoje, que custa em torno de R$ 1.600, está sendo anunciado por cerca de R$ 3 mil. Isso é mais que o dobro do atual”, relata. Wagner procura um apartamento de três quartos, preferencialmente térreo, no mesmo bairro. A escolha não é apenas financeira. Envolve a rotina da família, formada por cinco pessoas e a rede de apoio construída ao longo dos anos no bairro. “Mudar muito de região implica mais tempo no trânsito, mais dificuldades no dia a dia, e é aqui onde moram meus pais e amigos”, explica.
Troca de inquilino abre espaço para reajuste
Enquanto o inquilino percebe a pressão do lado da demanda, quem atua no mercado imobiliário observa o fenômeno de perto. O corretor de imóveis Ranyery Ribeiro, da Anchieta Imobiliária, administra cerca de 200 imóveis para locação na Grande João Pessoa e afirma que o aumento dos preços não ocorre de forma uniforme.
“Em algumas situações, os reajustes são acima da inflação, sim, mas não dá para generalizar”, diz. Segundo ele, muitos contratos antigos ainda mantêm valores abaixo do mercado por decisão dos proprietários, especialmente quando há uma relação consolidada com o inquilino. “O que acontece com mais frequência é o seguinte: contratos antigos não conseguem acompanhar esse movimento. Mas, quando o imóvel é desocupado, o valor do novo contrato já entra no preço de mercado”, explica o corretor.
Esse ajuste ocorre justamente no momento de troca de inquilino, quando a margem para reposicionamento do valor é maior. Ranyery também destaca o aumento da procura por aluguel, especialmente em determinados períodos do ano. “Entre outubro e março, que é a alta estação, a demanda cresce bastante. Muita gente trabalhando em home office tem escolhido João Pessoa para morar”, afirma.
Os dados do FipeZAP ajudam a dimensionar esse cenário. Em dezembro de 2025, o preço médio do aluguel residencial em João Pessoa foi de R$ 47,64 por metro quadrado. Entre os bairros com maiores altas, estão Miramar, com aumento de 28,8% e preço médio de R$ 51,40/m²; Portal do Sol, com 26,5%; Bessa, com 23,4%; Aeroclube e Manaíra, ambos com 17,9%. São regiões que concentram infraestrutura urbana, proximidade da orla ou novos empreendimentos, fatores que influenciam a formação de preços.
Diante dos valores encontrados, Francisco Wagner admite que já considera rever algumas exigências. “Ou vou ter que mudar de bairro, ou procurar um apartamento que não seja térreo, mas que tenha elevador. Não está fácil encontrar algo dentro do que a gente planejava”, diz. Ele também cogita fazer contrapropostas aos proprietários, na tentativa de ajustar os valores à sua realidade financeira.
Essa possibilidade de negociação ainda existe, segundo o corretor Ranyery Ribeiro, especialmente em renovações de contrato. “A maioria dos proprietários ainda abre espaço para conversar. Mas há casos em que o valor é mantido, e, se o inquilino sai, o próximo já entra pagando o novo preço”, afirma.
Francisco Wagner confirma que a negociação faz parte da estratégia para escapar do peso dessa alta do aluguel. “Uma coisa é o valor pedido, outra é o que a gente consegue pagar. Às vezes, dá para chegar a um meio-termo”, diz, enquanto segue em busca de um imóvel que se encaixe nas necessidades da família e na realidade do mercado atual.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de janeiro de 2026.