Camila Mariz chega ao primeiro Dia das Mães como primeira-dama da Paraíba carregando consigo mais do que um novo papel público ao lado do governador Lucas Ribeiro. Mãe de Daniel e José, a advogada construiu sua trajetória a partir da busca por justiça que, com o tempo, transformou a dor pessoal em compromisso coletivo– para que nenhuma mulher tenha a história interrompida pela mesma violência que tirou a vida de sua mãe. Camila tinha 10 anos quando perdeu Sílvia, vítima de feminicídio, em uma época em que a rede de proteção ainda era muito frágil.A partir dali, encontrou na avó Franciscao alicerce inabalável para seguir em frente. Hoje, vê na maternidade a força de recomeço e, na vida pública, uma oportunidade de fazer a diferença.
Nascida em Campina Grande e criada em São João do Rio do Peixe, no Alto Sertão paraibano, a primeira-dama carrega na memória uma infância marcada pelas noites de céu aberto, quando “contava estrelas” ao lado da mãe, e pela resiliência de uma família sertanejaque, mesmo diante da perda, ajudou a preservar nela a esperança por dias melhores. “O Sertão traz muitos ensinamentos sobre superação e resiliência. É sobre aprender a viver, mesmo em meio a condições adversas”, reflete. Depois de 25 anos em silêncio, hoje fala com firmeza e sensibilidade sobre a própria história, convencida de que sua experiência pode ajudar a ampliar a proteçãode mulheres e crianças.
Advogada, formada pela Unifacisa, com pós-graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública, Camila atuou, por mais de uma década, no Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) e, hoje, é vice-presidente da Comissão de Combate à Impunidade e Violência Doméstica da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional da Paraíba (OAB-PB). Agora, no papel de primeira-dama do estado, afirma não querer ocupar apenas um lugar simbólico. Sua atuação passa pelo enfrentamento à violência contra a mulhere, também, pelo fortalecimento do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), área em quepretendedar continuidade ao trabalho da ex-primeira-dama,Ana Maria Lins.
- Este será seu primeiro Dia das Mães como primeira-dama da Paraíba. Como você está vivendo esse momento, sendo mãe de dois filhos, advogada e mulher pública?
Eu acredito que a maternidade é o maior dos desafios. Você tem a responsabilidade de instruir outra pessoa, de fazer com que ela entenda o que é certo, o que é errado e quais são os limites. E esses limites precisam vir sempre com amor, não por imposição nem pela força. Então, a maternidade, sozinha, já é um desafio enorme para qualquer mulher.Hoje, muitas têm o desejo de exercer profissionalmente sua missão, aquilo que entendem como uma entrega de valor para a sociedade. Para mim, isso também foi desafiador. Mas, ao mesmo tempo, eu sou de uma geração que foi educada para trabalhar. De certa forma, nós rompemos com um padrão geracional em que a mulher era treinada, exclusivamente, para ser responsável pelo lar. Com o tempo, entre lutas e avanços, muita gente precisoutomardecisões difíceis para que nós estivéssemos aqui, hoje. Ainda é muito difícil, não podemos negar. Mas eu percebo que, para a minha geração, a maternidade chegou como um desafio muito maior do que o mercado de trabalho. Estudar e trabalhar, para mim, são caminhos mais naturais. Lá atrás, eu já entendia que minha profissão seria, também,uma forma de alcançar a independência de tudo aquilo que eu não aceitava. Então, quando fui mãe, acredito que esse tenha sido o maior desafio até hoje. E continua sendo todos os dias.
- A maternidade costuma ser bastante romantizada, mas também envolve cansaço, escolhas, culpa e conciliação com a vida profissional. Que discussão o Dia das Mães deveria provocar? Falta um olhar mais realista?
Essa é exatamente a reflexão que eu procuro fazer na minha maternidade e, também, quando olho para outras mulheres. É preciso observar o nosso contexto e perguntar: que sociedade é essa que cobra tanto de uma mulher? Nós somos extremamente cobradas. E, hoje, para dar os passos que desejamos para o futuro, acabamos assumindo um compromisso ainda maior, no sentido de dar o nosso melhor e mostrar, dentro do papel que nos cabe, que as mulheres são capazes. Então, eu não represento só a mim, mas uma infinidade de meninas que, hoje, podem sonhar em ocupar os lugares que ocupamos. Por isso, essa romantização da maternidade torna-se mais um peso para a mulher. Muitas vezes, ela traz muito mais culpa do que realização. Mas também vejo a maternidade como algo transformador. Sempre digo que, se tivesse passado por tudo o que passei na infância, sem ter olhado para o amor que meus filhos trouxeram, talvez não conseguisse falar como falo hoje, com tranquilidade, sem dor ou amargura. Na minha história, meus filhos foram e são motivo de reconstrução. A maternidade me trouxe a força do recomeço.Ela também me fez entender que minha mãe viveu a maternidade no contexto que podia e fez o melhor que pôde. O meu papel, hoje, não é ser uma mãe perfeita, mas ser a melhor mãe que eu puder para os meus filhos. Infelizmente, a gente ainda não evoluiu o suficiente nessa discussão.
- Você é de Campina Grande, mas viveu a infância no interior. Como essa vivência no Sertão ajudou a moldar a Camila de hoje?
Nasci em Campina Grande, mas a minha família é sertaneja. Minha avó é de Sousa, meu avô é de Uiraúna, e, quando eles se casaram, foram morar em São João do Rio do Peixe. Então, meu núcleo familiar foi formado lá. Minha mãe cursava Geografia na universidade federal e, quando engravidou, voltou para São João do Rio do Peixepara ter apoio da família. Isso mostra o quanto são necessárias políticas públicas como creches, escolas e redes de apoio. Quando a mulher não consegue prover esse suporte sozinha, é preciso que as instituições e o Poder Público cumpram esse papel, com incentivo, fomento e recursos, para que não haja interrupção de ciclos. E aquilo foi uma interrupção na vida da minha mãe.Mas o Sertão está em mim. Quando penso nele, penso em resiliência, em força. Não tem como lembrar do Sertão sem lembrar das fortes secas, que são condições adversas, mas que também ensinam a sobreviver em meio às adversidades. E eu me lembro das memórias mais felizes que tenho com a minha mãe, das noites contando estrelas. O céu do Sertão é sem igual.
- Antes de ser primeira-dama, você atuou no Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) e se especializou em Gestão Pública e Direito Administrativo. Essa bagagem técnica faz diferença?
Eu acredito que sim. O que nos dá autoridade para falar sobre as coisas não é, necessariamente, a idade, mas as experiências que vivemos.A minha construção de vida foi muito natural diante de tudo que passei. Ficou muito enraizado em mim o desejo por justiça, a necessidade de dar uma resposta ao que aconteceu comigo. Mas, quando você entende que não está sozinha, que existem outras dores e outras demandas, percebe que pode tornar-se um instrumento de transformação. Isso nos dá uma perspectiva de futuro.Por mais difícil que tenha sido, se eu não tivesse passado por tudo o que passei, não teria a bagagem que tenho, nem a tranquilidade de, mesmo tão jovem, assumir essa missão. Estive por mais de dez anos no Tribunal de Justiça, o que para mim é motivo de muita honra. Aprendi muito. Sempre gostei de participar das audiências, mesmo quando não era uma obrigação direta da minha função como assessora de gabinete, porque gosto de ouvir e debater.Ali, você precisa ter uma visão imparcial. Não importa tanto o que eu vivi ou o que considero individualmente, mas aquilo que está posto. E, a partir do que está posto, a resposta precisa ser justa. Então, acredito que essa bagagem traz um olhar diferente, um olhar de quem já precisou muito da política pública e da Justiça.
- E que marca deseja imprimir como primeira-dama? Quais são suas prioridades?
Dá vontade de contribuir com muitas pautas. Mas eu sempre me coloco em um lugar muito claro: não tenho o desejo, nem agora nem para o futuro, de assumir uma pasta ou ficar à frente de uma secretaria.Vejo o lugar em que estou hoje como uma oportunidade de fazer o melhor que eu puder.O lugar conquistado pela primeira-dama Ana Lins me ensina muito. Quando a conheci, vi que existe espaço para sermos quem somos. A simplicidade, a leveza e o amor com que ela conduziu as pautas que abraçou me mostraram que era possível contribuir a partir da própria história. Enxergo muitas pautas como prioritárias, mas meu olhar sempre se volta para a figura da mulher. Hoje, meu papel é fazer o melhor que eu puder. Olhando para a minha história, não posso ser indiferente ao que vivi.
- Você perdeu a mãe ainda criança, vítima de feminicídio. Em que momento essa dor deixou de ser algo pessoal para se transformar em uma missão?
Eu faço parte da Comissão de Combate à Violência contra a Mulher da OAB-PB, e essa tem sido uma experiência muito engrandecedora. É muito bonito ver o trabalho que vem sendo feito, o compromisso das mulheres que estão ali. Acredito que a virada de chave, para mim, foi a oportunidade de ajudar. Eu entendi que, se para mim e para minha mãe não houve chance, aquilo não precisava permanecer para sempre como silêncio, medo, vergonha ou culpa. Quando veio a oportunidade, junto à senadora Daniela Ribeiro, com o programa “Antes Que Aconteça”, eu entendi que não se tratava apenas de falar sobre a minha história. Era expor, com intencionalidade, que o feminicídio existe, é real e, por muito tempo, não foi falado. Afinal, é uma violência que acontece dentro de casa. Se socialmente já é difícil falar sobre isso, dentro da família é ainda pior. E, se quem deveria se manifestar está invadido por tanta dor, como é que as instituições vão chegar?Durante muito tempo, a sociedade naturalizou a ideia de que, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Mas acredito que vivemos, hoje, uma virada de chave na proteção à mulher, começando pelo mais básico, que é o direito à vida. Um direito que tem sido perdido em números absurdos.
- O programa “Antes Que Aconteça” propõe agir antes da tragédia. O que ainda precisa mudar para que os sinais de violência sejam percebidos mais cedo?
Sendo muito honesta, falta para a mulher a capacidade de se reconhecer vítima quando está dentro daquele contexto de violência. Digo isso porque, há 27 anos, aconteceu com a minha mãe, e ela não se via como vítima. Por isso, o apoio é tão importante. Quando essa mulher tem suporte, seja familiar ou de alguém capaz de abrir seus olhos, ela pode romper com um ciclo que, muitas vezes, era abusivo desde o início.No caso da minha mãe, foram dez anos de casamento e dez anos de relacionamento abusivo. Por isso, quando olho para os dados da Patrulha Maria da Penha, vejo o quanto essa rede é importante. As mulheres que estão protegidas por ela estão vivas para contar suas histórias. Durante muito tempo, quando um homem matava ou agredia uma mulher, a pergunta era sempre: “O que ela fez?”. A legislação, muitas vezes, vem como resposta a uma demanda da sociedade. Então, ela chega depois que o fato acontece, depois que aconteceu com Sílvia ou Maria da Penha. Mas que bom que ela veio. Que bom que existe a Patrulha Maria da Penha, um programa que já acolheu mais de oito mil mulheres, sem que nenhuma tenha sido perdida. As Salas Lilás também são equipamentos extremamente importantes, porque atuam antes que o pior aconteça. A identidade delas é o acolhimento e a informação. A Delegacia Especializada da Mulher é outra iniciativa importante. E, até o fim do ano, deve cobrir todas as regiões da segurança pública na Paraíba.Minha crença é que existe esperança. Todo esse trabalho que vem sendo feito pelo Governo da Paraíba mostra isso.
- Como avalia os resultados das políticas públicas de enfrentamento ao feminicídio?
Ver meu marido, Lucas, hoje à frente dessas políticas públicas, sabendo que ele acolhe as demandas que levamos a partir do que a sociedade clama, é muito importante. Da mesma forma, reconheço o trabalho do governador João Azevêdo, que investiu e abriu caminhos para que não houvesse barreiras na proteção da política pública voltada às mulheres. Também é importante pontuar o papel da senadora Daniela Ribeiro, que tem sido uma militante em nível nacional nesse tema. No primeiro quadrimestre de 2026, a Paraíba registrou uma diminuição de mais de 40% no número de feminicídios. No mesmo período do ano passado, 15 mulheres foram mortas. Este ano, foram nove.Esse dado mostra que vale a pena investir e levar informação.
- O Programa do Artesanato Paraibano (PAP) é muito importante para o desenvolvimento dos municípios e para a autonomia feminina. Que caminhos você enxerga para o programa a partir de agora?
O valor do PAP é gigantesco. Ele tem uma ligação muito forte com a mulher, proporciona desenvolvimento local e carrega identidade, cultura, tradição e história. Por isso, por muito tempo, odesafio tem sido tirar o artesanatode um lugar restrito aos salões para trazê-lo, cada vez mais, para o centro da economia criativa.Quando falamos de artesanato, falamos também de desenvolvimento, de autonomia e resgate. Hoje, por exemplo, o programa está na Alemanha, levando o trabalho do Crença (Centro de Referência da Renda Renascença e do Artesanato), que também foi uma iniciativa do governador João Azevêdo e da primeira-dama Ana Lins. É a arte do Cariri paraibano, de cinco municípios que integram o projeto, sendo exposta fora do país. É um trabalho feito, essencialmente, por mulheres rendeiras, mas que, hoje, contam com direcionamento e estrutura.A Paraíba é muito rica em talento e arte. Por isso, fazer do artesanato uma política pública é gerar emprego e renda para além dos salões. O salão, claro, é uma grande vitrine. Aproveito para convidar os leitores a conferirem o 42º Salão do Artesanato Paraibano, que vai acontecer em Campina Grande, de 11 de junho a 4 de julho, a partir das 15h. A estrutura está maior, porque a gente procurou incrementar o evento para que ele tivesse o tamanho que o artesanato tem, hoje, dentro da nossa cultura.Os profissionais daqui, quando participam de feiras em outros estados e até fora do país, são elogiados e vendem muito. Eles têm um governo que apoia e faz com que cheguem a esses espaços. O próprio salão é feito exclusivamente para que o artesão tenha oportunidade. E não é pouco o valor econômico que gira ali. No último salão, foram mais de R$ 4 milhões em vendas.Isso é muito significativo quando falamos de artesãos individuais e pequenos empreendedores. Muitos deles, inclusive, têm acesso à linha de crédito do Empreender e do Empreender Mulher. Com esse apoio, conseguem montar uma oficina e adquirir material. Acredito que essa transversalidadeé o que dá, hoje, ao artesanato paraibano o tamanho que ele tem. São várias secretarias envolvidas, muita gente comprometida. O salão, que antes tinha quatro mil metros quadrados, este ano terá seis mil metros, um incremento de quase 50% na estrutura. São mais de 500 artesãos, a área gastronômica foi ampliada e terá quase 100 mesas. Também existe a intenção de levar uma sessão da Assembleia Legislativa para o salão, para mostrar que as políticas públicas conversam entre si e precisam estar perto da população.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de maio de 2026.