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ditadura nunca mais

JP sedia a 2ª Caminhada do Silêncio

publicado: 02/04/2025 09h32, última modificação: 02/04/2025 09h34
Evento, que aconteceu pelas ruas do Centro, marcou o aniversário de 61 anos do Golpe Militar e foi organizado pelo CPMVJ
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Passeata percorreu várias ruas do Centro, tendo como destino final o Parque Solon de Lucena | Foto: Carlos Rodrigo

por João Pedro Ramalho*

Fazer um minuto de silêncio é um rito comum ao reverenciar a memória de pessoas que faleceram. Para relembrar e pedir justiça pelos mortos e desaparecidos da Ditadura Militar (1964-1985), contudo, parece insuficiente imobilizar o tempo por 60 segundos, sendo necessária uma jornada inteira. Por isso, a cidade de João Pessoa sediou, na tarde de ontem, a 2ª Caminhada do Silêncio da Paraíba, que marcou o aniversário de 61 anos do golpe e foi organizada pelo Memorial da Democracia da Paraíba e pelo Comitê Paraibano Memória, Verdade e Justiça (CPMVJ). O percurso teve início na sede da Ordem dos Advogados do Brasil — Seccional Paraíba (OAB-PB) e encerrou-se no Parque Solon de Lucena, tendo passado por pontos, no Centro da capital, conhecidos como símbolos da luta contra o regime militar, a exemplo da Faculdade de Direito e da Praça Barão do Rio Branco, onde funcionava o Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

O grupo de participantes, formado por sindicalistas, integrantes de movimentos sociais e representantes políticos e da sociedade civil, posicionou-se a favor da punição para os crimes cometidos na Ditadura e reforçou o coro nacional contra a anistia para as pessoas envolvidas nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. O movimento, também realizado em outras cidades do Brasil, ocorre em um contexto político de reafirmação da democracia, que inclui a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar réu o ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de estado, e a possibilidade de revisão da aplicação da Lei da Anistia para os crimes de desaparecimento cometidos no regime militar. Essa possível reavaliação, aliás, tem influência do sucesso de “Ainda Estou Aqui” (2024), filme premiado com o Oscar, que narra a luta da advogada Eunice Paiva pela memória de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido e morto durante a Ditadura.

Em João Pessoa, a mobilização teve ainda uma pauta local: o rebatismo de logradouros que levam os nomes de figuras da Ditadura. O tema foi levantado no relatório da Comissão Municipal da Verdade, em 2014, e voltou à tona neste ano, após recomendação do Ministério Público da Paraíba (MPPB). “Não podemos continuar homenageando pessoas que foram responsáveis por tortura, por assassinato, por sequestro. Tem outros estados que já estão mudando isso, mas, aqui na Paraíba, a conjuntura coincidiu neste ano. Os agentes da Ditadura precisam ser punidos”, defendeu Lúcia Guerra, professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e uma das responsáveis por organizar a caminhada.

Entre os manifestantes, também havia familiares de vítimas do governo ditatorial, como o professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paulo Araújo. Ele é irmão de José Maria Araújo, natural de Santa Luzia e morto em 1970, aos 29 anos, quando integrava a Marinha. Na época, ele chegou a desafiar o regime e se exilar em Cuba, mas, após retornar ao Brasil, foi torturado e assassinado em São Paulo. Todavia, seus restos mortais, até hoje, não foram devolvidos à família. Já em 1973, sua viúva, a cubana Soledad Barrett, também foi morta pelos militares.

Para Paulo, a participação na caminhada é uma forma de honrar a memória dessas vítimas e a resistência de quem continuou na luta pela democracia. “Essa marcha, que, felizmente, está acontecendo pelo Brasil afora, é uma forma de, sem fazer muito barulho, você dizer uma frase que pegou: ‘Ainda estamos aqui’. Nós somos vítimas, ou somos parentes das vítimas — pais, irmãos, mães etc. —, e estamos aqui”, afirmou, em alusão ao filme vencedor do Oscar.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de abril de 2025.