Primeira secretária de Estado da Mulher do Brasil, em Alagoas, Vanda Menezes começou a luta nos movimentos de justiça social ainda jovem. Psicóloga, perita criminal e policial civil aposentada, ela participou da fundação da primeira entidade negra alagoana, a Associação Cultural Zumbi, em 1979, e se tornou a primeira mulher negra a liderar um sindicato da Polícia Civil no país, no ano de 1994. Trabalhou no estabelecimento prisional feminino Santa Luzia, na capital Maceió, de onde a transferiram por promover debates sobre cidadania, direitos das mulheres e questões raciais entre as detentas, e atualmente integra a Coalizão Negra por Direitos. Hoje, ela retorna à coordenação das políticas públicas de assistência feminina como gestora da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana (Semdh-PB) e discute a atuação da pasta em entrevista ao jornal A União.
A Entrevista:
- Como a primeira secretária da Mulher do Brasil, qual o sentimento de retornar à gestão da pasta, agora na Paraíba?
É um prazer enorme, mas uma responsabilidade enorme também. Muito prazer, principalmente porque, como feminista, a gente sempre pensa no ideal. Estar aqui e ver o que Lídia Moura e sua equipe construíram é uma coisa esplendorosa para nós, mulheres, que trabalhamos essas pautas. Ter órgãos como esse é uma conquista de todas as mulheres no país. É um sentimento de muita alegria voltar à gestão, especialmente na Paraíba, porque é um lindo estado, senão o estado em que a política para as mulheres mais deu certo e engloba toda a diversidade humana.
- A senhora tem uma trajetória marcada pelo engajamento no feminismo e no movimento negro. Como essa experiência molda sua atuação, hoje, à frente da secretaria?
Olha, eu acho que, se não fosse o feminismo, se não fosse o movimento negro, eu não estaria aqui. Se você me perguntar como seria a minha vida sem essas duas vertentes, eu não sei dizer o que seria. A minha pauta é realmente os direitos humanos, a justiça social, mas a partir do feminismo e da questão negra. Eu entro aos 18 anos no movimento negro, no movimento feminista, que me dão toda essa capacidade de ver o mundo de forma diferente, de saber que a gente pode fazer diferente. Tudo isso são coisas que agregaram minha vida. Eu trabalhei em um presídio feminino por oito anos, quando eu entrei na Polícia Civil como agente de polícia. Foi uma experiência fantástica trabalhar com aquelas mulheres. É preciso dizer que eu fui expulsa de todos os lugares na polícia, né? Fui expulsa do presídio, fui expulsa da Delegacia da Mulher, até que eu chego a ser perita criminal e lá não tinha como. Eu me especializei em doppler endoscópico, mas lá a gente é clínico geral, então eu trabalhava muito. Nos plantões, eu via de tudo. Passei 30 anos na polícia, passei quatro anos e meio na gestão como secretária da Mulher, passei pelo sindicato, fui presidenta do sindicato da polícia… Tudo isso me deu muita experiência, com companheiros, a maioria homens, para trazer a pauta dos direitos humanos. Essas expulsões ocorreram muito por conta disso. Eu trabalhava com as mulheres, os direitos delas e, na época, nos anos 80, isso era muito difícil. Mas o viés dos direitos humanos nunca me deixou. É engraçado: quando eu fui secretária [em Alagoas], eu fui homenageada pela Polícia Civil, então valeu a pena todo o trabalho. Aprendi demais com a polícia, ao saber que a gente pode fazer uma polícia diferente, uma polícia que realmente sabe que quem paga o nosso salário é a população e que a gente precisa tratá-la bem, que a gente precisa dar segurança e não medo. Eu sei que isso é possível. E sei porque estive lá. E sei que quem se desviou dessa missão representa muito pouco, em comparação com a maioria, que é fantástica, que dá a sua vida para cuidar do outro na segurança pública.
- A senhora já contribuía com a Semdh. Quais projetos tiveram o seu envolvimento?
Eu fiz muitas capacitações na questão de gênero e raça e, por último, atuei na consultoria para a elaboração do Museu da Diáspora Negra e do Museu das Etnias Paraibanas. Foi muito interessante e muito valioso, porque a gente conseguiu visitar muitos municípios, onde há quilombos, ciganos e indígenas. Também visitamos terreiros. Foi muito rico e me deu tranquilidade para seguir esse trabalho. A gente pretende, em novembro, estar com o museu aberto à população.
- Na sua visão, quais são as maiores preocupações da secretaria?
O grande desafio que nós temos aqui — apesar de que a Paraíba tenha reduzido em 40% o total de feminicídios [entre o primeiro quadrimestre de 2026 e o mesmo período de 2025] — é que as mulheres saibam que nós existimos e que elas devem denunciar quando estiverem sofrendo, quando estiverem em situação de violência. A gente ainda tem esse desafio. E, claro, as mulheres precisam se fortalecer para fazer isso. Mas eu aproveito para dizer que nós temos centros de referências que vão acolhê-las com uma equipe multidisciplinar, com psicólogos, advogados e assistentes sociais, que vão apoiá-las, explicá-las o que significa as violências e que elas podem sair desse círculo. Porque esse equipamento serve para isso, para dar esse suporte às mulheres que estão em situação de violência, para que elas tenham tranquilidade de chegar na delegacia, que não é um espaço que tem todo esse aparato, que a gente chama, para fazer o boletim de ocorrência. Nós acompanhamos tudo isso.
- Nesses casos, as subnotificações ainda representam um alerta?
Sabemos que ainda há subnotificação. As mulheres não vão denunciar e elas têm diversos motivos: a situação financeira e afetiva e o medo de ser agredida novamente, depois da denúncia. Mas a gente está muito feliz com os resultados, apesar de que, enquanto uma mulher for violentada ou assassinada, vamos nos sentir derrotadas. Saber que a nossa secretaria chegou nesse patamar nos orgulha muito. Eu cheguei há um mês, mas Lídia Moura e a equipe trabalharam durante todos esses anos. Uma queda de 33 para 20 no número de feminicídios pode parecer pouco para algumas pessoas, mas, para a gente, é muito grande. É saber que estamos no caminho certo. Que a Patrulha Maria da Penha, ativa em 151 municípios, está fazendo um trabalho fantástico. Já assistimos mais de cinco mil mulheres e não perdemos nenhuma por feminicídio. Para essas mulheres, que especificamente estão com medidas protetivas, a gente garante que os algozes não estejam por perto. Nunca perdemos uma mulher. Isso nos causa muito orgulho, e eu sei que é essa política que faz com que o feminicídio tenha esse déficit. A gente trabalha de uma forma muito integrada. A gente sabe, por exemplo, que a maioria dos feminicídios são de mulheres negras. E temos uma gerência que trabalha isso. Temos um entrelace que forma não só os nossos mecanismos, mas principalmente parceiros do Estado. Policiais militares, bombeiros, a Polícia Civil, a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal. Isso é muito importante, porque essas formações fazem parte da própria Lei Maria da Penha e a gente, no estado, tem conseguido fazer isso.
- Nesse quesito, a secretaria ampliou o projeto de interiorização, com a Patrulha Maria da Penha, em Patos, e o Centro de Referência de Cajazeiras. Já é possível perceber resultados positivos a partir da implementação desses serviços?
A gente já sente que as mulheres ficaram mais seguras. Apesar de ser uma coisa específica, da medida protetiva, saber que existe um mecanismo de defesa naquele lugar já dá proteção às mulheres e freia os agressores. Isso é muito importante, o simbolismo do espaço que você tem, com as três Delegacias da Mulher que também foram entregues [em Itabaiana, Princesa Isabel e Sapé] no 8 de março deste ano. Tudo isso representa mecanismos que aumentam a segurança do país.
- Quais ações a senhora considera fundamentais para avançar nessa agenda, não só de proteção, mas também de inclusão social?
Temos o Empreender Mulher, que prioriza as mulheres que estão em situação de violência, mulheres egressas do sistema prisional e mulheres em vulnerabilidade social. O Empreender não só empresta o recurso, mas também capacita essas mulheres para o empreendedorismo e também em gênero, raça e violência contra a mulher. A gente consegue trabalhar essas mulheres de forma ampla. O projeto também está interiorizado, em diversos municípios da Paraíba. Temos visto o quanto essa interiorização tem dado resultado. Depois que nós entramos no Empreender, conseguimos aumentar em 452% o investimento. Só da secretaria, foram R$ 15 milhões que conseguimos destinar às mulheres, com créditos que vão de R$ 1,5 mil a R$ 15 mil. Essas mulheres têm feito coisas fantásticas para ter do que viver e muitas vezes quebrar o ciclo da violência. Nós conseguimos empoderar essas pessoas. Pessoas LGBTQIAPN+ também têm centros de referência em João Pessoa, em Campina Grande e agora em Cajazeiras. Essa segurança existe. Eles procuram os centros quando necessário e sabem que terão uma resposta. Temos uma equipe muito boa e multidisciplinar. A gente percebe que os nossos companheiros e companheiras que sofrem esse tipo de violência têm na secretaria um suporte, um porto seguro.
- As plenárias do Orçamento Democrático Estadual (ODE-PB) começaram neste mês. De que forma as demandas da Semdh são incorporadas nas discussões?
Estaremos em todas as plenárias. Durante o dia, o estado todo se volta para isso, e a gente leva as questões de violência, os nossos serviços. A gente faz panfletagem, a gente conversa com a população, a gente assegura que a secretaria está à disposição para toda essa diversidade humana. O orçamento democrático é importantíssimo, porque é um espaço de escuta ativa para que a gente possa, a partir disso, programar e edificar políticas públicas.
- Recentemente, a secretaria participou do encontro sobre políticas de cuidado na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), no Chile. Qual a importância dessa adesão e que impactos ela pode trazer?
Eu fui à Cepal com outras companheiras da América Latina exatamente porque a Paraíba é o primeiro estado do Brasil que aderiu à Política Nacional de Cuidados. Já estamos bem adiantados com o diagnóstico e temos que fazer o plano estadual. A gente sabe que existe uma pobreza de tempo, em especial para as mulheres. Nós que cuidamos. E essa política diz que a gente também precisa ser cuidada, que a gente precisa ter um autocuidado. Vou dar um exemplo. A gente cuida da família: do pai, da mãe, do sogro e da sogra, quando a gente casa, e, quando não casa, cuida dos avós. Sempre temos tempo para tudo, para os outros, e ficamos por último. Muitas vezes, a gente tem um prejuízo enorme na nossa vida, física e mental, por conta disso. Então, nós precisamos de descanso. A maioria desses cuidados não são remunerados, são cuidados que nos impuseram nessa sociedade, que é patriarcal. A política de cuidado vem exatamente para lembrar que ele é preciso. Aqui, como eu falei no Chile, a gente tem, por exemplo, o programa Cidade Madura, que cuida dos idosos. A gente tem a Patrulha Maria da Penha, que cuida das mulheres para que elas tenham a segurança de que não vão ser assassinadas. A gente tem as Casas Abrigo, a gente tem centros de referência interiorizados. Temos esse cuidado com ciganos, com a população indígena e quilombola, inclusive tendo essas pessoas na nossa secretaria para trabalhar essas questões. A gente cuida de quem sofre intolerância religiosa. A coisa que eu acho importante é fazer com que o gestor compreenda. E o governador Lucas Ribeiro compreende isso, como o nosso ex-governador, João Azevêdo, também compreendeu, que a política de cuidado é necessária. Tanto que a gente tem o Dia do Cuidado, em 29 de outubro, para que as pessoas pensem sobre o assunto, que é um ponto facultativo. Lá [no Chile], eu disse que ponto facultativo no Brasil significa feriado, então a gente tem um feriado no próximo dia 29 de outubro. A gente continua. Vamos fazer esse plano ainda neste ano, de modo que o Ministério do Desenvolvimento Social [MDS] traga recursos para que essa política, junto com recursos do governo, possa ser implementada.
- O que ainda é preciso para consolidar uma política de direitos humanos mais inclusiva no estado?
É caminhar como a gente está caminhando na conscientização da população e do governo. Se a gente tem a consciência dos governantes, dos gestores, a gente tem a vontade política. E isso a Paraíba já demonstrou que tem. É uma ação integrada que a gente faz concomitantemente para mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBTQIAPN+. Essa questão da intolerância religiosa, que é muito forte, não só aqui, mas no Brasil inteiro... a gente trabalha para que a sociedade compreenda que a diversidade humana existe e que ela precisa ser respeitada. Eu não preciso que ninguém me goste. Eu sou uma mulher negra. Eu só preciso que as pessoas me respeitem e, assim, todos e todas que fazem parte dessa secretaria, porque ela representa a população. Nós, aqui, representamos a população paraibana. Portanto, é preciso que haja essa consciência. A gente tem esse cuidado de estar no governo, conversando com todas as secretarias.
- Qual a principal meta que a senhora pretende alcançar durante a gestão?
Continuar o que Lídia começou. Fortalecer o legado de Lídia Moura. Não é nem uma meta, é o meu compromisso. Eu vim para cá depois de aposentada exatamente porque acredito que é possível, a cada dia, a gente fortalecer a política que Lídia implantou com a equipe que ela formou e qualificou. Esse legado é dela e eu pretendo dar continuidade neste ano.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2026.