Com quase 100 anos de história, a Escola Estadual de Música Anthenor Navarro (Eeman) tornou-se uma das principais referências para quem pretende estudar música na Paraíba. Localizada no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, em João Pessoa, a escola atende atualmente 2.200 alunos, de forma totalmente gratuita.
É possível escolher entre 19 instrumentos disponíveis para aprender, além de técnica vocal, totalizando, então, 20 cursos ofertados. De acordo com o diretor da escola, Moézio Porfírio, é possível começar a partir dos seis meses de idade. “A gente fala aqui que é desde os seis meses de idade até enquanto puder subir a rampa [a escola fica no andar superior do Espaço Cultural]. A gente teve a alunos até na melhor idade. Com 90, acima de 90 anos, a gente já teve aluno que ingressou na escola”, afirmou.
No caso das crianças, a porta de entrada são as turmas de musicalização infantil, que contam com módulos que vão do um ao três, sendo o três recomendado para crianças a partir de 10 anos. É nessa idade que elas começam a aprender teoria musical para, em seguida, escolher o instrumento que querem aprender. “A gente trabalha com as crianças essa parte mais lúdica, trabalha essa parte de melodia, de harmonia, essas estruturas musicais básicas através de ludicidade, de instrumentos, de bandinha etc, até o aluno começar a tocar, a ter aulas individuais de instrumento, que ele vai ter lá para os 10 anos, 11 anos de idade”, explicou Moézio.
O curso completo de teoria musical conta com 12 semestres e dura seis anos. No primeiro semestre, o aluno aprenderá apenas teoria, sendo que, a partir do segundo, ele passa a ter também aulas práticas do instrumento escolhido. A escola tem instrumentos disponíveis para as aulas, mas o ideal é que o aluno adquira seu próprio instrumento para praticar em casa, como reforçou o diretor. “Ele tem aqui 45 minutos de aula semanal de instrumento e uma hora e meia de aula de teoria, então ele tem que praticar o restante da semana em casa, porque é um exercício que tem que ter muita disciplina”, observou.
Turmas infantis
Moézio Porfírio contou que as aulas infantis são as mais procuradas. “A música causa esse desenvolvimento global na criança. E não sou eu que digo, mas a neurociência que fala e os pais vêm muito também à procura desse desenvolvimento que é proporcionado pela música. Porém, como a gente não tem essa pegada de musicoterapia, de ir para essa parte da terapia de desenvolvimento, o aluno tem que adquirir as competências realmente para poder ter esse desenvolvimento. Mas os pais relatam muito que ajuda na vida global, em todas as disciplinas na escola e até na própria disciplina, na educação”, comentou.
Pela alta procura, os cursos de musicalização infantil acabam sendo os mais concorridos quando a escola abre inscrições para novos alunos, duas vezes ao ano. As inscrições ocorrem nos meses de janeiro e julho e o edital costuma ser publicado nas redes sociais da escola — @eemananthenornavarro. Geralmente uma média de 200 vagas são disponibilizadas, sendo que 60% delas são reservadas para alunos da rede pública de ensino, 10% para pessoas com deficiência e 30% para ampla concorrência. “A procura é enorme aqui, na escola. Quando a gente faz um oferecimento de vaga nessas duas épocas do ano, a gente tem cerca de quatro mil a cinco mil pessoas inscritas, principalmente crianças de seis meses a cinco anos”, disse Moézio.
Não é necessário, porém, fazer plantão na frente do computador para poder se inscrever primeiro. Moézio Porfírio explicou que todas as inscrições recebidas dentro do prazo são consideradas para um sorteio, que vai definir quem ficará com as vagas.
O estudante Kauan Monteiro foi um desses sorteados. “Eu estou aqui há dois semestres, eu comecei no ano passado, por indicação de amigos. Eu estava procurando uma escola para poder estudar música, porque na escola que eu frequentava tinha apenas banda marcial e o professor não conseguia ministrar aulas em específico de teoria de música. Aí a gente trabalhou bastante a questão do instrumento, mas me faltava a parte da teoria e a prática com professores específicos do instrumento e assuntos abordados. Eu tentei a vaga e fui sorteado”, contou ele que agora está aperfeiçoando seu conhecimento em teoria e a prática do trombone.
Gerações de músicos dividem-se entre a UFPB e orquestras sinfônicas
Diversas gerações de músicos já passaram pela Eeman e muitos deles acabam se encaminhando para o curso superior de Música da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) ou para as orquestras sinfônicas do estado.
Nívea Maria Santos, por exemplo, deu a volta completa. Após estudar na Eeman, ela formou-se em Música pela UFPB e depois voltou à escola estadual, dessa vez como professora. “Daqui eu fui para a UFPB, mas eu comecei meus estudos de música aqui. Eu sou professora de teoria e de flauta transversal faz seis anos”, contou ela.
Além da flauta transversal, a escola também oferta aulas de piano, violão 12 cordas, violino, viola, violoncelo, bateria, percussão sinfônica, trompete, clarinete, acordeom (sanfona), guitarra, contrabaixo acústico, contrabaixo elétrico, trombone, saxofone, flauta doce, violão e cavaquinho.
Segundo Moézio Porfírio, o piano está entre os instrumentos mais procurados. “A gente tem 12, 13 professores de piano que são abarrotados de alunos. Eu acho que pela tradição da escola também. A escola era uma escola de piano lá atrás, quem sabe isso não faz parte dessa tradição? Depois vem violão, violino. Quando a gente introduziu os instrumentos populares, que é o caso da guitarra elétrica, contrabaixo elétrico, bateria, que a escola não tinha, cavaquinho, aí o pessoal já procurou. A sanfona é que é muito procurada agora, para a gente trabalhar essa parte da regionalização também da música. Isso foi muito bom para a escola quando a gente colocou esses instrumentos mais populares”, avaliou.
História
A escola foi fundada em 1931 pelo maestro paraibano Gazzi de Sá (1901–1981) e sua esposa Ambrosina, inicialmente em sua casa, ao lado da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora das Neves, no Centro de João Pessoa. O trabalho do professor Gazzi foi reconhecido pelo Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, especialmente por Heitor Villa-Lobos. Como consequência, deu-se, então, a criação do Instituto Paraibano de Educação Musical, que conferia grau universitário reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). Essa experiência única foi responsável pela formação de grandes professores de Música naquela época, na Paraíba.
Em 1932, a escola passa a se chamar Escola de Música Anthenor Navarro, em homenagem ao interventor do Estado, amigo pessoal do professor Gazzi e entusiasta da música, falecido em um acidente de avião. Em 1952, o instituto foi integrado ao Governo do Estado da Paraíba.
Em 1983, a Escola de Música Anthenor Navarro foi o primeiro órgão cultural e de ensino a instalar-se no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, onde funciona até hoje, com o nome de Instituto Superior de Educação Musical — Escola de Música Anthenor Navarro. Era uma Instituição de 2º grau e de nível superior, porém esta última categoria foi desativada quando surgiu o Curso de Música na UFPB, nos anos 1980, restando à Anthenor Navarro apenas o funcionamento enquanto escola, qualificando os alunos em nível de 2º grau técnico.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de abril de 2026.