Nos últimos anos, e mais intensamente do ano passado para cá, só se fala nela: a Inteligência Artificial (IA). Há quem ame, há quem odeie e há quem tenha medo, principalmente porque sempre tem quem afirme que a IA vai roubar empregos. A reportagem do Jornal A União conversou com especialistas e usuários da tecnologia para entender melhor as vantagens e desvantagens das IAs que estão se popularizando cada vez mais.
A professora do Centro de Informática da Universidade Federal da Paraíba, Thaís Gaudêncio, que pesquisa inteligência artificial, acredita que, assim como aconteceu no processo da revolução industrial, a IA impactará de forma mais direta os empregos que só requer a execução de tarefas repetitivas e automatizáveis, mas demandará também por profissionais especializados na área, fazendo com que sejam criados novos empregos e novas habilidades.
“Por exemplo, em muitas profissões, com o grande aumento do volume de dados disponíveis, poderemos tomar decisões mais facilmente utilizando essa fonte de informações como suporte. Dessa forma, muitos trabalhadores precisarão se adaptar e adquirir novas habilidades na área de IA, precisando, inclusive, compreender seus desafios éticos e regulatórios”, afirmou.
"A Inteligência Artificial imita e monta bem, mas ela não cria. Quem cria é a gente"
- Valdenio Meneses
Ela não acredita que profissões serão totalmente extintas, mas as vagas podem reduzidas. “Algumas profissões enfrentam o risco significativo de serem profundamente alteradas. É só pensarmos nos tradutores. Hoje as ferramentas de tradução automática funcionam super bem, no entanto, a IA ainda terá dificuldade de tratar neologismos, alguns termos técnicos ou alguns sotaques. Sendo assim, em um contexto mais geral, poderemos usar essas ferramentas automáticas, mas em casos específicos os tradutores ainda serão fundamentais”, exemplificou.
Para Thaís, o uso de IA para realizar as tarefas mais rotineiras e repetitivas é extremamente interessante, já que permite que os seres humanos se concentrem em tarefas mais complexas e criativas.
Imitar e criar
O professor de Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande, Valdenio Meneses, afirma categoricamente: “A IA imita e monta bem, mas ela não cria. Quem cria é a gente”.
Ele contou que em suas aulas de Escrita Acadêmica tem usado o ChatGPT como gerador de texto para levar os alunos a uma reflexão crítica sobre a escrita. “É como um espelho. Os textos gerados pela inteligência artificial refletem a forma que escrevemos nas ciências humanas”, disse.
"Muitos trabalhadores precisarão se adaptar e adquirir novas habilidades"
- Thaís Gaudêncio
Valdenio comentou que muitos colegas têm resistência a essa tecnologia, o que ele considera que não adianta, pois ela já está em uso. Ele acredita que a IA é útil, mas a edição humana ainda é necessária. “A inteligência artificial tem método, tem técnica, mas não produz significado. A tendência de gerar um texto distorcido é alta”, avaliou.
Apesar de reconhecer a utilidade, o professor também acredita que existe um lado ruim. “A gente tem ouvido falar de muitas demissões, que, além de prejudicarem quem perdeu o emprego, sobrecarregam quem fica. É interessante observar que a tecnologia não nos deu tempo livre, apenas aumentou a carga de trabalho. Já vimos isso na pandemia quando, mesmo em casa, as pessoas acabavam trabalhando mais”.
Facilidade
A jornalista Kaylle Vieira contou que ainda está aprendendo a lidar com as ferramentas, mas já usa a inteligência artificial para tarefas como resumo de vídeo, transcrição de áudio e produção de ata. Ela também usa uma agenda, que funciona como uma espécie de secretária virtual. “Eu anoto todos os meus compromissos, lembretes, rotinas do dia, reuniões recorrentes, então todo dia eu recebo a minha agenda. Peço para me informar, 7h da manhã, tudo que eu tenho para fazer naquele dia”, detalhou.
“Sempre que vejo um vídeo em alguma rede social falando de uma inteligência que pode agregar ao meu dia a dia, à minha rotina de trabalho, faço o teste. Se funcionar bem, eu uso, se não, eu descarto”, completou.
Alguns dos desafios são a regulamentação e o bom uso das IAs. “As pessoas ainda não sabem utilizar a ferramenta, em relação, principalmente, à definição das entradas, aprendendo a delimitar o escopo para o seu problema, e as palavras que o definem, para obter a melhor resposta. Definir bem o problema e ter um vocabulário rico o suficiente para defini-lo são essenciais no uso do ChatGPT, por exemplo”, argumentou Thaís Gaudêncio.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de setembro de 2024.