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Alerta

Copa do Mundo é gatilho para apostas esportivas

publicado: 25/06/2026 09h18, última modificação: 25/06/2026 09h21
Bets clandestinas retiram R$ 40 bilhões por ano da economia do país
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Parte dos apostadores sacrifica gastos essenciais e poupança para tentar obter lucro rápido | Foto: Evandro Pereira

por Bárbara Nascimento*

A Copa do Mundo mexe com o coração dos brasileiros, mas, nos últimos anos, o ritmo das batidas ganhou a companhia dos alertas de notificação dos aplicativos de apostas esportivas, movimentando um mercado bilionário que, somando apenas o segmento clandestino, já gira cerca de R$ 40 bilhões por ano no país. Estimulado pelo clima de festa, pelo bombardeio publicitário e pela paixão nacional, um contingente cada vez maior de brasileiros encontra nas plataformas de bets um gatilho para tentar a sorte.

O fenômeno transcendeu o universo do entretenimento e acendeu uma luz vermelha: a ilusão do ganho rápido em grandes eventos pode abocanhar recursos que deveriam sustentar o consumo básico e a estabilidade financeira das famílias.

Essa atmosfera de euforia coletiva cria um viés de otimismo exacerbado e propicia o comportamento impulsivo. E a linha que separa a diversão do prejuízo severo e do adoecimento mental é tênue. O corretor Derek Correia, de 35 anos, vivenciou como a escalada das apostas corrói as finanças. “Já pensei na aposta como renda extra, só que chegou a um ponto de eu não ter coisas em casa e deixar contas abertas por causa disso. Perdi meu casamento, tive muita ansiedade e, hoje, tomo remédio porque, no passado, exagerei e perdi o controle. Você deixa de fazer um lazer com a família e de comprar uma roupa para tentar recuperar o dinheiro e só se afunda. É um vício muito grande, e a influência das marcas em eventos de grande porte faz a gente querer apostar mais alto, o que é bem ruim para quem tenta sair”, desabafa.

O efeito colateral do crescimento das apostas preocupa o governo brasileiro, que tem discutido o tema com regularidade e atuado para ampliar a proteção ao consumidor e combater o mercado ilegal. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Decreto no 13.033/2026, que autoriza bloqueio imediato de contas das casas de apostas de quota fixa irregulares. A medida também estipula que, ao fim de um processo legal, o recurso congelado será usado no enfrentamento ao crime organizado no país, por meio do Fundo Nacional de Segurança Pública.

Efeitos no mercado

O impacto econômico da aposta como hábito atinge em cheio o varejo pelo chamado “custo de oportunidade”: cada real depositado em uma bet é um real a menos circulando nas lojas e supermercados, por exemplo.

Análises indicam que o dinheiro apostado nas bets é subtraído da economia real: um apostador que destina R$ 150 mensais às plataformas deixa de consumir itens básicos ou de acumular uma reserva de emergência de R$ 1.800 ao ano. Ao subir o gasto para R$ 300 por mês, a renúncia atinge o vestuário e o pagamento de contas essenciais, inviabilizando a quitação de dívidas. Nos patamares a partir de R$ 500 mensais, o comprometimento migra para as parcelas de bens duráveis ou investimentos em educação, fragilizando severamente a capacidade de poupança de longo prazo das famílias brasileiras.

Regulação fortalece segurança para usuários

Nesse contexto, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidade fundada em 2023 e que reúne as principais empresas de apostas do Brasil e do mundo, argumenta que a proteção do cidadão passa pelo combate rigoroso ao mercado clandestino, que opera sem fiscalização e gera perdas anuais estimadas em R$ 10,8 bilhões em arrecadação.

Desde a regulamentação do mercado, o IBJR defende que as apostas devem ser tratadas como entretenimento pago, em um ambiente devidamente fiscalizado, com regras claras e operadores comprometidos com a conformidade legal e a garantia da transparência. Diferentes do mercado ilegal, as plataformas associadas ao instituto operam sob regras rígidas do Governo Federal. A organização destaca que o ecossistema regulamentado (com sites sob a extensão obrigatória “.bet.br”) oferece ferramentas auditadas de segurança, como controle etário e mecanismos de autoexclusão, além de proibir transações via cartão de crédito. 

Planejar orçamento é estratégia para evitar prejuízos | Foto: Divulgação/IBJR

Sob a ótica do endividamento, o IBJR aponta que, em 2025, as bets licenciadas movimentaram apenas 0,46% do consumo das famílias, segundo a LCA Consultoria. Para o instituto, o endividamento estrutural é impulsionado pelo custo do crédito, visto que dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de maio de 2026 mostram que 84,6% das famílias possuem dívidas, tendo como principal vilão o cartão de crédito, que atinge taxas de juros superiores a 450% ao ano.

Para mitigar riscos econômicos e suas ramificações danosas, como o impacto na saúde, especialistas em educação financeira recomendam blindar o bolso estabelecendo um “orçamento do entretenimento” com valor fixo e não comprometedor de renda (R$ 50 ou R$ 100 para todo o período da Copa, considerado como dinheiro já gasto), além de monitorar o tempo dedicado à atividade e respeitar a proibição do uso de crédito para jogos.

Identificar que o ato de apostar gera ansiedade ou afasta o indivíduo do convívio familiar é o sinal de alerta para buscar ajuda especializada. Seguir tais diretrizes e garantir que o mercado atue sob regras estritas de transparência é o melhor palpite para que a paixão pelo futebol fique restrita às quatro linhas e o torcedor termine o Mundial com as contas no azul.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de junho de 2026.