Exames laboratoriais trouxeram novos elementos para a investigação sobre os casos de intoxicação alimentar registrados em Pombal, nos dias 15 e 16 de março. As análises confirmaram a contaminação por bactérias de alimentos consumidos em uma pizzaria do município, apontada como possível origem do surto que teria provocado a morte de uma mulher — Raíssa Meritein Bezerra e Silva, de 44 anos —, além de deixar mais de 100 pessoas doentes. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES), nas análises realizadas pelo Laboratório Central de Saúde Pública da Paraíba (Lacen--PB), foram identificadas, em seis das sete amostras estudadas, as bactérias Staphylococcus aureus e Escherichia coli — resultado que aponta possíveis falhas no preparo ou na higiene dos alimentos.
Segundo o secretário da Saúde do estado, Ari Reis, a presença dessas bactérias nos produtos coletados indica que houve quebra nos protocolos básicos de segurança sanitária, incluindo possíveis falhas na higienização de alimentos, superfícies e utensílios. “A única afirmação que podemos fazer, nesse momento, é que há evidências científicas de que houve uma má manipulação dos alimentos. Além disso, são bactérias que evidenciam uma má higienização do local”, afirmou.
Quebra-cabeça
No caso do Staphylococcus aureus, a intoxicação pode ocorrer por meio de toxinas produzidas pela bactéria, o que ajuda a explicar o surgimento repentino dos sintomas relatados pelos pacientes, como náuseas, vômitos e dores abdominais. Já a confirmação da causa da morte de Raíssa Meritein ainda depende de exames periciais em andamento, conduzidos pelo Instituto de Polícia Científica (IPC), que deverão indicar se houve relação direta do óbito com a intoxicação alimentar.
Entretanto, parte dessas análises precisará ser realizada fora da Paraíba, já que o exame específico para detecção de toxinas no sangue não é feito pelo Lacen-PB. “Já estamos providenciando a transferência dessas amostras para outras unidades laboratoriais, para que possamos fechar esse quebra-cabeça”, reforçou o secretário. A estimativa é que o laudo pericial do corpo seja divulgado no fim desta semana, enquanto o resultado da análise complementar das amostras biológicas deverá sair em 15 dias úteis.
Em nota, a SES informou que foram analisadas 11 amostras, coletadas de pacientes com suspeita de intoxicação alimentar, nas quais não foi identificada a presença de patógenos como Salmonella spp. ou Shigella spp., bactérias comumente associadas a infecções gastrointestinais. Apesar disso, Ari Reis ressaltou que a ausência dessas toxinas nos exames não afasta a hipótese de intoxicação alimentar, já que, no momento da análise laboratorial, elas nem sempre permanecem detectáveis no organismo.
Investigações
Assim que o caso veio à tona, equipes da Vigilância Sanitária de Pombal e da Agência Estadual de Vigilância Sanitária (Agevisa-PB) estiveram no estabelecimento investigado para verificar as condições de preparo dos alimentos. Durante a inspeção, foram recolhidas amostras de produtos, ingredientes e materiais utilizados na cozinha, além da identificação de irregularidades sanitárias no ambiente. Essas informações passaram a compor o conjunto de elementos analisados pelos órgãos de saúde e pela Polícia Civil da Paraíba (PCPB), responsável por apurar as circunstâncias da contaminação.
Paralelamente às investigações, o Ministério Público do estado (MPPB) também instaurou um procedimento para averiguar o caso em Pombal. A apuração está sendo conduzida pela 2a promotora de Justiça do município, Patrícia Napoleão de Oliveira, que solicitou informações detalhadas aos envolvidos, incluindo as Vigilâncias Sanitárias estadual e municipal, a Secretaria de Saúde de Pombal e as unidades hospitalares que atenderam a população.
Entre os dados requisitados, estão os relatórios de inspeção que resultaram na interdição da pizzaria, os laudos laboratoriais, as informações sobre a origem dos insumos utilizados no estabelecimento e o levantamento epidemiológico dos pacientes. De acordo com o MPPB, o objetivo é reunir elementos que orientem eventuais medidas extrajudiciais e judiciais em relação ao caso. Procurado pela reportagem, o órgão informou que o procedimento segue sob sigilo, enquanto aguarda a conclusão dos laudos periciais.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de março de 2026.