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dia dos professores

Categoria busca maior valorização

publicado: 15/10/2026 09h26, última modificação: 15/10/2026 09h26
Desafios da atuação docente ainda incluem a necessidade de formação continuada e o cuidado com a saúde mental
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Estado conta com mais de 49 mil professores no ensino básico, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025 | Foto: Edson Matos/Arquivo A União

por Carolina Oliveira*

Considerada um feriado escolar e oficializada em todo o país por decreto presidencial, na década de 1960, a data de 15 de outubro — o Dia dos Professores — convida à reflexão, não apenas sobre a importância desses profissionais para a sociedade, mas a respeito dos desafios que ainda enfrentam. De acordo com o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação do Estado da Paraíba (Sintep-PB), Felipe Baunilha, temas como a busca pela valorização da categoria — tanto em remuneração quanto em percepção social —, o acesso à formação continuada, a segurança contratual e trabalhista e questões sociais, políticas e ligadas à tecnologia e infraestrutura seguem marcando as vivências dos docentes.

Há um contingente de mais de 49 mil professores atuando na Educação Infantil, nos ensinos Fundamental e Médio na Paraíba, de acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025. Já a rede estadual de ensino conta com 19.106 profissionais. À frente do Sintep-PB, que soma aproximadamente nove mil filiados, Felipe destaca que o principal desafio da categoria segue sendo a valorização profissional. “A valorização é um tema central se a gente quer tratar de melhorias e de qualidade na educação pública de todo o país. Não só no quesito remuneração, que é um ponto crucial, mas também na formação continuada, em trabalho; e nas formas de contratação”, afirma.

O coordenador sindical aponta que os concursos devem ser uma resposta às formas precárias de contrato e que iniciativas para o aprimoramento dos profissionais em atividade devem ser cada vez mais adotadas. “[São cruciais] a valorização da formação e a garantia do concurso público como a porta de entrada dos docentes no serviço público e na escola pública, como deve ser, como está na Constituição”, defende.

O representante sindical também ressalta que a saúde mental é um ponto de atenção não apenas entre os estudantes, mas, em particular, entre os professores. “O adoecimento mental dos docentes no Brasil é considerado grave, e há um alto número de licenças por questões de saúde e, em especial, de saúde mental. Hoje, muitos colegas têm adoecido porque enfrentam jornadas extenuantes, muitas vezes tendo que trabalhar em mais de uma escola, e precisam lidar com todas as contradições sociais e com a questão da inclusão, que, sem o devido investimento, recai só sobre o professor”, descreve Felipe.

“Nós vivemos, ainda, em uma escola do século 20 que tem desafios do século 21, como a conectividade e a garantia de equipamentos tecnológicos e de meios para lidar com questões de inovação e de inteligência artificial. [É preciso] garantir meios e condições para que profissionais docentes possam dar o melhor de si e o melhor conteúdo em sala de aula, com metodologias ativas”, conclui.

Depoimentos

Apesar dos desafios, o trabalho docente, quando bem feito, ressoa positivamente naqueles com quem tais profissionais mais convivem. “Tive dois professores que me marcaram muito na época do Ensino Médio e me marcam até hoje. Atualmente, estou na faculdade e, às vezes, sinto falta da conexão que criei com esses educadores”, conta a estudante de Direito Maria Luiza Albuquerque. As palavras dela, que teve um professor de Filosofia e uma professora de Teatro como referências, evidenciam algo que avaliações e provas não apontam diretamente: o papel formador de cidadania de quem está em salas de aulas, todos os dias, transmitindo conhecimento.

Um ambiente de troca de ideias, em que o debate era aberto a todos e onde os mais jovens não eram menosprezados, fez parte da formação que Maria Luiza lembra como inspiradora. “Meu professor Rubens, de Filosofia, ensinou muito sobre como lidar com relações e amizades, no âmbito profissional e na vida pessoal. Ele tinha sempre um olhar cuidadoso e respeitoso com todos os alunos, conversava e debatia conosco assuntos que, para muitos, eram banais”, relata.

“Outra pessoa transformadora na minha vida foi minha professora de Teatro, Andreza. Ela me ensinou como cada pessoa expressa de maneiras tão distintas e pessoais a arte, e também a enxergar as pessoas com empatia. Ela é, até hoje, uma inspiração como mulher, profissional e humana”, conclui Luiza.

Hoje no 3º ano do Ensino Médio, Grasielle de Souza encontrou inspiração na professora que a leciona nas disciplinas de Língua Portuguesa e Redação. Para ela, a docente fez a diferença por meio da disposição para orientar, esclarecer dúvidas e ajudar atentamente seus alunos no desenvolvimento da escrita.

“Com ela, aprendi que ensinar vai muito além de transmitir conteúdo: envolve paciência, dedicação e principalmente, a sensibilidade de compreender que cada estudante tem seu próprio caminho e potencial. Ela me fez olhar para a profissão com ainda mais admiração e perceber como um professor pode deixar marcas que acompanham um aluno muito além dos anos escolares”, conta a estudante.

Agressões e intimidação ameaçam exercício profissional

Por: Marisa Rocha

A violência contra profissionais da educação tem sido motivo de preocupação na Paraíba. Nos últimos 15 dias, o Sintep-PB recebeu sete denúncias de agressões e intimidações contra professores no estado. Os relatos incluem violência física, ameaças e assédio moral, conforme explicita o coordenador-geral da entidade.

Coordenador-geral do Sintep-PB alerta para aumento da pressão política sobre os docentes | Foto: Arquivo pessoal
Felipe Baunilha ressalta que as ocorrências não se limitam a conflitos entre estudantes e professores. Nesta semana, o órgão recebeu uma denúncia contra uma parlamentar, acusada de fazer declarações caluniosas contra profissionais da educação da Escola Cidadã Integral Liceu Paraibano.

Essa situação, no entanto, não é um ato isolado. “Desde 2018, grupos políticos na sociedade têm atacado reiteradamente os docentes pela sua prática pedagógica, por não tolerar o contraditório, aquele que diverge das suas ideias”, declara Felipe. Para ele, a pressão exercida por representantes políticos sobre o trabalho docente também representa uma ameaça à autonomia dos educadores e ao ambiente de aprendizagem.

De acordo com o representante sindical, parte dos episódios está relacionada a conflitos no ambiente escolar, enquanto outros envolvem tentativas de interferência no trabalho pedagógico. “Essas agressões partem de locais diversos, incluindo estudantes e pais de estudantes que tentam intimidar professores por uma suposta perseguição ideológica”, afirma. Entre as situações relatadas, estão ameaças motivadas por discordâncias sobre conteúdos abordados em sala de aula e, inclusive, em atividades educativas relacionadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres.

Na avaliação de Felipe, a escola deve ser um espaço de convivência entre diferentes opiniões, com respeito às diretrizes educacionais e à liberdade de ensino. “A escola é um local de pluralidade de ideias, essa é a essência da construção do conhecimento. Mas essa pluralidade não consegue conviver com a intolerância”, afirma.

O que diz a legislação

Na Paraíba, duas leis estaduais são apontadas pelo sindicato como instrumentos de proteção aos profissionais da educação. A Lei Estadual nº 11.230/2018 trata da liberdade de alunos, equipe pedagógica e demais profissionais em expressar pensamentos e opiniões no ambiente escolar, nas redes pública e privada de ensino. Já a Lei Estadual nº 13.472/2024 estabelece medidas protetivas e procedimentos para situações de violência contra profissionais da educação, incluindo agressões físicas, psicológicas e patrimoniais.

Baunilha afirma que, apesar da existência dessas normas, os ataques contra professores persistem. Para ele, a legislação precisa ser conhecida e aplicada pelas instituições de ensino a fim de que os trabalhadores tenham respaldo diante de ameaças e constrangimentos.

Como denunciar

A orientação do Sintep-PB é que os casos não sejam tratados apenas informalmente. O primeiro passo é registrar o episódio no livro de ocorrências da escola e comunicar ao conselho escolar. Também é recomendado registrar boletim de ocorrência para que os fatos sejam formalizados e possam ser apurados pelos órgãos competentes.

Nos casos de ameaças praticadas por estudantes menores de 18 anos ou por seus familiares, a direção deve acionar o Conselho Tutelar e o Ministério Público, conforme a natureza da ocorrência. A comunicação à gestão escolar e às instâncias administrativas também permite documentar o episódio e encaminhar as providências cabíveis.

Embora as denúncias destacadas pelo sindicato se concentrem em professores, a violência pode atingir outros trabalhadores da comunidade escolar. Por isso, a formalização dos casos e a adoção de medidas de proteção são importantes para garantir a segurança dos profissionais no exercício de suas funções.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de outubro de 2026.