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Entrevista

João Azevêdo, Pré-candidato do PSB ao Senado Federal

publicado: 08/06/2026 08h56, última modificação: 08/06/2026 08h56
Em entrevista, ex-governador faz um balanço da gestão e diz que pretende levar sua experiência ao Congresso Nacional
2026.06.01 João Azevêdo © Leonardo Ariel (2).JPG

“Nosso governo foi capaz de incluir mais pessoas no processo de desenvolvimento” - Foto: Leonardo Ariel

por Eliz Santos*

Engenheiro civil, professor e gestor público, o ex-governador João Azevêdo construiu a trajetória política a partir da administração pública e do planejamento técnico. Nascido em João Pessoa, atuou na docência no Instituto Federal da Paraíba (IFPB).

Exerceu funções estratégicas nas áreas de infraestrutura, recursos hídricos, meio ambiente, ciência e tecnologia, consolidando uma carreira marcada pela gestão de projetos. À frente do Governo da Paraíbapor dois mandatos consecutivos,e como ex-presidente do Consórcio Nordeste, ampliou a atuação no debate federativo e no desenvolvimento regional. Sob sua liderança, o estado alcançou destaque nacional por equilíbrio fiscal, capacidade de investimento e modernização da gestão pública.

Atual presidente estadual do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Azevêdo confirma a pré-candidatura ao Senado Federal nas eleições de 2026, preparando-se para um novo ciclo na vida pública.Nesta entrevista — a primeira de uma série que o jornal A União fará com os candidatos da Paraíba ao Senado —,João Azevêdo faz um balanço da gestão, analisa os desafios do cenário nacional e explica por que pretende levar sua experiência de gestor e de articulação política para o Congresso Nacional.

  • O senhor encerrao ciclo como governador da Paraíba com aprovação acima dos 60%. A que atribui essereconhecimento popular?

Na verdade, tenho uma alegria grande de hoje, já fora do governo, poder caminhar pela Paraíba e constatar aquilo que a gente vem dizendo ao longo dos últimos anos: verdadeiramente fizemos um governo de entregas, que procurou entender as demandas da população e atender, da maneira mais rápida possível, aquilo que estava dentro das condições do Estado.Tivemos avanços significativos na saúde, na educação, investimentos importantes na construção de equipamentos que vão desde creches, escolas atéa ampliação da rede hospitalar. Tenho a impressão, sem nenhuma pesquisa, apenas como sentimento, que tivemos condições de fazer uma entrega muito grande na Paraíba.Por isso, eu acredito que existe essa aprovação do nosso governo: porque foi um governo de inclusão, fez com que as pessoas se sentissem cada vez mais protegidas.

  • A revista Forbes Portugal o definiu como "o engenheiro que quer redesenhar o Brasil a partir do Nordeste". Comorecebeu esse reconhecimento?

Com muita alegria. Trata-se de um reconhecimento vindo de uma publicação extremamente importante, resultado de uma conversa que tivemos em Portugal, ondefoi feito um levantamento de tudo o que aconteceu e do que está acontecendo na Paraíba.Diante dos posicionamentos que apresentamos, dentro daquilo que entendo ser a função não apenas do governador, mas também de quem defende o fortalecimento regional, mostramos a importância do Nordeste. Temos uma entidade que faz muito bem à região, que é o Consórcio Nordeste, do qual tive a honra de ser presidente. Por meio dele, demonstramos que o Nordeste pode— e já está fazendo isso — puxar o crescimento do Brasil. Nossas potencialidades são enormes em energias renováveis, turismo, pesquisa e inovação. Tudo isso permite que o foco do desenvolvimento brasileiro se volte cada vez mais para o Nordeste.O que discutimos nessa entrevista com a Forbes foi exatamente isso: a convicção de que é possível promover o desenvolvimento do Brasil a partir do fortalecimento e do desenvolvimento da região Nordeste.

  • Projetos como oParaíbaTecHub, em Lisboa, e o Polo Turístico Cabo Branco, estão transformando o estado na nova 'queridinha' do turismo no Brasil. Acredita que conseguiu inserir a Paraíba na vitrine do mercado global?

Essa é uma luta que ainda precisa avançar mais. Mas, a partir do momento em que elevamos a divulgação da Paraíba a um patamar completamente diferente, especialmente no turismo, demos um passo muito importante.Quando tiramos do papel projetos como o Polo Turístico Cabo Branco,colocamos a Paraíba em uma condição extremamente favorável para atrair turistas e investimentos. O potencial turístico do estado é muito grande e está começando a ser explorado de forma mais ampla.

Nosso trabalho foi levar a Paraíba para os quatro cantos do mundo. Tivemos a oportunidade de produzir seis programas de 20 minutos sobre o estado, por meio da Record Internacional, em Lisboa, exibidos em 156 países. Isso deu uma visibilidade muito significativa à Paraíba.

Conseguimos atrair grupos internacionais, como empresas espanholas instaladas no Polo Turístico Cabo Branco e o grupo português Vila Galé, que está construindo um hotel cinco estrelas no Centro Histórico de João Pessoa. Isso só foi possível porque a Paraíba oferece segurança ao investidor: é um estado com gestão fiscal equilibrada, que honra seus compromissos e mantém suas contas em dia.Além do turismo, buscamos inserir a Paraíba em um cenário internacional de tecnologia e inovação. Projetos como o radiotelescópio Bingo, a Cidade da Astronomia e o Centro Internacional de Computação Quântica colocam o estado em posição de destaque nessa área.

  • A Paraíba conquistou nota A do Tesouro Nacional por cinco anos consecutivos e classificação Triple A pela S&P Global Ratings. Como foi possível reverter o débito de R$ 350 milhões herdado em 2019 e, ao mesmo tempo, ampliar investimentos em obras, saúde e educação?

Eu sempre digo que isso é gestão. É resultado de um time de governo comprometido em fazer o que é certo, cortar custos, reduzir despesas de custeio e tornar o Estado mais eficiente. Quando você reduz gastos administrativos, consegue liberar recursos para aquilo que é a função maior do Estado: promover desenvolvimento, cuidar das pessoas e abrir oportunidades.Toda gestão começa pela organização interna. Assim como uma família precisa equilibrar receitas e despesas para ter tranquilidade financeira, o Estado também precisa manter contas em ordem. Quando se consegue esse equilíbrio, cria condições para investir e planejar o futuro.

Foi isso que fizemos. Herdamos um déficit de cerca de R$ 350 milhões em contas a pagar mas, ao longo do tempo, conseguimos absorver esse passivo por meio da redução de custos, do fortalecimento da arrecadação e da organização das finanças públicas.

O resultado foi a construção de uma situação fiscal sólida, que permitiu ao Estado ampliar investimentos em áreas essenciais e, ao mesmo tempo, deixar uma disponibilidade de caixa importante para garantir a continuidade das obras, dos serviços e dos projetos em andamento.

  • Na saúde, o estado investiu R$ 1 bilhão acima do limite constitucional de 12%, criando programas como o Opera Paraíba e o Coração Paraibano. Esse modelo de descentralização da alta complexidade está consolidado?

Não tenho dúvida.Durante muitos anos, a alta complexidade ficou concentrada em João Pessoa e, posteriormente, em Campina Grande. Nós mudamos essa lógica ao levar equipamentos, profissionais e serviços especializados para o interior.

O Centro de Hemodinâmica de Patos é um exemplo disso.Também avançamos com programas como o Coração Paraibano, o Opera Paraíba e o Paraíba Contra o Câncer. O Opera Paraíba já realizou mais de 250 mil cirurgias e ajudou a enfrentar um problema histórico de longas filas de espera.

Além dos programas, o estado ampliouhospitais regionais e implantou novas unidades, como Hospitais da Mulher e o Hospital de Trauma do Sertão.  O objetivo é garantir que o cidadão seja atendido perto de casa, sem precisar se deslocar para os grandes centros.

  • Após uma trajetória marcada pela gestão pública, o que o motiva agora a disputar uma vaga no Senado Federal?

 O Senado representará uma nova fase: a de fazer política no parlamento. O Senado é a Casa de representação dos estados e tem um papel fundamental na definição das grandes políticas de desenvolvimento do país. O que me proponho, se a população da Paraíba permitir, é levar para Brasília discussões sobre temas que realmente impactam a vida das pessoas.

Infelizmente, a discussão no Congresso Nacional tem sido pautada muito mais pela disputa de poder do que por grandes projetos de desenvolvimento. Pretendo levar para o parlamento federal a experiência acumulada em mais de 40 anos de planejamento técnico para debater o crescimento econômico e a redução das desigualdades. Além disso, pelos anos em que estive à frente do Consórcio Nordeste e em constantes reuniões com governadores, entidades e bancos financiadores, acumulei um conhecimento profundo sobre a nossa região. Acredito que o Nordeste tem um potencial gigante para puxar o crescimento do Brasil, e o Senado precisa trocar as disputas políticas por propostas reais, palpáveis e transformadoras.

  • O legado da sua gestão será sua principal credencial eleitoral?

Sim, nosso governo foi capaz deproduzir entregas, de transformar vidas e incluir mais pessoas no processo de desenvolvimento e geração de riqueza. A Paraíba registrou taxas de crescimento do PIB acima das médiasdo Nordeste e do Brasil, além de apresentar crescimento econômico em 97% dos seus municípios.

Também alcançamos o melhor Índice de Progresso Social (IPS) do Norte e Nordeste e um dos melhores do país, ao mesmo tempo em que criamos um ambiente favorável aos negócios, capaz de atrair bilhões de reais em investimentos privados para o estado.

Tudo isso se refletiu na geração de empregos, na ampliação das oportunidades e na melhoria da qualidade de vida da população. São resultados concretos que mostram o trabalho realizado e a transformação que a Paraíba viveu nos últimos anos.

  • Jovens e idosos costumam ter motivações diferentes para participar das eleições. O que pode estimular esses dois segmentos do eleitorado a comparecer às urnas e exercer o direito ao voto?

São públicos com características e interesses diferentes. No caso dos jovens, a principal motivação é a esperança e a expectativa de um futuro melhor. Eles precisam compreender que sua participação é fundamental, porque o voto ajuda a definir os rumos da sociedade e as oportunidades que terão pela frente. Mais do que uma obrigação, votar é uma forma de influenciar o próprio destino.

Já entre os eleitores da terceira idade, a motivação está mais relacionada à avaliação dos resultados concretos das políticas públicas. É um público que observa de perto as ações realizadas nas áreas de saúde, assistência social, segurança e valorização dos servidores.

Tenho percebido, nas visitas que faço pelo estado, que a população mais idosa está muito atenta e participativa. O sentimento de proteção social, aliado à melhoria dos serviços públicos, especialmente na saúde, tem contribuído para ampliar o interesse desse segmento em participar do processo eleitoral.

  • Se o senhor fosse chamado a opinar sobre a situação econômica do Brasil, que sugestões daria à equipe do governo federal?

O Brasil precisa, verdadeiramente, de um plano de desenvolvimento com metas claras em todos os setores produtivos. Precisamos definironde queremos chegar e quais caminhos devemos seguir para alcançar esses objetivos.

Não há como fazer uma gestão imaginando exclusivamente que o país vá se manter apenas com programas de apoio social, embora — e é bom que se diga — eles sejam fundamentais. O Brasil havia entrado no mapa da fome, foi necessário um programa forte novamente como o Bolsa Família para sairmos dessa situação, e o país conseguiu sair. Mas, são as medidas econômicas que farão com que se gere emprego a partir da iniciativa privada, que é onde está a maior força de geração de postos de trabalho. São essas ações que, sem sombra de dúvida, levarão o Brasil a uma condição de desenvolvimento sustentável e duradouro, evitando que a gente viva nesse ciclo permanente de grandes momentos econômicos, seguidos por crises rápidas.

È necessário fortalecer políticas públicas permanentes, com fontes de financiamento e regras claras, para áreas como saúde, educação, assistência social, segurança e habitação. O país precisa ampliar investimentos em infraestrutura, logística, pesquisa, inovação e tecnologia.

  • Para finalizar, o Congresso Nacional discute a possibilidade de classificar facções criminosas como organizações terroristas. Como o senhor avalia essa proposta?

Para mim, essa classificação é equivocada. Os objetivos de grupos terroristas são completamente diferentes dos objetivos das facções criminosas. As facções têm como finalidade o enriquecimento por meio de atividades ilícitas. Já os grupos terroristas, em regra, possuem motivações políticas, ideológicas ou relacionadas à disputa de poder.

O que existe no Brasil são organizações criminosas que buscam lucro e que ampliaram sua atuação para diferentes setores da economia, muitas vezes tentando ocultar suas atividades por meio de empresas aparentemente legítimas.

O combate a essas facções exige ação firme e coordenada do Estado, com integração entre as forças de segurança dos governos federal, estadual e municipal. Não é um desafio simples, mas existem exemplos internacionais que mostram que é possível enfrentar esse problema com eficiência.A Itália, por exemplo, conseguiu combater organizações criminosas extremamente poderosas sem classificá-las como grupos terroristas. O fundamental é fortalecer a atuação do Estado e a cooperação entre as instituições.

Entendo que essa classificação pode abrir discussões delicadas sobre soberania nacional e eventuais intervenções externas. Por isso, considero mais importante concentrar esforços no fortalecimento das políticas de segurança pública e no combate efetivo ao crime organizado.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de maio de 2026.