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Pix Parcelado avança no BC e promete ampliar consumo

publicado: 29/08/2025 09h19, última modificação: 29/08/2025 09h19
Especialistas alertam para juros altos e maior risco de endividamento
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Modalidade será lançada em setembro, mas serviço já é ofertado por alguns bancos | Foto: Roberto Guedes

por Lilian Viana*

Quatro anos após o lançamento, o Pix consolidou-se como o meio de pagamento mais popular entre os brasileiros, usado por 76,4% da população, segundo o Banco Central (BC). Agora, o sistema se prepara para um novo passo: a chegada do Pix no crédito e do Pix Parcelado, previsto para setembro, mas já oferecido por algumas instituições financeiras. A novidade reacende a dúvida: quando vale mais a pena optar por essas modalidades em vez do cartão de crédito?

Na prática, o Pix Parcelado funcionará como uma espécie de “carnê digital”. O consumidor escolhe parcelar uma compra pelo aplicativo do banco, que assume o risco e cobra juros conforme o perfil do cliente. O lojista recebe o valor integral na hora, o que garante segurança e liquidez. Segundo o BC, a medida pode favorecer especialmente os 60 milhões de brasileiros sem cartão de crédito — realidade mais comum nas classes de baixa renda.

No comércio de João Pessoa, entretanto, a novidade ainda é pouco conhecida. “Nunca tinha ouvido falar, mas acredito que pode mudar o consumo. É digital, instantâneo e muito mais prático, ao que parece”, afirma Richard de Oliveira, gerente de uma ótica no Centro. Ele vê no recurso uma forma de ampliar a inclusão financeira. Pedro Henrique, dono de uma assistência técnica no Shopping Terceirão, também aguarda as regras do BC, mas espera que tragam juros mais baixos e impostos reduzidos. “Assim pode ajudar muito os pequenos empresários”, ressalta.

Entre os consumidores, o Pix no crédito já começa a ganhar espaço. A vendedora Jussara Kelly diz que prefere a modalidade ao cartão. “Eu sei exatamente quanto vou pagar de juros e posso antecipar parcelas. Para mim, é mais prático, seguro e tudo fica registrado no celular”, relata.

Mas os especialistas recomendam cautela. O consultor e planejador financeiro Guilherme Baía alerta que o custo do Pix no crédito e do Pix Parcelado pode pesar no bolso. “Ambas as alternativas cobrarão juros rotativos que são os mais altos, equivalentes ao uso do cheque especial ou parcelamento de cartão de crédito. Assim, o valor a ser desembolsado será substancialmente maior que o do pagamento realizado, com a diferença, em juros, pagos para o agente financeiro”, explica.

Além dos juros, incidirá também o IOF, tornando a operação semelhante ao cheque especial. Baía lembra que os juros no Brasil podem facilmente ultrapassar 10% ao mês, o que ele considera preocupante. “Acredito que será favorável ao comércio no curto prazo, mas quando se pensa na combinação dos fatores que são: juros altos e inflação alta, o efeito no médio e longo prazo pode ser o de acentuar o endividamento da população que também é alto, com cerca de 65% das famílias endividadas”, avalia.

Ele também faz um alerta para quem aposta que o Pix Parcelado pode trazer taxas menores. “Em tempo, dado que os juros da operação ainda não estão definidos e devem variar de instituição para instituição, acho temeroso achar que ‘juros menores’ podem se aplicar no caso”, completa.

Em comparação com o cartão de crédito, o Pix Parcelado tem dinâmica semelhante a um empréstimo pessoal, com juros e IOF. Já o cartão pode oferecer vantagens como programas de pontos e parcelamentos sem juros, embora o rotativo seja um dos mais caros do mercado.

Como vai funcionar?

  1. Realização da transação: o pagador inicia uma transação via Pix, seja para uma compra ou transferência.
  2. Escolha do parcelamento: ao invés de pagar o valor total na hora, o pagador opta por parcelar a transação.
  3. Definição de juros: a instituição financeira que oferece a linha de crédito informa as taxas de juros aplicáveis à operação antes da confirmação.
  4. Recebimento imediato: o recebedor da transação, seja um lojista ou outra pessoa, recebe o valor integral do Pix no ato da transação.
  5. Pagamento das parcelas: o pagador, então, assume o compromisso com a sua instituição financeira de pagar o valor parcelado mensalmente, com os juros, sendo o débito realizado diretamente na sua conta corrente.

Entenda as diferenças:

Pix tradicional

  • Custo: gratuito para pessoas físicas.
  • Vantagem: pagamento instantâneo e sem juros.
  • Quando usar: transferências e compras à vista, quando há saldo disponível na conta.

Pix Parcelado

  • Custo: inclui juros e IOF, definidos pelo banco conforme perfil do cliente.
  • Vantagem: liquidez imediata para o vendedor e acesso ao crédito para quem não tem cartão.
  • Quando usar: compras maiores, quando não há limite no cartão ou quando se busca praticidade digital.
  • Atenção: funciona como um empréstimo pessoal; é preciso planejar o orçamento para não se endividar.

Cartão de crédito

  • Custo: pode incluir anuidade, juros no parcelamento e no rotativo (geralmente, mais altos que os do Pix Parcelado).
  • Vantagem: permite parcelamento sem juros em muitas lojas, programas de pontos e maior prazo de pagamento.
  • Quando usar: compras em estabelecimentos que oferecem parcelamento sem juros e para quem busca benefícios adicionais.
  • Atenção: o rotativo do cartão é uma das dívidas mais caras do mercado.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de agosto de 2025.