A informalidade ainda marca a gestão financeira de grande parte dos pequenos negócios, inclusive na Paraíba. No estado, 63% dos empreendedores utilizam a conta pessoal para pagar despesas da empresa, prática que também é comum em todo o país, onde o índice chega a 61%. Os dados fazem parte da pesquisa “Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios”, realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e revelam um cenário preocupante sobre a separação entre finanças pessoais e empresariais.
Apesar dos avanços em ferramentas financeiras voltadas para pequenos negócios, a separação entre finanças pessoais e empresariais ainda é um desafio para os pequenos negócios. O contador João Alberto de Carvalho explicou que a prática de misturar as finanças pessoais das empresariais fere totalmente o princípio da Entidade no ramo da contabilidade. “Deve ser de fato separado para que tenhamos nossas contas físicas e jurídicas saudáveis e sem prejuízos”, constatou.
O Princípio da Entidade, citado pelo contador, é um fundamento contábil que determina a separação total do patrimônio de uma empresa do patrimônio pessoal de seus proprietários ou sócios, sendo considerado a regra de ouro para manter a saúde financeira e jurídica de um negócio.
A pesquisa do Sebrae aponta ainda que, quanto maior for o porte da empresa, menor a incidência de uso de conta pessoal para pagar despesas empresariais. Isso sugere que a formalização cresce acompanhando o tamanho da empresa.
Controle
A forma como os empresários organizam o controle financeiro também revela desafios na gestão dos pequenos negócios. Na Paraíba, 28% ainda utilizam anotações em cadernos para acompanhar as finanças da empresa, enquanto 26% recorrem a planilhas. O uso de aplicativos ou sistemas digitais aparece em 19% dos casos, e 18% dos empreendedores deixam essa responsabilidade exclusivamente a cargo do contador. O levantamento aponta ainda que 6% dos entrevistados afirmam não adotar qualquer tipo de controle financeiro no negócio.
O contador João Alberto afirmou que não recomenda o controle com anotação em caderno, mas ponderou que as planilhas, quando bem utilizadas, podem ser excelentes ferramentas, já que possibilitam até a elaboração de gráficos e facilitam ter um bom sistema de contas.
O empresário Geovando Nascimento, que há cinco anos trabalha com produção de ovos na Avícola GFN, é bastante organizado nesse ponto. “Uso um sistema de vendas. Faço anotações em planilhas e fichas em pranchetas. No final, tudo vai para o sistema e algumas coisas ficam em uma planilha na nuvem, fica uma pessoa responsável por tratar todas as informações, gerando um DRE [Demonstração de Resultado de Exercício] bem elaborado”, contou.
Geovando explicou que a gestão financeira do negócio foi sendo aperfeiçoada com o tempo, mas desde o início já havia uma boa organização. “Eu já trabalhava com planilhas. Já gostava de fazer fórmulas para ajudar na gestão. Nossa planilha já tem tudo automático”, contou. Ele lembrou que gostava de estudar sobre o mercado financeiro e, por isso, já entendia a importância de uma boa gestão financeira para o negócio.
A empresária Priscila Abreu, por outro lado, confessou que se identifica com o perfil mostrado pela pesquisa e que, às vezes, acaba misturando um pouco as finanças pessoais com as contas da confeitaria La Trufel, que administra em João Pessoa. “É uma empresa familiar, temos 20 anos, e acabei adquirindo os costumes de minha mãe”, avaliou.
Ela ressaltou, porém, que já estabeleceu como meta para este ano melhorar esse aspecto que, para ela, é a parte mais difícil de gerenciar um negócio. “Estou determinada a aprender esse ano, e mudar. Inclusive eu pedi para o Sebrae uma nova consultoria financeira”, revelou.
Estado lidera em confiança nos contadores
Um ponto positivo para os empreendedores paraibanos, demonstrado pela pesquisa do Sebrae, é que 48% deles afirmaram ter o contador como a principal fonte de informações financeiras para a empresa. O contador apareceu como um pilar central em todo o Brasil, mas o índice da Paraíba foi o maior do país, cuja média ficou em 34%.
As outras fontes de informação mais exploradas pelos empreendedores paraibanos são a internet (sites, redes sociais, vídeos), com 22%; banco ou gerente, com 20%; Sebrae, com 12% e consultoria financeira, com 3%. Há ainda 11% de empreendedores que afirmaram não buscar nenhuma fonte de informação.
A gestora do Programa Sebrae na sua Empresa e Conexão Financeira na Paraíba, Márcia Timotheo, destacou que ter informações financeiras precisas e atualizadas permite que os empreendedores tomem decisões consistentes. Ela ressaltou que o Sebrae disponibiliza treinamentos, oficinas, orientação personalizada e ferramentas para ajudar os empreendedores a gerenciar suas finanças.
“O Programa Sebrae na sua Empresa é um atendimento ativo, presencial e gratuito, onde o consultor vai até a empresa, realiza um diagnóstico e apresenta recomendações de melhoria. A Planejadora Sebrae também é uma grande aliada para o empreendedor analisar a situação financeira atual e projetar resultados futuros”. É possível acessar a Planejadora.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de janeiro de 2026.