Os festejos carnavalescos costumam trazer muitas cores, brilho, música e alegria às ruas. Nesse período, troças, agremiações e grupos desfilam e encantam quem participa ou mesmo quem passa só para ver a festa. Mas, para que tudo isso aconteça, o trabalho de quem “coloca o bloco na rua” começa muito antes do Carnaval.
Em João Pessoa e Campina Grande, os grupos do chamado “Carnaval Tradição” começaram a se preparar desde o fim dos desfiles do ano passado. São reuniões para a escolha do tema e a confecção de fantasias, estandartes e adereços, além dos ensaios — que acontecem, em média, duas vezes por semana —, para que tudo saia perfeito na avenida. Em 2025, mais de 50 agremiações desfilaram na capital; já na Rainha da Borborema, foram cerca de 20.
Criada em 2014, a escola de samba Unidos do Roger é uma das que integram o Carnaval Tradição pessoense. Com três cores — verde, rosa e branco — e mais de 300 integrantes, o grupo levará para a avenida, neste ano, o tema “Sorte é ser Unidos”. A proposta é abordar símbolos ancestrais, crenças, amuletos e a fé que marca a vida das pessoas e atravessa gerações e culturas. O presidente da agremiação, Paulo César dos Santos, destaca que a função requer jogo de cintura e amor, para lidar com as responsabilidades e dificuldades. “Os recursos, quando chegam, é na véspera da semana de Carnaval, e, para a gente trabalhar até chegar o desfile, precisa arrumar dinheiro emprestado, cartão, para poder fazer as coisas andarem. Tudo em que trabalhamos, de outubro para cá, é com recursos que conseguimos, com rifas e bingos, senão não daria tempo”.
Paulo César revela que o tema do enredo deste ano foi escolhido ainda no primeiro semestre de 2025, quando já começaram os trabalhos para a composição do samba e a elaboração de fantasias, adereços, carros e outras peças. “Temos pessoas que recebem dinheiro para sua atuação, como o mestre de bateria, o costureiro e o coreógrafo da comissão de frente. E, da comunidade, temos pessoas voluntárias, que nos ajudam”. O grupo também realiza oficinas com crianças e jovens que querem aprender a tocar; o próprio Paulo César lembra que sua relação com o Carnaval surgiu na infância e que esse amor cresce a cada ano. “Para mim, ser presidente de uma escola, hoje, é uma honra! Você chegar no dia do desfile e ver tudo aquilo que sonhou sair perfeito na avenida, não tem explicação; é extraordinário”.
Urso Branco conta com o apoio de Mandacaru
Um dos grupos de ala ursa que desfila na capital, o Urso Branco, sediado no bairro de Mandacaru, existe desde 2006 e conta com cerca de 60 integrantes. Todos os anos, o grupo também escolhe um tema para levar para a avenida, renovando figurino e adereços com base nele. “Neste ano, vamos levar a literatura de cordel, mas já falamos do artesanato da Paraíba, da história do bairro, da história do presidente e da agremiação”, aponta uma das participantes do Urso Branco, Kelly Sousa. Ela ressalta que o trabalho para que a agremiação desfile acontece o ano todo. “Encerramos um [Carnaval] e já começamos o do próximo ano; a gente dá só um tempinho de descanso e depois retoma”, frisa Kelly, informando que os ensaios ocorrem duas vezes por semana, mas, quando se aproximam do período carnavalesco, eles sobem para três ou quatro vezes por semana.
Quanto à produção de fantasias, adereços e estandartes, a integrante comenta que todo o grupo participa desse trabalho, inclusive crianças da comunidade. Em Mandacaru, o Urso Branco ainda realiza ações sociais, arrecadando doações para auxiliar as famílias mais carentes da região, e costuma atrair o prestígio dos moradores locais durante ensaios e encontros com outras agremiações. “Quando a gente bota o ensaio na rua, eles colocam uma cadeirinha e ficam assistindo a gente. Já os encontros são um espetáculo para eles, até porque nem todos conseguem ir ao concurso”.
Para Kelly, desfilar no Carnaval Tradição gera um misto de sentimentos. “Sempre dá aquele nervosismo, por mais que a gente tenha ensaiado e já tenha passado por isso, sempre tem essa expectativa do que os jurados vão achar, mas é maravilhoso!”. Por outro lado, ela salienta as dificuldades financeiras para manter o grupo e conseguir custear todas as despesas para a apresentação. Para este ano, a Prefeitura de João Pessoa lançou um edital destinando recursos às agremiações e, apesar de já ter seu resultado publicado, o processo não especifica a data do pagamento aos beneficiários. “Só pagam a subvenção ‘em cima’ do concurso. Não dá tempo de fazer nada, então a gente já está fazendo, sem previsão de receber”, lamenta Kelly. Manter essa tradição viva, segundo a representante do grupo, é um ato de amor e de compromisso com os jovens que o integram, mas não há ganhos financeiros.
Escolas e bois também colorem as ruas de CG
Na Rainha da Borborema, o presidente da Associação Campinense das Escolas de Samba e Troças Carnavalescas (Acestec), Rodrigo Martins, prevê que os desfiles do Carnaval Tradição ocorram em 7 e 8 de fevereiro. “Temos 28 agremiações filiadas e estamos com toda a programação fechada, mas ainda aguardamos o posicionamento dos Poderes Públicos e buscamos outros apoios, para que possamos custear a realização do Carnaval”. A Prefeitura de Campina Grande abriu um cadastramento para as agremiações e blocos de rua deste ano, mas, até o fechamento desta edição, ainda não havia divulgado o resultado nem como se dará o apoio a esses eventos.

- Apreço pelas manifestações e pelo costumes populares alimenta os esforços dos integrantes do Boi Gladiador e do Bambas do Ritmo | Foto: Boi Gladiador/Arquivo pessoal
Apesar dos desafios financeiros, Rodrigo ressalta que, com muito esforço, os desfiles conseguem, anualmente, levar suas cores e animação para as ruas da cidade, reunindo de quatro mil a cinco mil pessoas. O presidente da Acestec, a propósito, também dirige uma escola de samba, a Bambas do Ritmo, do bairro José Pinheiro, com 59 anos de fundação. “Em 2026, nosso tema é ‘Criança, a esperança!’, mostrando a realidade das crianças em situação de vulnerabilidade social”. Assim como com a Unidos do Roger e o Urso Branco, é o trabalho coletivo, ao longo de todo o ano, que garante a preparação adequada da agremiação campinense. “Desenvolvemos uma oficina de adereços, para que possamos confeccionar nossas fantasias. Devido às dificuldades, muitas vezes, tudo que confeccionamos, reciclamos”, ressalta ele, frisando que a escola sobrevive da força de sua comunidade e para manter vivas as tradições carnavalescas.
Vocação
Além das escolas de samba, os festejos na Paraíba também contam com o desfiles de bumba meu boi. Em Campina, Ítalo Silva é responsável por um desses grupos, o Boi Gladiador, que surgiu em 2015 e soma, hoje, cerca de 30 pessoas. Ele diz que os preparativos para a chamada “temporada de bois”, que engloba a apresentação no Carnaval Tradição e os encontros nos bairros, começa em meados do ano anterior.
“Os encontros de bois normalmente se estendem até perto do São João e, quando terminam, a gente já se reúne para escolher as cores do ano seguinte; fazer arte para camisa, boné e bandeira; e pensar nos enfeites do boi”. Apaixonado por essa manifestação popular desde a infância, Ítalo também trabalha profissionalmente com a confecção de bois, para grupos do município e de todo o país. “Quando eu era pequeno, passou um boi na minha rua, mas eu não podia ir atrás, era criança. Minha mãe começou a me levar para os desfiles. Anos depois, conheci um senhor que tinha um boi e eu comecei a trabalhar com ele, ajudando-o a fazer o boi. Depois, fui pesquisando, vendo outros materiais, fiz o Gladiador e começaram a chegar encomendas dos bois daqui. Virou uma loucura”, brinca Ítalo, que deixou seu antigo emprego para se dedicar à área.
A realidade financeira do Boi Gladiador não é diferente daquela das demais agremiações. O dirigente conta que os próprios integrantes do grupo costumam custear as despesas para garantir o desfile. Ele reclama dos baixos incentivos dos Poderes Públicos e discorda do argumento de que o Carnaval Tradição não movimentaria a economia local. “Os ensaios começam em dezembro e a gente compra camisa, boné… Nos dias em que o boi sai, gastamos cerca de R$ 200 em fogos de artifício, além de água, instrumentos… Para fazer ou reformar os bois, compramos materiais no Centro e, nas apresentações, ganham os vendedores de bebidas, de lanches, aluguel de som. Até perto do São João, o boi segue movimentando a economia”, defende Ítalo.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de janeiro de 2026.
