A Paraíba encerra 2025 entre os estados que mais ampliaram o uso de energia solar no Brasil. De janeiro a novembro, o número de sistemas de geração distribuída cresceu 5,6% em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Com 8.670 sistemas solares residenciais e comerciais ativos, o estado registrou o quarto maior crescimento do país nesse tipo de instalação.
O avanço reforça como os painéis de energia solar tornaram-se alternativa cada vez mais presente em telhados de casas e de pequenos negócios. A potência instalada desses sistemas, que indica a capacidade total de geração, também aumentou e alcançou 90.760,38 kW em 2025. Na prática, isso significa mais consumidores produzindo a própria energia e reduzindo a dependência da rede convencional.
Um dos fatores associados a esse movimento é o acesso ao crédito. Instituições financeiras ampliaram linhas específicas para projetos fotovoltaicos, permitindo que famílias e empresas transformem a economia na conta de luz em investimento de médio e longo prazo. Na Paraíba, esse cenário aparece de forma direta nos números do Sicredi, que registrou crescimento de 10% na carteira de crédito voltada à energia solar em relação a 2024, somando R$ 101,6 milhões em financiamentos ativos no segmento.
Trajetória ascendente
De acordo com Ana Paula Medeiros Vieira, coordenadora de Ciclo de Crédito da Central Sicredi Nordeste, a procura segue em trajetória ascendente. “Observamos que cada vez mais famílias e empresas conseguem viabilizar seus projetos graças a condições atrativas, como taxas competitivas, análise simplificada e a possibilidade de financiar até 100% do investimento. Esses fatores reduzem barreiras históricas e tornam a adoção da tecnologia muito mais acessível”, afirma.
Segundo ela, a demanda não está relacionada apenas à economia imediata, mas à percepção da energia solar como proteção contra reajustes futuros. “O aumento das solicitações mostra que os associados buscam soluções sustentáveis que tragam economia imediata e maior proteção diante dos reajustes da conta de luz. A energia solar cumpre exatamente esse papel”, aponta.
Além do número de sistemas instalados, outros indicadores ajudam a dimensionar a expansão. Entre os nove primeiros meses de 2025, a Paraíba registrou crescimento de 6,9% nas chamadas Unidades Consumidoras com Recebimento de Créditos (UCs REC Créditos), dado que coloca o estado com o quinto maior crescimento do país.
Esse indicador refere-se a consumidores que, mesmo não tendo o sistema instalado diretamente em seu imóvel, recebem créditos de energia gerada em outro local, como uma segunda residência ou uma unidade produtora vinculada. Na prática, é uma forma de ampliar o alcance da energia solar, permitindo que a geração em um ponto compense o consumo em outro.
Redução na conta motiva alta na busca pelo equipamento
No campo técnico, empresas que atuam na instalação dos sistemas relatam que a procura tem aumentado de forma consistente. Allyson Ramon, engenheiro da Megga Sun, observa que a energia solar deixou de ser um tema distante para tornar-se parte do cotidiano urbano. “Hoje, a energia solar está se tornando algo mais palpável para as pessoas. Hoje, se fala mais de energia solar do que há um ou dois anos atrás”, afirma.
De acordo com o engenheiro, a percepção visual tem papel importante nesse processo. “A cada rua que nós passamos, pelo menos uma pessoa naquela rua tem energia solar hoje. Os vizinhos conversam entre si e realmente veem que não é só conversa de vendedor”. Antes da instalação, no entanto, há critérios técnicos que precisam ser avaliados.
Do ponto de vista financeiro, o interesse pela energia solar costuma surgir quando a conta de luz atinge determinado patamar. “Quando o custo com a conta de luz é de pelo menos R$ 200, já se torna interessante considerar a energia solar”, explica Allyson. Na região de João Pessoa, isso equivale a um consumo médio de 350 quilowatt-hora, valor que muitas vezes é inferior ao consumido mensalmente por uma família de quatro pessoas.
Os custos de instalação também passaram por mudanças nos últimos anos. Para um consumo em torno de 500 quilowatt-hora, o investimento médio atualmente gira em torno de R$ 12 mil. “Se a gente pegar, por exemplo, de 2019 para cá, o mesmo cliente que hoje está a R$ 12 mil, antes estava pagando R$ 22 mil”, relata o engenheiro. Segundo o especialista, após uma queda de 2022 a 2023, os preços voltaram a subir, influenciados por taxas de importação, já que os equipamentos são majoritariamente importados.
Mas a economia gerada, de acordo com o engenheiro, é realmente significativa. Após a instalação, a redução na conta de energia pode chegar a 90% ou 95%. Mesmo nos casos de financiamento, o valor da parcela tende a ser próximo ou inferior ao que o consumidor pagava anteriormente à concessionária, com a vantagem de ser um custo fixo ao longo do contrato.
Consumidor aprova
Na ponta do consumo, a experiência de quem já adotou a tecnologia ajuda a explicar o crescimento dos números. O professor Luciano Martins, de 53 anos, instalou energia solar há quase cinco anos em sua residência, em Sapé. À época, a conta de luz ultrapassava os R$ 500 mensais. “Pelo fato de um valor acima do limite na conta de energia, nós optamos por colocar energia solar”, lembra.
Além da casa onde mora com a esposa e dois filhos, Luciano considerou usar os créditos para uma segunda residência em um sítio. Hoje, conforme explica, a despesa mensal resume-se praticamente à taxa mínima da concessionária, de R$ 45. O investimento, de R$ 32 mil na época, já foi completamente absorvido pelo retorno financeiro, e os custos de manutenção foram pontuais, basicamente relacionados à limpeza dos painéis.
Histórias como a de Luciano somam-se a um movimento mais amplo, que vai além de planilhas e projeções. O cenário na Paraíba combina incentivo financeiro, condições climáticas favoráveis, com alta incidência solar durante o ano todo, e um efeito de difusão por observação. O “efeito vizinho” ganha força à medida que as placas se multiplicam nos telhados, fenômeno que desperta curiosidade e influencia escolhas.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de dezembro de 2025.