O projeto Germinando Paz e Artes tem promovido a discussão sobre a cultura de paz para comunidades socialmente vulneráveis e escolas públicas de João Pessoa por meio da arte, da educação e da convivência coletiva. A iniciativa surgiu a partir do Projeto Universidade em Ação (PUA), que faz parte da atividade de extensão e pesquisa vinculada ao curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em 2015, com a proposta de transformar reflexões acadêmicas em ações práticas voltadas para a realidade social de crianças, adolescentes e famílias da capital paraibana.
Atualmente, o projeto atua como um braço do Em--baixa-dores do Riso, iniciativa da organização Palhaços Sem Fronteiras, conhecida internacionalmente por desenvolver ações humanitárias por meio da arte do riso e da linguagem circense em territórios marcados por vulnerabilidade social, conflitos e exclusão. Em João Pessoa, o trabalho tem buscado fortalecer vínculos comunitários e incentivar formas de convivência baseadas no respeito, no diálogo, na resolução de conflitos e na empatia.
“Existem correntes no pensamento sobre relações internacionais que interpreta que mundo não tem que ser só visto por meio de fronteiras, mas, sim de comunidades. Uma insegurança em um lugar na verdade não é uma insegurança só dali. Ela é uma insegurança internacional. Já que todos nós fazemos parte de uma mesma comunidade que é o mundo. Mas que depende das fronteiras. Então isso justifica, vamos dizer, uma ação local ser também uma ação internacional.”, explica Luiz Eduardo Santos, um dos monitores do projeto.
A proposta do Germinando Paz e Artes parte do entendimento de que a construção da paz não acontece apenas em grandes acordos internacionais, mas também nas relações cotidianas entre as pessoas. Se o escritor russo Liev Tolstói defendia que, para ser universal na literatura, era necessário falar primeiro da aldeia onde se vivia, o projeto Germinando Paz e Artes inspira-se na ideia do autor de Guerra e Paz para construir uma espécie de caminho no qual as transformações internacionais passam pela intervenção local.
Por isso, o projeto aposta em ações nas comunidades onde ele está inserido, desenvolvendo atividades diretamente dentro das comunidades e das escolas públicas, como forma de estimular mudanças sociais, a partir dos próprios indivíduos. A ideia é que a cultura de paz seja construída de baixo para cima, começando nas experiências pessoais e coletivas, até alcançar impactos mais amplos na sociedade.
Maria Fernanda Cavalcanti também é uma das professoras do projeto e integra as intervenções nas escolas e comunidades. Formada em Relações Internacional na UEPB, ela compreende que esse fomento da cultura de paz localizada, como impulso para uma mudança cultural que possa modificar no futuro a construção de relações interpessoais e, a partir disso, as internacionais.
“Os estudos de paz são uma espécie de subcampo das Relações Internacionais. Que é o subcampo de segurança nacional. A gente está muito ligado a isso. É uma compreensão que a gente precisa primeiro pensar o local. Porque na verdade é tudo uma estrutura. Então se há violências aqui em João Pessoa é porque há uma violência estrutural no mundo todo. Então a gente precisa meio que ir apagando esses focos de violência.
Ações incentivam a criatividade dos estudantes
Já foram várias as unidades educacionais públicas que receberam atividades do projeto, em João Pessoa, em bairros como Ilha do Bispo, Varadouro, Cristo, Bairro das Indústrias, Castelo Branco, entre outros.
Dentro das escolas, uma das principais atividades realizadas são as oficinas de circo, que utilizam elementos como malabares, palhaçaria, expressão corporal e jogos cooperativo, lúdicos, para trabalhar questões ligadas à convivência, autoestima e resolução pacífica de conflitos. As atividades também incentivam a criatividade, o trabalho em grupo e o fortalecimento emocional dos estudantes, criando ambientes mais acolhedores dentro do espaço escolar.
Professor da graduação e da pós-graduação em Relações Internacionais na UEPB, Paulo Kulhman é um dos coordenadores do projeto e atua como palhaço nas atividades no Germinando Paz e Artes. Ele participa das aulas e acredita que é importante levar outras referências artísticas para dentro desse encontro com a juventude, para que novas referências sejam criadas na vida dos estudantes e dos moradores de comunidades.
“Os acordos de paz, após as guerras, costumam ser entre autoridades, e isso não proporciona a paz, se não for resolvido de uma maneira definitiva os problemas locais. Por isso, a paz tem que ser gerada, costurada entre todos os níveis. Um papel por si só não gera a paz. Trabalhamos, a partir dessa perspectiva, com a arte como forma da construção da paz. Já tivemos a presença do cantor e compositor Escurinho e da musicista Dona Roxa em atividades, e a minha é ideia é levar vários artistas de diversas artes, para que os jovens possam ter mais referências”, analisou.
Além das oficinas, o projeto promove rodas de conversa, apresentações artísticas e atividades educativas que estimulam o diálogo sobre direitos humanos, diversidade, solidariedade e cidadania. A linguagem artística tem sido utilizada como ferramenta de aproximação social, principalmente entre crianças e jovens que convivem diariamente com contextos de violência, desigualdade e ausência de oportunidades.
Os organizadores destacam que o trabalho busca mostrar que a paz não deve ser entendida apenas como ausência de guerra ou conflito, mas como a construção permanente de relações mais humanas, justas e inclusivas. A atuação em João Pessoa também objetiva intensificar o papel da universidade pública como agente de transformação social, aproximando conhecimento acadêmico e ações comunitárias.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de maio de 2026.