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em nove anos

Capital registra aumento de 4,5 °C na temperatura

publicado: 31/03/2026 09h14, última modificação: 31/03/2026 09h14
Estudo utilizou imagens de satélite para mapear variação términa em JP
2026.02.23 prédios Manaíra_Arquivo © Carlos Rodrigo (2).JPG

Bairros afetados foram muito desmatados nos últimos anos para dar espaço à verticalização | Foto: Carlos Rodrigo

A sensação de calor mais intenso em João Pessoa ganhou confirmação científica. Um levantamento do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) aponta que a temperatura de superfície em João Pessoa subiu 4,5 °C de 2013 a 2022.

O estudo utilizou imagens de satélite para mapear a variação térmica ao longo do período de nove anos. A técnica permite identificar com precisão as áreas mais quentes da cidade e acompanhar a evolução ao longo dos anos. Os dados mostram que bairros litorâneos como Manaíra, Tambaú e Jardim Oceania concentram os maiores índices de desconforto térmico.

A pesquisa integra as ações do projeto de extensão “Pedagogia Urbana”, ligado à UFPB, que investiga os impactos do crescimento urbano sobre o clima local. O levantamento relaciona o avanço da temperatura a decisões de planejamento urbano. A expansão da cidade sem a preservação de áreas verdes, a substituição do solo natural por superfícies impermeáveis e o aumento do fluxo de veículos movidos a combustíveis fósseis aparecem como elementos centrais no processo.

A coordenadora do grupo, a professora de Geociências Andréa Porto, afirma que o aumento não ocorreu de forma isolada. “As causas identificadas são a baixa presença de vegetação em bairros que foram muito desmatados nos últimos anos para dar espaço para a verticalização; a impermeabilização do solo; a quantidade de ar-condicionado por metro quadrado, porque são equipamentos que eles resfriam dentro, mas eles acabam esquentando fora; e o trânsito durante todo o dia. Então são quatro fatores que contribuem com o desconforto térmico que a gente identificou nesses bairros”, enumera a pesquisadora.

Nas ruas, a percepção acompanha os dados. O calor é descrito como constante, inclusive fora do verão. Relatos apontam sensação de abafamento, vento quente e dificuldade de encontrar alívio mesmo em áreas sombreadas. O aquecimento do solo, exposto ao sol durante o dia, prolonga a sensação térmica elevada ao longo da noite. São mudanças sentidas na rotina das pessoas.

A administradora Marcela Machado, de 30 anos, diz que precisou ajustar os horários das atividades ao ar livre. “Como eu nasci e cresci em João Pessoa, é bem perceptível para mim essa mudança no clima da cidade, que está de fato mais quente. Por isso mesmo eu prefiro fazer as atividades que requerem uma certa exposição ao sol até, no máximo, as 7h da manhã, porque depois disso não tem a mínima condição”, reclama a pessoense.

Para ela, a temperatura sentida na pele traz prejuízos para sua saúde. “Eu trabalho em um ambiente fechado, que tem muito ar-condicionado, quando preciso sair, o impacto da quentura e do frio do ar-condicionado impacta diretamente a minha saúde, porque eu tenho problemas respiratórios”, complementa.

A estudante Alessia Guedes, que mora na cidade há sete anos, relata também impacto direto na disposição ao longo do dia. “Principalmente neste ano eu acho que eu tenho sentido mais, já estamos aí no outono e, mesmo assim, em temperatura de verão, é muito quente, essa última semana foi muito quente e atrapalha, sim, no dia a dia, a gente se sente mais indisposta, mais cansada se tiver que ficar exposta ao ar livre”.

Plataforma reúne dados climáticos e urbanos

O estudo também aponta caminhos possíveis para reduzir os efeitos identificados. A professora Andréa Porto destaca que as mudanças dependem de decisões estruturais. “O mais importante agora é a gente poder transformar políticas públicas. Pensando para João Pessoa, o básico é zerar o desmatamento, fazer processos de restauração florestal na cidade, porque a gente perdeu muitos fragmentos de floresta nos últimos anos. A gente precisa atentar mais para essa moda de impermeabilizar todo o lote, para construir edificações do mercado imobiliário”, aponta a especialista.

Como parte das ações do projeto, o grupo desenvolveu uma plataforma digital interativa que reúne dados climáticos, urbanos e sociais da capital. A ferramenta permite acompanhar informações atualizadas e também participar do monitoramento das políticas públicas relacionadas ao clima.

“Então essa plataforma foi criada no sentido de promover uma sinergia entre a universidade, a sociedade civil e o poder público. A ideia é fazer o acompanhamento, ou seja, o monitoramento das ações do plano de ação climática de João Pessoa. Ao mesmo tempo que ela informa, ela vê também uma plataforma interativa com a sociedade”.

O acesso é gratuito e inclui um formulário para quem quiser contribuir com pesquisas, receber atualizações ou atuar de forma voluntária nas ações de acompanhamento. O conteúdo está disponível no perfil do projeto na rede social Instagram, @pedagogiaurbanabr.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de março de 2026.