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Praças são lares de muitas espécies

publicado: 15/10/2026 09h16, última modificação: 15/10/2026 09h16
Apesar de a convivência ser incômoda para algumas pessoas, presença dos insetos é fundamental para o ambiente
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Árvores com copas densas propiciam microclimas amenos, atraindo formigas e humanos | Foto: Roberto Guedes

por Henrique Toscano*

Quem gosta de estar sob a sombra de uma árvore, nas praças de João Pessoa, pode ser mordido ou apenas sentir-se incomodado pela presença de formigas sobre qualquer parte do corpo. Em alguns desses espaços, a quantidade de formigueiros realmente impressiona, a exemplo da Praça João Pessoa, no Centro da capital paraibana. Para alguns especialistas, encontrar uma solução para tal problema sem prejudicar os insetos não é tarefa tão simples.

Estudos realizados por instituições acadêmicas brasileiras, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), indicaram que árvores com copas densas criam microclimas mais amenos, atraindo formigas que fogem do calor do concreto. As pesquisas ainda apontam que a presença do lixo orgânico e os restos de alimentos próximos aos assentos dos logradouros altera a dinâmica desses insetos no solo e nos troncos.

O biólogo André Barbosa Reis explica que, nas praças e parques da capital, existe uma grande diversidade de formigas adaptadas ao ambiente urbano. Entre as mais comuns, ele cita as formigas-de-novato (do gênero Pseudomyrmex) e as formigas-de-rabo (Neoponera villosa), conhecidas por terem uma ferroada bastante dolorosa, que dá uma sensação de queimação.

André também destaca as formigas-carpinteiras (do gênero Camponotus), que são maiores e têm cores que podem variar entre o preto, o verde-oliva e o amarelo. Elas roem madeira, mas costumam fazer seus ninhos em galhos secos ou em ocos de árvores, protegendo suas moradias a todo custo. Na maioria das vezes, essas espécies apenas mordem — o que não quer dizer que seja menos dolorido. São comumente encontradas em imbaúbas e plantas baixas de jardim, como o ipezinho.

Há ainda as formigas-acrobatas (do gênero Crematogaster). Pequenas e escuras, têm o hábito de levantar o abdômen — localizado na parte traseira — quando se sentem ameaçadas, lembrando um escorpião pequeno. Costumam forragear — como é chamado o ato de procurar, extrair ou explorar recursos alimentares na natureza — ativamente pelas cascatas das árvores. Além de morder, elas podem liberar um ácido, provocando um desconforto semelhante a uma queimadura. “Não se engane com seu tamanho diminuto: onde tem uma, sempre há várias outras”, orienta André.

A lista não acaba por aí. O biólogo cita as formigas-lava--pés ou formigas-de-fogo (do gênero Solenopsis). Embora sejam insetos de chão e construam seus ninhos na grama, são as principais responsáveis pelos acidentes com pessoas que se sentam nos gramados das praças sem prestar a devida atenção. “Como seu nome já diz, ‘de-fogo’, as suas picadas assemelham-se ao fogo, dando a sensação de queimação”, especifica André.

Com tanta variedade de formigas, não é incomum que algumas pessoas tenham o desejo de exterminá-las. “Sobre o uso de inseticidas em praças e parques públicos, eu creio que deve ser evitado ao máximo e restrito apenas a casos de risco extremo. As praças são ecossistemas urbanos muito importantes e aplicar veneno nesses locais expõe crianças, animais de estimação e a fauna silvestre, como aves, lagartos e abelhas, a substâncias tóxicas. Além disso, as formigas desempenham um papel ecológico fundamental: elas são predadoras de outros insetos, como cupins e lagartas, ajudam a aerar o solo e limpam o ambiente ao consumir matéria orgânica morta”, enfatiza o especialista.

Por fim, ele sugere como contribuição para a amenização do problema o manejo preventivo. Isso inclui a poda adequada dos galhos que ficam muito próximos aos bancos ou caindo sobre as áreas de descanso, bem como a manutenção regular dos gramados para identificar ninhos de lava-pés antes que cresçam, e a educação ambiental da população.

Reações

Os ventos fortes e a presença de pássaros pousando nos galhos, causando movimentos bruscos nessa parte da planta, fazem com que as formigas percam a aderência e caiam. Além disso, quando a árvore sofre um impacto ou vibração — como alguém esbarrando no tronco, por exemplo —, muitas espécies soltam-se dos galhos como mecanismo natural de defesa para escapar de possíveis predadores, acabando por cair em quem está sentado nos bancos sob a sombra.

“Elas me incomodam. Além de cair sobre mim, também picam. Só não faço uso de repelente porque não acredito muito que resolva. Contudo, entendo que as formigas se encontram no cantinho delas; a gente é que, às vezes, as perturba”, relata a educadora social Joselina Maria dos Santos Carvalho França.

O profissional liberal Antônio de Andrade Lucena garante que possui uma relação amigável com os insetos. Durante a entrevista ao jornal A União, uma formiga se movimentava sobre o seu pé, mas isso não o incomodava. “Considero essa presença dela normal. Quem reclama de algo como uma beliscada, considero uma bobagem. Pode me morder à vontade que não me perturba de jeito nenhum”, enfatiza.

Já a estudante Evelyn Pereira da Silva, de 18 anos, costuma sofrer picadas de formigas porque gosta de ficar sobre a grama. “Quando mordem, é muito ruim, porque dá visibilidade na minha pele. No meu irmão, surgem uns caroços. Mas evito usar repelente. Imagina ter de utilizá-lo toda vez que eu quiser sair para um jardim ou um parque, por exemplo, lugares que são seus hábitats naturais”, analisa.

Crianças são mais vulneráveis a efeitos adversos

O dermatologista e oncologista cutâneo Otávio Lopes aponta que as formigas possuem substâncias que causam coceiras e provocam dor em quase 100% das pessoas, mas a reação a esses elementos está relacionada à alergia de cada um.

“Algumas pessoas ficam com feridas com bastante coceira, que devemos tratar com medicação antialérgica e corticoide tópico. Nos demais casos, apenas lavar a área seria suficiente. Quanto ao uso de repelente, é possível aplicar na pele os mesmos que usamos para afastar muriçocas”, recomenda. Ele aconselha que se dê mais atenção às crianças, quando estiverem embaixo das árvores. “É um público mais vulnerável a reações mais intensas, por essa razão os cuidados devem ser redobrados”, alerta.

A dermatologista Beatriz Gayoso ressalta que as reações alérgicas costumam ocorrer por mordidas ou ferroadas, e não pelo simples contato. A sua recomendação é que, em casos leves, seja feita a limpeza com água e sabão, aplicando compressa fria e evitando coçar. “Falta de ar, inchaço de lábios ou língua e tontura exigem atendimento imediato. Repelentes comuns não oferecem proteção confiável contra formigas. A melhor prevenção é verificar o local e evitar áreas com formigueiros ou grande circulação delas”, sugere.

Além das crianças pequenas, Beatriz Gayoso aconselha que se tenha atenção com os idosos com mobilidade reduzida. “Eles podem ter dificuldade para perceber e afastar as formigas. Quem já apresentou reação alérgica importante a ferroadas precisa de cuidado especial, independentemente da idade”, assinala.

Mordida x ferroada

O biólogo André Reis esclarece que outro ponto bastante importante é entender a diferença entre morder e ferroar (picar). A mordida é feita com as mandíbulas (na “boca” da formiga). Formigas como as carpinteiras mordem para se defender e podem borrifar ácido fórmico no local, causando ardência. Já a ferroada é feita com um ferro na ponta do abdômen, que injeta veneno. As lava-pés, por exemplo, primeiro mordem a pele para se fixar e, em seguida, usam o ferro, causando bolinhas de pus características. As formigas-de-novato também contam com um ferro poderoso.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de outubro de 2026.