Para testar o autocontrole de quem se exercita na praia ou caminha pelas praças de João Pessoa, bancas com bolos recheados ocupam esses espaços com cores irresistíveis. Cobertos por caldas brilhantes e exibindo uma variedade que nada deve às vitrines das melhores confeitarias, eles transformam cada ponto de venda em um convite ao prazer.
Multiplicadas nos últimos anos, essas bancas carregam mais do que doces tentações: quase sempre trazem a história de esperança de uma mulher que sustenta a família e encontra no próprio talento a força para empreender e construir novos caminhos. Uma dessas mulheres que fazem qualquer corrida pela orla de Tambaú ser algo muito tentador é Emília Bernardina da Conceição, de 51 anos.
Há cinco meses, e por três dias a cada semana, especialmente às sextas e sábados, quando o movimento cresce e os turistas se multiplicam, ela finca a sua banca com uma seleção de tortas que tem a cara dessa nova febre culinária na capital: bolo-pudim, surpresa de uva, matilda, bolo de noiva, red velvet, dois amores, ninho com Nutella, oreo, prestígio e Ferrero Rocher.
“Esse sucesso veio depois da pandemia e se tornou coqueluche. Todo mundo procurando, todo mundo querendo. Foi um leque de oportunidades para pessoas que querem empreender”, conta a comerciante. Moradora nos Bancários, ela carrega no avental mais de três décadas de cozinha. Cozinheira industrial de formação, forjada no calor do fogão e na rotina puxada de restaurantes, ela reinventou a própria trajetória durante a pandemia.
Dos almoços feitos em casa aos salgados que garantiram renda em tempos difíceis, Emília encontrou nas tortas e nos bolos de fatia um novo ponto de partida. O crescimento desse tipo de mercado tem dois marcadores importantes na linha do tempo. O primeiro citado por Emília é a pandemia. O segundo são os festivais de fatias que se transformaram em um evento concorrido na cidade.
E Emília entendeu rápido a força daquele cenário. “Você vende a beleza daqui. Tem produtos que visualmente atraem o cliente”. A produção dela começa quando muita gente já encerrou o dia. “Eu já termino hoje começando amanhã. Chego em casa por volta das 10 horas da noite e já dou continuação para a produção do outro dia. Aí amanhã consigo terminar para vir novamente”, detalha.
Com três anos dedicados profissionalmente às tortas e aos bolos, Emília buscou capacitação: fez cursos presenciais e on-line, estudou técnicas, aprimorou receitas. Para ela, o maior desafio não é apenas vender, mas cultivar clientes. As vendas on-line estão ativas em plataformas digitais. Mas, segundo ela, nada supera o contato direto no calçadão da praia. “O maior desafio é você ter sempre clientes. Todo dia tem pessoas diferentes avaliando o seu produto. E o principal é que eles estão presentes, dando feedback positivo. Isso é maravilhoso”.
Negócio familiar
A menos de 150 m da banca de Dona Emília, outra família escreve a própria história com açúcar, camadas generosas de recheio e cobertura caprichada. Mas, dessa vez, a mulher que dá nome ao comércio não está presente. Na Sianne Tortas, seu marido Joelson é quem fica responsável pelas vendas enquanto a mulher segue produzindo em casa e recebendo os pedidos de encomenda on-line. O negócio, que vai completar 13 anos, nasceu de um impulso pequeno no valor e grande na fé religiosa.
“No momento mais difícil da nossa vida, minha esposa colocou 35 reais e começou vendendo bolo de pote em nossa casa. A partir de então ela continuou fazendo bolo e foi crescendo, crescendo e, hoje, a gente está com a nossa empresa, graças a Deus”, conta Joelson. Morador de Cruz das Armas, ele trabalhou a vida toda como vendedor de peças de carro. A confeitaria entrou na vida da família como alternativa financeira e acabou tornando-se a renda principal que sustenta a todos em casa.
A rotina por ali é quase diária. Com exceção de domingo e segunda, que são reservados para compra de insumos, a família ocupa o ponto à beira-mar a partir da terça-feira. “A gente só trabalha com produto de primeira. Para dar um produto de primeira ao nosso cliente. Se não for assim, não tem que entrar no comércio”, defende.
O trabalho é dividido entre todos. Joelson cuida das compras e do financeiro; a esposa, Sianne Vieira, comanda a produção e põe a mão na massa. Os três filhos também estão próximos e há ainda uma funcionária contratada, sinal de que o empreendimento familiar começa a dar novos passos. A confeitaria reorganizou a própria dinâmica familiar. “Dentro do nosso lar, mudou muita coisa. A gente se uniu mais. Eu deixei o ramo que eu estava e me ajuntei mais com a minha família. Com a união, a gente cresce. O nosso sucesso é isso. É a nossa união, a nossa família”, diz o vendedor.
Na vitrine, as fatias altas e recheadas seguem a estética que virou marca da nova confeitaria de rua: camadas fartas, coberturas escorrendo, confeitos que brilham ao sol do fim de tarde. Joelson define o formato como um “delivery feito na hora”: o cliente escolhe, aponta, pede um acréscimo, e a fatia é montada ali, diante dos olhos. As redes sociais também trabalham em paralelo.
Se Emília fala do desafio de cultivar clientes, Joelson prefere falar de oportunidade. “Eu não acho dificuldade. O sol nasceu para todos. Todos têm que vender, todos têm que trabalhar. Eu sei a qualidade do serviço que a gente coloca no mercado”, afirma. É dessa forma que ele já projeta o futuro. “Eu pretendo ser um grande empreendedor. Pretendo ensinar pessoas que têm esse amor pela confeitaria. Que aprendam e depois sigam o destino delas”, sonha ele.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de março de 2026.
