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PoliTEENzando

Projeto estimula o voto jovem facultativo na PB

publicado: 12/01/2026 08h43, última modificação: 12/01/2026 08h43
TRE-PB emite mais de mil títulos em escola e forma estudantes em educação política
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O PoliTEENzando é um programa de formação política voltado para estudantes de 15 a 17 anos | Fotos: Divulgação/TRE-PB

por Joel Cavalcanti*

O eleitorado jovem voltou a crescer no Brasil após mais de uma década de retração. De 2020 a 2024, o número de eleitores de 16 e 17 anos (faixa etária em que o voto é facultativo) passou de cerca de 1,03 milhão para aproximadamente 1,84 milhão, um salto de 78%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A mudança ocorre em meio a  iniciativas como a campanha Bora Votar! e a críticas de parlamentares da direita que alegam favorecimento a correntes ideológicas de esquerda.

O presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), desembargador Oswaldo Trigueiro do Valle Filho, afirma que o foco não é estimular o voto do jovem por estratégia eleitoral, mas reconhece a natureza desse embate. “Essa pauta de ideologia criou uma bipolaridade no país, um radicalismo de parte a parte. Mas estimular o voto jovem é como estimular o voto de outros segmentos, como mulheres ou pessoas com deficiência. Não é uma questão de ideologia. Se todos participam, você consegue um retrato do perfil do eleitor brasileiro”, defende.

Segundo o desembargador, o crescimento do voto facultativo entre jovens na Paraíba acompanha a mesma proporção nacional. O estado possui mais de três milhões de eleitores, com cerca de 180 mil jovens na faixa facultativa, o que representa cerca de 6% do eleitorado. Com margens tão pequenas dividindo as eleições entre esquerda e direita, esse contingente não é desconsiderado. “Nós não temos uma meta própria de emissão de títulos desses jovens. A gente está fazendo uma política de divulgação e o PoliTEENzando é um desses projetos”, explica o presidente do TRE-PB.

Criado pelo TRE-PB em parceria com a Escola Judiciária Eleitoral (EJE-PB) e a Secretaria de Estado da Educação (SEE-PB), o PoliTEENzando atua como um programa de formação política voltado para estudantes de 15 a 17 anos. A iniciativa combina debates, atividades pedagógicas, atendimento eleitoral dentro das escolas e diálogos sobre temas contemporâneos que influenciam diretamente a vida dos adolescentes. Em João Pessoa, um posto de atendimento montado na Escola Cidadã Integral Técnica Professor Raul Córdula registrou 1.073 emissões de títulos em pouco mais de um mês.

Além do atendimento escolar, o projeto realizou encontros presenciais em João Pessoa, Patos e Campina Grande, reunindo cerca de 1.500 estudantes. A programação inclui dinâmicas como o quiz “Quem é você decidindo o futuro do seu país?”, conduzido por juízes e pelo presidente do TRE-PB, com discussões sobre voto, políticas públicas, impactos das decisões do Estado e desinformação. 

Além do atendimento escolar, o projeto realizou encontros presenciais nas cidade de João Pessoa, Patos e Campina Grande

Os eventos também trazem convidados nacionais. Entre eles, Renan Ferreirinha, secretário de Educação do Rio de Janeiro; o deputado federal Jadyel Alencar, relator do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente; e Stefani Juliana Vogel, integrante da equipe responsável pela elaboração da proposta. A presença desses atores aprofunda debates sobre uso das redes sociais, exposição de crianças e adolescentes, proteção digital e as responsabilidades do jovem no ambiente virtual.

A Secretaria de Estado da Educação atua diretamente na estruturação do PoliTEENzando. “A Secretaria mobiliza as nossas Gerências Regionais, garante a participação dos estudantes, abre espaço para debates e dinâmicas e aproxima os jovens do processo democrático de forma concreta”, afirma o secretário de Educação, Wilson Filho. Ele lembra que sua própria trajetória política começou cedo: foi eleito deputado federal aos 21 anos, idade mínima permitida. “Eu comecei minha trajetória jovem […] e sei o quanto a juventude tem força e capacidade”, diz.

Wilson Filho defende que a escola é o ambiente natural para essa formação. “A Secretaria de Educação tem um papel central no PoliTEENzando, porque é justamente dentro da escola que a formação cidadã acontece. O que estamos fazendo é transformar a escola em um ambiente onde o estudante entende que as reivindicações que ele faz são fruto de decisões políticas”, explicou.

O jovem e a democracia

O contexto nacional, marcado por crises político-institucionais e uma tentativa de golpe de Estado, não passa alheio aos jovens. O desembargador Oswaldo Trigueiro do Valle Filho vê no crescimento do eleitorado um reflexo disso. “Esse crescimento mostra justamente a preocupação do jovem com os fatos que envolvem o seu país e as consequências que isso pode ter. Proteger a democracia também é papel do jovem e das suas lideranças”, afirma.

Os debates promovidos pelo projeto vão além do ato de votar. Temas como a adultização nas redes sociais, responsabilidade digital, desinformação, exploração da sexualidade e automutilação são abordados, conectando a legislação ao cotidiano dos adolescentes. “É preciso que ele se apodere de uma faculdade [da participação nas eleições]. É dada a esses jovens a opção de, efetivamente, poder ser eleitor”, complementa o presidente do TRE-PB.

Para o secretário Wilson Filho, a escola ampliou o debate sobre cidadania, o que impacta diretamente a decisão do jovem de tirar o título. “Quando discutimos temas como adultização nas redes sociais, formação de opinião e impacto das tecnologias, estamos ajudando os jovens a compreender que a política faz parte do cotidiano deles”, emenda o gestor.

No quiz que abre os encontros, os estudantes são convidados a refletir sobre como se posicionam diante de decisões políticas. Em seguida, recebem explicações sobre seus direitos, sobre o papel das instituições e sobre como as escolhas políticas impactam sua vida escolar, familiar e comunitária. Nos debates, os convidados conversam sobre segurança digital e sobre como legislações como o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente influenciam seu cotidiano.

O PoliTEENzando soma-se às preocupações das instituições públicas em garantir que o crescimento do eleitorado jovem venha a representar também maior qualidade na participação democrática. “Nós não queremos jovens só reclamando das decisões políticas; queremos jovens capazes de participar delas. Estimular o voto nessa faixa etária é estratégico, porque desperta senso crítico, consciência cidadã e responsabilidade social”, conclui Wilson Filho.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de janeiro de 2026.