Há séculos, o sonho de deixar o chão por um momento e observar o mundo do alto acompanha a imaginação humana: de mitos antigos à execução de projetos de aviação, a ideia de voar atua como uma metáfora para a liberdade e um convite irrecusável para a aventura. Nos últimos anos, na Paraíba, atividades envolvendo veículos como parapente, paramotor e asa--delta, além dos saltos de paraquedas, vêm chamando cada vez mais atenção e atraindo turistas do mundo inteiro, graças à combinação de desafio pessoal, condições climáticas favoráveis e paisagens impressionantes — além de uma boa dose de adrenalina.
Dados do Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur) — sistema gerenciado, no estado, pela Empresa Paraibana de Turismo (PBTur) — indicam que 171 agências de passeios e de viagens ativas na Paraíba informaram aptidão para atuar no segmento do turismo de aventura — 75 delas registradas em João Pessoa. Para esses negócios, o período mais movimentado do ano é o verão, de dezembro a janeiro, quando aumenta, no estado, o número de visitantes e de pessoas procurando por novas experiências.
Desde menino, o fotógrafo e piloto Rizemberg Felipe é fascinado pelas alturas. Ele conta que, enquanto brincava com pipas e aviões de papel na infância, sonhava que era ele quem estava voando. “O paramotor foi a forma que encontrei de voar. Voo apenas por hobby, mas fui até o Rio de Janeiro fazer um curso, para pilotar com mais segurança. Ver a cidade do alto é fascinante, e voar é uma sensação mágica”. Segundo Rizemberg, sempre que sua pequena aeronave pousa, atrai uma série de curiosos, interessados na prática de esportes aéreos. “Acho que não tem nada que chame mais atenção do que alguém voando. Todo mundo se imagina desbravando os ares, pelo menos uma vez”, observa.
Entre os aventureiros, também está o aerodesportista Daniel Eber, que desbrava os céus paraibanos há mais de uma década. Para ele, tudo começou com um salto de paraquedas: a euforia de pular para a queda livre e, então, começar a flutuar, ganhou espaço no coração de Daniel, que resolveu procurar o curso de paraquedismo do Aeroclube José Targino Maranhão, em São Miguel de Taipu. Em 2013, ele tornou--se um paraquedista habilitado e, com o passar dos anos, foi ampliando o repertório: em 2016, voou de asa-delta; em 2018, de parapente. “Desde a primeira vez que saltei, não parei mais. Sempre que conhecia um esporte novo, procurava me capacitar para a prática dele também”, relata.
Hoje, o aerodesportista conduz experiências de parapente para pessoas interessadas em experimentar o voo livre. Segundo ele, do fim de novembro ao início de março, há sempre um crescimento na procura por esse tipo de atividade em João Pessoa, reflexo de uma maior quantidade de visitantes circulando pela capital. “João Pessoa tem uma vantagem para a prática de esportes que trabalham com o vento, como kitesurf, windsurf e o próprio parapente. O vento sopra em abundância o ano todo. Então nós, que praticamos esses esportes, vimos uma oportunidade de ganhar uma renda extra no verão e procuramos nos tornar instrutores certificados”, explica Daniel.
Registrado junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que regula a prática de esportes aéreos no Brasil, ele destaca que as praias de Jacarapé e do Sol, ao sul da cidade, são seus locais preferidos para voar de parapente: emoldurados por falésias, os dois lugares oferecem segurança, contato com a natureza e uma vista bonita. Já no caso do paramotor — uma aeronave ultraleve e motorizada, que permite decolagens em terrenos planos e voos independentes do vento (ao contrário do parapente, condicionado às correntes térmicas e morros para ganhar altitude) —, o aerodesportista aposta nas praias de Cabedelo e de Gramame, que costumam oferecer mais espaço para decolagem e pouso.
Daniel acredita que o aumento do interesse por esportes aéreos no estado está relacionado ao desenvolvimento da Paraíba como destino turístico de expressão nacional. No entanto, para consolidar o segmento, ele salienta a importância de se manter o rigor quanto à qualificação profissional das equipes envolvidas nessas atividades, ao uso de equipamentos certificados e à fiscalização das práticas. “Como tem havido essa inflação na procura, acho necessário que a gente se mantenha rígido em relação às regras e à segurança na área. João Pessoa é maravilhosa e tem tudo para ser um dos melhores lugares para a prática de voo”, conclui.
No Agreste, “Havaí do Voo Livre” já ajudou a registrar recordes
Embora o Litoral paraibano concentre uma grande parte de passeios e experiências turísticas, quando se fala em voo livre, é o Agreste do estado que ocupa uma posição de destaque. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas na Paraíba (Sebrae-PB), nos últimos anos, o turismo de aventura tem se fortalecido de maneira diversificada na região. Localizada na microrregião do Curimataú, a cidade de Araruna sobressai-se como exemplo de variedade. “No município, é possível fazer rapel, escalada, trilhas, trekking e voar de asa-delta ou parapente. Araruna, inclusive, é considerada um dos melhores lugares do mundo para praticar voos esportivos de longa distância”, detalha a gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae-PB, Regina Amorim.
Entre Araruna e a cidade de Tacima, existe uma rampa natural que tem chamado cada vez mais atenção de pilotos de asa-delta e parapente. O ponto, conhecido por ventos fortes, umidade e relevo montanhoso, rendeu aos dois municípios o apelido de “Havaí do Voo Livre”. Segundo o secretário de Turismo de Araruna, Ricardo Câmara, “brasileiros de vários estados e turistas estrangeiros vindos, principalmente, da Europa costumam movimentar a região, especialmente nos meses de setembro a outubro. Essas pessoas geralmente ficam de 15 a 30 dias no local, mas a atividade que desempenham é mais profissional, e não necessariamente voltada para a recreação”.
Ricardo ressalta, ainda, que a Prefeitura de Araruna tem procurado formas de apoiar o desenvolvimento dessas modalidades de esporte. “Pensando em oferecer mais segurança para todos, há pouco, nós ofertamos um curso de primeiros socorros para condutores de trilha, rapel, instrutores de voo livre e outros. Fizemos, também, um curso de condução. E, além disso, temos investido na divulgação e na sinalização para turistas”, pontua.
A região ganhou relevância no segmento devido às suas condições topográficas e climáticas, consideradas ideais para a prática de parapente e asa-delta: planícies extensas, ventos constantes, boa visibilidade e correntes térmicas favoráveis. Somadas às habilidades dos pilotos, essas qualidades ajudaram a marcar recordes mundiais: em 2016, um trio de brasileiros — Samuel Nascimento, Donizete Lemos e Rafael Saladini — conseguiu voar 564 km de parapente em quase 12 horas, pousando no Ceará. Em 2019, decolando da rampa de Tacima, eles elevaram o patamar, voando 588,27 km em 11 horas. O recorde foi superado em 2021, quando o norte-americano Sébastien Kayrouz percorreu 613 km no Texas (EUA), mas o território paraibano ficou marcado como uma potência para a modalidade.
Evento internacional
No caminho para se consagrar, internacionalmente, como um estado propício para esportes aéreos de voo livre, a Paraíba sediará a edição de 2027 da Copa Mundial de Paraquedismo. O evento, organizado pela International Skydiving Commission (ISC), reunirá atletas de mais de 50 países, no mês de agosto do próximo ano.
O presidente da Federação Paraibana de Paraquedismo, Dinarte Fernandes, celebra o momento do segmento. “Em breve, veremos nosso estado se tornar alvo de interesse dos paraquedistas pelo mundo. Para conseguir sediar a copa, a Paraíba venceu uma disputa contra França e República Tcheca, em fevereiro deste ano”, elucida. As provas acontecerão no aeroclube de São Miguel de Taipu, a cerca de 40 km de João Pessoa.
Dinarte acrescenta, ainda, que eventos da federação paraibana costumam acontecer em João Pessoa, Campina Grande e Sousa — cidades que se destacam no cenário do paraquedismo local. De acordo com ele, os céus da Paraíba estão sempre abertos para todos aqueles que se arriscam a dar o salto, e a vista nunca deixa de ser impressionante.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.

