Ingrediente tradicional da culinária paraibana, a fava também se destaca na produção agrícola do estado. Com 1.965 toneladas de grãos, a Paraíba ocupa o segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas do Ceará, que produziu 5.906 toneladas, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em território paraibano, toda a produção é proveniente da agricultura familiar e, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Algodão (Embrapa Algodão), a cultura está presente em 123 municípios.
A engenheira agrônoma Nair Helena, da Embrapa Algodão, explica que os agricultores cultivam em áreas pequenas (média de 1 hectare), geralmente em consórcio com o milho. “A haste do milho atua como suporte [tutor] para o crescimento trepador da fava”, descreve a pesquisadora
A Paraíba destaca-se, também, pela preservação de sementes crioulas, ou tradicionais, mantidas de geração em geração pelos agricultores familiares. No estado, são cultivadas mais de 20 variedades de fava, entre elas orelha de vó, manteiga, branca, boca de moça e moita. Fatores sazonais impactam o cultivo. “Por ser uma cultura de sequeiro, que depende das chuvas, a produção varia com o clima”, explica Nair.
De acordo com o mapeamento da Embrapa Algodão, o grão é cultivado predominantemente no Brejo e no Agreste paraibanos, por ser uma planta rústica e com boa tolerância ao estresse hídrico. Segundo a pesquisa do IBGE, em 2025, Mogeiro liderou a produção estadual, com 252 toneladas de fava. Na sequência, aparecem Alagoa Grande, com 240 t; Araçagi, com 150 t; e Massaranduba, com 105 t.
Entre os desafios enfrentados pelos agricultores, estão o baixo nível de mecanização, a dependência de intermediários na comercialização, a escassez de sementes com garantia sanitária e o ataque de pragas de armazenamento e fungos nas sementes estocadas. Apesar desses entraves, a cultura tem papel importante na economia das famílias rurais. “A fava é fundamental para a segurança alimentar rural, como fonte de proteína vegetal, e para a composição da renda familiar”, afirma a engenheira.
Pesquisa
Nair Arriel explica ainda que a pesquisa científica voltada para o cultivo do feijão-fava (Phaseolus lunatus L.) engloba desde a conservação genética até o manejo sanitário e fisiológico das sementes. A Embrapa atua no mapeamento, na conservação ex situ e caracterização dos recursos genéticos do feijão-fava por meio do seu Banco de Germoplasma e da Coleção Ativa de Fava.
Já a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desenvolve estudos aplicados à qualidade física, fisiológica e sanitária de sementes crioulas produzidas no estado. A inclusão da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa — Programa Paraíba (AS-PTA), por sua vez, completa o panorama da fava no estado, pois a organização desempenha um papel crucial na conservação in situ/on farm (nas propriedades rurais) e no fortalecimento socio-organizativo da agricultura familiar, especialmente na região do Agreste e no Polo da Borborema.
Tradição impulsiona comércio e gastronomia
A comercialização da fava no estado ocorre por meio da venda direta em feiras livres no interior — como em Campina Grande, Areia e Alagoa Grande —, e também das feiras agroecológicas e da agricultura familiar em João Pessoa — como as feiras nas universidades públicas, e em bairros como Bessa, Manaíra e Bancários. “Boa parte da produção é comprada nas propriedades por atravessadores que consolidam as cargas e vendem para grandes entrepostos (Ceasa) e mercados centrais de João Pessoa e Campina Grande”, detalha a pesquisadora Nair Helena, da Embrapa.
O comerciante Antônio Carlos Rodrigues trabalha no Mercado Central de João Pessoa com uma oferta de diferentes grãos, e a fava é um dos principais produtos no box comandado por ele. “Eu vendo oito tipos de fava. A tradicional, que a gente chama de ‘lavadeira’, é a mais vendida para os restaurantes e bares, e é a mais procurada também. Aí tem também a vermelhinha, e uma miudinha, que parece feijão. Tem a do sol, a branca e outras”, conta.
Para ele, a fava é um produto consolidado no mercado local. “Ela é bastante procurada. Mesmo porque, a fava é tradicional da Paraíba. Restaurantes e bares servem muito este grão [com o qual se faz a favada], um prato bem procurado, é um dos ‘carros-chefe’ da culinária paraibana, o turista vem de fora e quer comer a fava. É um prato muito tradicional do Nordeste. Aqui da Paraíba, principalmente. A fava é apreciada pelo sabor, ela é bem macia, mais amanteigada, tem um gosto diferente do feijão”, opina Antônio.
Em um dos boxes do setor de grãos do Mercado Central de João Pessoa, mesmo em um dia sem tanto movimento, no meio da tarde, uma cliente aparece e leva para casa mais de 10 kg de fava, de tipos diferentes. A branca, com preço mais baixo no período, foi uma das escolhidas. O preço é fator determinante para Rosário Morais, que cozinha refeições servidas em um restaurante self-service no bairro Alto do Mateus. “Compro toda semana, e em grandes quantidades. Não pode faltar fava no cardápio, porque os clientes gostam muito”, conta a cozinheira. “Eu faço todo dia e amo cozinhar [este prato]. Compro aqui [no Mercado Central] e em outros lugares, sempre onde estiver mais barato, porque os preços mudam muito”, acrescenta.
Preços
Durante a safra, a maior oferta de fava verde e seca pressiona para baixo os preços pagos aos produtores. Já na entressafra e em períodos de estiagem, a redução da oferta encarece o produto nos mercados da capital.
Os feirantes também se preocupam com o valor final. Para Antônio, a maior dificuldade em relação à fava é a variação do preço. “Quando a safra não é muito boa, não teve chuva [o suficiente], ela fica mais cara e não vende tão bem. O quilo chega a custar R$ 30, e os clientes acham muito caro. Quando o preço cai, as vendas são melhores e, quando tá um pouco alto, o pessoal que comprava um quilo compra meio. Mas os proprietários de restaurantes e bares continuam comprando em grandes volumes”, relata o comerciante.
Antônio Rodrigues diz que, a partir da segunda metade do semestre, a tendência é de queda dos preços, com a chegada de grãos de uma nova safra ao mercado. “O preço tá baixando e vai cair mais. Essa safra foi boa, vem muita fava aí”, afirma Antônio Carlos vende 8 tipos de fava no Mercado Central o comerciante.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.