A produção de bioenergia a partir do bagaço da cana-de--açúcar deixou de ser apenas um aproveitamento secundário das usinas para ganhar espaço estratégico na matriz energética e na economia da Paraíba. Hoje, o estado ocupa a nona posição do país em potência outorgada de biomassa oriunda da cana, atrás apenas de estados tradicionalmente mais industrializados no setor sucroenergético. No Nordeste, a Paraíba aparece logo após Pernambuco e Alagoas, que ocupam a sétima e sexta posições nacionais, respectivamente.
Os cerca de 102 megawatts de potência outorgada da bioeletricidade produzida pelas usinas paraibanas já representam 4,15% da matriz elétrica estadual, segundo dados do Sistema de Informações de Geração da Aneel (SIGA). A biomassa da cana aparece como a quarta principal fonte de geração da Paraíba, atrás apenas da energia eólica, responsável por cerca de 45% da potência fiscalizada do estado, da solar, com 29%, e das fontes fósseis, com 21%.
Ao todo, são seis empreendimentos espalhados por João Pessoa, Santa Rita, Mamanguape, Pedras de Fogo e Caaporã. Segundo o Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool na Paraíba (Sindalcool), a produção atual de energia dessas usinas seria suficiente para abastecer aproximadamente 300 mil residências. Além da relevância energética, o setor sucroenergético também mantém peso econômico significativo no estado.
De acordo com a engenheira eletricista Viviane Pedrosa, diretora da empresa Voltec Soluções em Energia e consultora de cinco usinas na Paraíba, a venda de eletricidade já se tornou uma fonte de receita comparável à obtida com açúcar e etanol. “Hoje, as usinas que vendem energia no mercado livre têm uma receita equiparada aos produtos produzidos pela indústria, como o açúcar e o etanol”, afirma a especialista. A mudança teve início há cerca de três anos e ocorre em meio a uma onda recente de modernização das usinas.
“Foi uma acelerada muito recente. As usinas começaram a investir fortemente em infraestrutura para ampliar a geração de energia. Aumenta--se a potência da caldeira para gerar mais vapor e também a potência dos geradores e das turbinas para ter uma geração maior de energia”, explicou. As usinas passaram a substituir os equipamentos antigos de baixa pressão por sistemas mais modernos e eficientes, capazes de gerar maior volume de vapor e, consequentemente, mais eletricidade a partir do mesmo volume de cana processada.
Desafios
Para o presidente-executivo do Sindalcool, Edmundo Barbosa, a cogeração baseada no bagaço da cana já é uma tecnologia consolidada no Brasil, mas ainda enfrenta limitações econômicas para avançar em estados como o nosso. “A Paraíba não está atrasada tecnicamente, mas ainda está sub-representada economicamente, sobretudo quando comparada a estados com maior densidade industrial sucroenergética e melhor infraestrutura de escoamento”, explica Barbosa, para quem o problema principal não é capacidade técnica.
“O problema não é falta de capacidade de geração. É falta de condição econômica para investir e expandir”, acrescenta. As usinas hoje são autosuficientes e, além de gerar a própria energia consumida durante a safra, elas vêm ampliando a exportação de eletricidade para o mercado livre de energia. Nesse modelo, grandes consumidores podem contratar diretamente a energia produzida pelas usinas, sem depender exclusivamente das distribuidoras tradicionais, como a Energisa.
O funcionamento desse mercado acompanha uma lógica semelhante à de uma bolsa de valores: as usinas monitoram mensalmente as oscilações do preço do megawatt-hora para decidir o melhor momento de vender energia ou firmar contratos mais longos. “Dependendo da cotação, elas fecham contratos de três ou cinco anos. Em outros momentos, preferem aguardar uma valorização do preço”, diz a engenheira. Esse avanço da bioenergia ocorre em paralelo ao movimento global de transição energética.
Com a pressão global pela redução de emissões e pela substituição gradual de combustíveis fósseis, fontes renováveis passaram a receber mais incentivos econômicos e regulatórios. Viviane Pedrosa avalia que essa realidade acelerou investimentos no setor sucroenergético. “A bioenergia é uma das fontes mais limpas. Houve um movimento mundial de incentivo às energias renováveis e isso acelerou esse mercado”, afirma.
Reaproveitamento
A geração de energia ocorre a partir do reaproveitamento do bagaço da cana, resíduo restante após a produção de açúcar e etanol. O material é queimado em caldeiras para gerar vapor, que movimenta turbinas ligadas a geradores elétricos. Segundo especialistas, o processo praticamente não gera resíduos adicionais porque utiliza um subproduto já existente da cadeia sucroenergética. “O único resíduo do processo é justamente o bagaço, que passa a ser utilizado para gerar energia. Então é uma forma de aproveitar algo que já seria descartado. O único ponto é a emissão de CO2 da queima, mas comparado a outras fontes é algo muito inferior”, pondera Viviane.
Outro fator que favorece a bioeletricidade é o custo operacional relativamente baixo. Como as usinas já possuem parte da infraestrutura industrial necessária para o processamento da cana, a geração de energia aproveita as estruturas já existentes. “A caldeira já faz parte do sistema produtivo da usina. O equipamento adicional é basicamente o gerador”. Apesar da expansão, o setor ainda enfrenta gargalos estruturais. O principal deles é a sazonalidade da produção. Como a geração depende diretamente do processamento da cana, a bioenergia acompanha o calendário da safra.
Na maior parte das usinas paraibanas, a produção ocorre de agosto a março. Durante a entressafra, de abril a julho, muitas unidades interrompem a geração para realizar manutenção em caldeiras, turbinas e geradores. “Algumas usinas ainda armazenam bagaço para continuar gerando por um período, mas a maioria faz a parada”, explicou Viviane. Mesmo com essas limitações, o setor projeta crescimento de aproximadamente 25% até 2030.
O presidente-executivo do Sindalcool defende mudanças no modelo de remuneração da bioeletricidade, criação de contratos específicos de longo prazo para biomassa e integração maior com políticas climáticas e de descarbonização. “A Paraíba tem uma oportunidade concreta de transformar o bagaço de cana, que antes era apenas um subproduto industrial, em um ativo energético estratégico. Mas isso exige corrigir distorções do mercado elétrico, reconhecer a bioeletricidade como uma fonte importante para a segurança hídrica e integrá-la à agenda de descarbonização”, conclui Edmundo Barbosa.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de maio de 2026.