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Tarifas de Trump atingem exportação de sucos da PB

publicado: 12/06/2026 09h59, última modificação: 12/06/2026 09h59
Suco de frutas responde por quase 60% de tudo o que o estado vende aos EUA
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Abacaxi cultivado em municípios paraibanos abastece a produção do concentrado enviado para os Estados Unidos | Foto: Marcos Russo/Arquivo A União

por Joel Cavalcanti*

O suco de frutas é, hoje, o terceiro produto mais exportado pela Paraíba. No ano passado, as vendas ao exterior somaram US$ 38,1 milhões, ficando atrás apenas dos calçados e do açúcar. Quando o recorte é o mercado norte-americano, porém, a liderança é ampla: o produto representa cerca de 60% de tudo o que a Paraíba exportou para os Estados Unidos em 2026.

Os números do sistema Comex Stat, plataforma mantida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado por toda a cadeia produtiva desde que o governo de Donald Trump anunciou uma nova rodada de sobretaxas de 25% sobre produtos brasileiros. O impacto potencial vai muito além das estatísticas de comércio exterior.

O setor envolve produtores rurais, transportadores, operários e a indústria local. A Intrafrut, principal exportadora paraibana do segmento, processa cerca de 60 mil toneladas de abacaxi por ano. Desse total, aproximadamente 80% da matéria-prima é produzida em municípios paraibanos, como Santa Rita e Itapororoca, enquanto cerca de 70% da produção tem como destino o mercado internacional.

A nova ofensiva comercial americana ocorre em um contexto diferente daquele registrado no ano passado. As tarifas anunciadas em 2025 acabaram sendo derrubadas pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Agora, a administração Trump busca respaldo na chamada “Seção 301”, da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite a adoção de medidas contra países acusados de práticas consideradas desleais ao comércio americano.

Dentre as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos, estão questionamentos relacionados ao sistema de pagamentos Pix, à regulação das plataformas digitais, ao combate à corrupção, a questões ambientais e a supostas práticas trabalhistas inadequadas. As medidas devem entrar em vigor após o encerramento do prazo de consultas e procedimentos administrativos previstos para julho.

Enquanto isso, representantes do setor produtivo paraibano adotam cautela. Empresários ouvidos pela reportagem afirmam que preferem não comentar publicamente o tema antes da definição das medidas e informam que reuniões estão sendo realizadas com compradores americanos para avaliar possíveis cenários. As exportações, no entanto, seguem normalmente. Uma nova remessa de concentrado de abacaxi para os Estados Unidos, por exemplo, tem embarque previsto para o próximo dia 19.

Para Filipe Reis, economista e professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), a nova estratégia adotada por Washington torna o ambiente de negociação mais complexo para os exportadores brasileiros. Segundo ele, a decisão está inserida em uma política mais ampla do governo Trump, que atingiu mais de 60 países. “O que existe é uma tentativa de ganhar mercado de outros concorrentes e se usa protecionismo, barreiras tarifárias e não tarifárias para fortalecer as indústrias nacionais”, afirma.

Reis avalia que a utilização da Seção 301 dificulta uma eventual reversão das medidas em comparação ao cenário do ano passado. Por isso, o economista considera que empresas brasileiras precisarão se adaptar a uma realidade em que o mercado americano pode se tornar menos previsível e mais oneroso.

O contraste fica evidente quando se observa o desempenho recente das exportações paraibanas. Mesmo após o anúncio das primeiras tarifas em 2025, as vendas de suco para os Estados Unidos mais que dobraram. Uma quebra de safra na Tailândia e na Costa Rica, dois dos principais produtores mundiais de suco concentrado de abacaxi, reduziu a oferta internacional do produto.

Com menos concorrência disponível, abriu-se espaço para fornecedores alternativos. A Paraíba aproveitou a oportunidade. O estado produz principalmente o abacaxi da variedade pérola, que possui características distintas das variedades cultivadas pelos concorrentes asiáticos e centro-americanos. Com a demanda americana mantida e a oferta global reduzida, os embarques paraibanos cresceram de forma expressiva.

Agora, porém, o cenário mudou. Nos cinco primeiros meses de 2026, as vendas de suco para os Estados Unidos somaram US$ 4,45 milhões, contra US$ 6,43 milhões registrados no mesmo período do ano passado. A queda acumulada é de 30,7%. “Aquele espaço todo que a Paraíba ocupou no ano passado volta a ser ocupado em parte pela concorrência da Tailândia e da Costa Rica”, explica.

Diante desse cenário, Reis defende que as empresas paraibanas ampliem seus mercados de atuação para reduzir a dependência dos compradores americanos. Ele acredita que, no curto prazo, as empresas podem buscar ganhos de eficiência para reduzir custos e tentar preservar competitividade mesmo diante das novas tarifas. Paralelamente, a diplomacia brasileira deve manter as negociações com Washington na tentativa de minimizar os impactos das medidas.

“Se os Estados Unidos estão mostrando que não apresentam boas opções de negócios, então é hora de fazer prospecção e buscar novos mercados”, afirma. Para um setor que encontrou nos Estados Unidos seu maior cliente, as próximas semanas podem definir os rumos de um dos produtos mais importantes da pauta exportadora do estado.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de junho de 2026.