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Entrevista

Marcelo Queiroga, Pré-candidato ao Senado pelo PL

publicado: 15/06/2026 09h04, última modificação: 15/06/2026 09h04
Em entrevista, ex-ministro afirma que pretende levar ao Congresso a experiência acumulada na medicina e na gestão pública
2026.06.08 Marcelo Queiroga © Leonardo Ariel (3).JPG

“Não há problema em conviver com a pluralidade, que é própria da democracia” | Foto: Leonardo Ariel

por Eliz Santos*

Médico cardiologista, ex-ministro da Saúde e presidente estadual do Partido Liberal (PL) na Paraíba, Marcelo Queiroga nasceu em João Pessoa, mas costuma destacar as fortes ligações com o Sertão paraibano, terra de origem de sua família e de sua avó materna — personagem frequentemente citada por ele como referência de valores e ensinamentos que marcaram sua trajetória.

Com atuação destacada na medicina, presidiu a Sociedade Brasileira de Cardiologia antes de assumir o Ministério da Saúde de março de 2021 a dezembro de 2022, durante a pandemia da Covid-19. Em 2024, disputou a Prefeitura de João Pessoa e chegou ao segundo turno das eleições.

Agora, como pré-candidato ao Senado em 2026, afirma que pretende levar ao Congresso a experiência acumulada na medicina, na gestão pública e na formulação de políticas públicas, associando essa trajetória à defesa de pautas ligadas à saúde, ao desenvolvimento regional, à segurança pública e ao fortalecimento das instituições democráticas. Recentemente, lançou, na Biblioteca do Senado Federal, a autobiografia Eu venho lá do Sertão: o sertanejo que nasceu na praia, obra em que revisita suas origens, a influência da família e os valores que, segundo ele, orientam sua atuação na vida pública.

A entrevista:

  • O senhor iniciou sua trajetória na medicina e ganhou projeção nacional ao comandar o Ministério da Saúde. Diante dessa bagagem, o que credencia Marcelo Queiroga a ocupar uma vaga no Senado e quais serão as prioridades do seu mandato em favor da Paraíba?

Sou médico cardiologista, formado em 1988 — o ano da promulgação da Constituição Cidadã, que colocou a saúde e a educação como direitos sociais fundamentais. Atuo na Paraíba desde 1993, onde ajudei a introduzir a cardiologia intervencionista, essencial no tratamento do infarto. Essa trajetória me levou à presidência da Sociedade Brasileira de Cardiologia e ao Ministério da Saúde no ápice da pandemia da Covid-19. No ministério, além de gerenciar essa crise, adquiri grande experiência com o processo legislativo. O ministro da Saúde opina sobre todos os projetos que impactam a saúde da população — desde a área médica até pareceres sobre defensivos agrícolas no setor do agro. Além disso, nossa equipe redigiu medidas provisórias importantes, como a que foi convertida na Lei no 14.307, de 2022, atualizando a legislação da saúde suplementar (Lei no 9.656/1998). Foi através dela que criamos o comitê para avaliar novas tecnologias no rol da ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar], permitindo a padronização de condutas para pessoas com transtorno do espectro autista [TEA], o que trouxe uma enorme justiça social. Também aprimoramos o marco legal da Saúde Digital e da Telesaúde, sancionada no governo do presidente Jair Bolsonaro.

  • O senhor defende a redução da polarização política, mas integra um partido fortemente identificado com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Como pretende dialogar com os paraibanos que pensam diferente do senhor e que não se identificam com a direita?

A polarização é um fenômeno mundial, resultado de transformações políticas, econômicas e sociais que vêm ocorrendo nas últimas décadas. No Brasil, muitas pessoas apontam Bolsonaro como um dos polos dessa divisão, mas eu entendo que esse processo começou antes. Bolsonaro surgiu nesse contexto e conseguiu mobilizar milhões de brasileiros identificados com pautas conservadoras. Eu me tornei um de seus colaboradores mais próximos, mas isso não me impede de dialogar com quem pensa diferente. Como ministro da Saúde, mantive uma relação institucional respeitosa com governadores de todas as correntes e dialoguei de maneira fluida com o Consórcio Nordeste. O atual ministro, Wellington Dias, por exemplo, é alguém com quem eu já conversava desde a época da Sociedade de Cardiologia. As eleições passam, mas a responsabilidade do cargo público é melhorar a vida da população. Na Paraíba, demonstrei isso na eleição municipal em João Pessoa, mantendo uma disputa respeitosa. Da mesma forma, sempre tive uma relação institucional correta com o governador João Azevêdo. Como político, minha missão é escutar o coração de todos, pensem igual ou diferente de mim. Não há problema nenhum em conviver com a pluralidade, que é própria da democracia. Pretendo trabalhar pela união das pessoas em torno de projetos que contribuam para melhorar a vida da população paraibana.

  • Além da saúde, quais áreas o senhor considera estratégicas para o desenvolvimento da Paraíba nos próximos oito anos e quais propostas defenderia em Brasília para impulsioná-las?

 Defendemos a vida desde a concepção, respeitando as exceções previstas em lei, e acreditamos no fortalecimento da iniciativa privada, especialmente das micro e pequenas empresas, que geram emprego e movem a economia. Sobre a Paraíba, precisamos criar projetos baseados na vocação de cada região. O Curimataú, por exemplo, embora marcado por limitações climáticas, possui um subsolo rico em minerais e grande potencial para a produção de energias renováveis (solar e eólica). A Paraíba tem peculiaridades importantes. Grande parte do território está no semiárido, o que representa desafios, mas também oportunidades. Eu costumo dizer que, quando temos desafios, também temos oportunidades. Precisamos criar projetos de desenvolvimento de acordo com a vocação de cada região do estado, fomentando o crescimento econômico e social. Também temos uma pauta forte na área da segurança pública. Defendemos o endurecimento da legislação contra as facções criminosas e a valorização das Forças de Segurança, com melhores condições de trabalho, remuneração e equipamentos. O avanço de organizações como o PCC [Primeiro Comando da Capital] e o Comando Vermelho exige uma resposta firme do Estado; nós não consideramos traficantes vítimas da sociedade. Entre os temas que devem ser debatidos com rigor, está a redução da maioridade penal, devolvendo aos pais e mães o direito de verem seus filhos viverem em paz e com liberdade.

  • A Paraíba aumentou a arrecadação nos últimos anos, mas o senhor afirma que esse crescimento não foi resultado direto do desenvolvimento econômico. Como pretende defender os interesses do estado no debate sobre a reforma tributária e a distribuição dos recursos entre União e estados?

A arrecadação da Paraíba aumentou, mas isso não ocorreu necessariamente em razão do desenvolvimento econômico do estado. Grande parte dos recursos que chegam à Paraíba vem da União, por meio do FPE [Fundo de Participação dos Estados], além do impacto do aumento do ICMS. Com a criação do IVA [Imposto sobre o Valor Agregado], minha preocupação é que os estados menores, especialmente os do Nordeste, acabem prejudicados na distribuição das receitas, enquanto os grandes centros preservem suas vantagens. A Paraíba precisa ter uma representação firme nesse debate para garantir que a reforma tributária não aprofunde desigualdades regionais. É necessário defender critérios equilibrados de repartição dos recursos. Ao mesmo tempo, precisamos criar condições para que o estado dependa cada vez menos das transferências federais, estimulando a atividade econômica local e atração de investimentos privados.

  • Milhões de brasileiros trabalham na escala 6x1 e defendem uma jornada mais equilibrada entre trabalho e descanso. O senhor acredita que o modelo atual ainda atende às necessidades dos trabalhadores?

Tudo o que for para beneficiar o trabalhador, nós somos favoráveis. No entanto, esse é um tema que precisa ser debatido com profundidade e responsabilidade. A discussão sobre o fim da escala 6x1 surgiu em um momento inadequado, porque ocorre em um contexto pré-eleitoral, o que acaba contaminando o debate. Quero acreditar que tanto os que defendem a mudança quanto os que são contrários buscam o mesmo objetivo: o melhor para o Brasil. Como essa alteração depende de uma PEC [Proposta de Emenda à Constituição], é preciso cuidado para não produzir uma legislação que gere efeitos negativos nas relações de trabalho. Existe o risco de que mudanças feitas sem planejamento provoquem demissões ou a substituição de trabalhadores por outros com remuneração menor, ampliando a informalidade. Já enfrentamos o desafio de que muitos beneficiários de programas sociais no Nordeste evitam o emprego formal por medo de perder o benefício. Por isso, esse debate deve ocorrer de maneira ampla e serena, para evitar que decisões sejam tomadas pelo apelo do momento e que, mais adiante, os próprios trabalhadores sofram as consequências

  • O senhor tem criticado o modelo atual de distribuição de emendas parlamentares. Como senador, que mudanças concretas defenderia para tornar esse sistema mais transparente?

Interesse político sempre existe. A questão é distinguir a boa política da velha política do clientelismo. O que vemos hoje, muitas vezes, são parlamentares capturando prefeitos, especialmente de pequenos municípios, por meio das emendas parlamentares. Isso não é bom e precisa ser reformado. Quando fui ministro da Saúde, defendi que os recursos destinados à saúde por meio de emendas passassem por avaliação técnica do ministério, para garantir que fossem aplicados onde realmente houvesse necessidade. Não faz sentido destinar equipamentos de alta complexidade para municípios que não têm demanda ou estrutura para utilizá-los. Isso é desperdício de dinheiro público. Os recursos das emendas não pertencem aos parlamentares; pertencem aos cidadãos e são provenientes dos impostos pagos pela população. Por isso, a destinação desses recursos deve ter justificativa técnica e compromisso com o interesse público. Entendo que essa discussão deve ser conduzida pelo próprio Parlamento, que representa a população e tem a responsabilidade de definir a aplicação do orçamento. É preciso aperfeiçoar esse sistema para garantir mais eficiência, transparência e responsabilidade na alocação dos recursos. Se eu for senador da República, assumo o compromisso de destinar minhas emendas com critérios rigorosamente técnicos. As prioridades serão saúde, educação e segurança pública, atendendo os 223 municípios da Paraíba, independentemente de alinhamento político com prefeitos ou gestores. Havendo necessidade comprovada e interesse da população, os recursos deverão chegar onde são mais necessários.

  • O senhor tem afirmado que o Senado precisa exercer com mais firmeza seu papel de fiscalização e equilíbrio entre os Poderes. Na prática, como pretende atuar nessa função?

A primeira mudança é cumprir a Constituição e as leis. O Senado precisa exercer suas atribuições com qualidade técnica, melhorando a elaboração das leis e evitando a aprovação de dispositivos sem relação direta com o mérito das propostas. Outra função essencial é garantir o equilíbrio entre os Poderes, o que passa pela prerrogativa de sabatinar e aprovar indicados para os tribunais superiores, incluindo os ministros do STF [Supremo Tribunal Federal. Hoje existe um debate real sobre o ativismo judicial, quando decisões do Judiciário interferem em atribuições do Executivo e do Legislativo. Cada Poder deve atuar dentro dos limites estabelecidos pela Constituição, preservando a harmonia institucional e garantindo que as decisões do Parlamento, que representa a vontade popular, sejam respeitadas.

  • Para encerrarmos, há alguma mensagem que o senhor gostaria de deixar aos nossos leitores?

Na minha vida, eu sempre guardei os ensinamentos da minha avó, uma senhora do Sertão da Paraíba, que dizia: “Meu filho, não faça aquilo que os outros não podem saber”. Essas palavras conduziram minha trajetória como médico e homem público. Lembro também da reflexão de Kant: “Nada mais me enche de admiração do que o céu estrelado acima de mim e a consciência moral dentro de mim”. Aos 60 anos, só tenho a agradecer. Em 2022, tive a oportunidade de discursar na tribuna da ONU [Organização das Nações Unidas]. Naquele momento, como um paraibano nascido em João Pessoa ocupando um espaço histórico, lembrei das mulheres fortes da minha vida — minhas avós, minha mãe, minha esposa e minha filha. É guiado por esses valores e pelo caminho do bem que quero continuar trabalhando pela Paraíba.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de junho de 2026.