A menina de um ano e seis meses, Liana Maria Torres Balbino, faleceu na noite do último domingo (29), às 19h49, após ser vítima de suposta negligência médica no Hospital da Criança e do Adolescente de Campina Grande (HCA-CG). A denúncia foi feita pela família na semana passada. O Ministério Público da Paraíba (MPPB) e o Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB) apuram os fatos.
Segundo relato de Alisson Balbino, tio da criança, Liana foi atendida duas vezes, na unidade, com sintomas gripais e liberada sem a realização de exames. A internação só foi realizada quando a paciente retornou em estado convulsivo. Posteriormente, a menina foi transferida para o Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes, no mesmo município, onde deu entrada com edema cerebral. Ela permaneceu internada na unidade de terapia intensiva pediátrica (UTI Pediátrica), em estado grave, mas não resistiu. O óbito foi confirmado pela unidade, que informou, por meio de nota, que não se pronunciará sobre a causa da morte nem sobre o caso, considerando que o quadro clínico inicial e os fatos que originaram a situação não ocorreram no hospital, além das alegações apresentadas pela família da paciente.
A Secretaria Municipal de Saúde de Campina Grande (SMS-CG), responsável pelo Hospital da Criança, também se manifestou mediante nota. O órgão solidarizou-se com a família e afirmou que as investigações estão em andamento por meio de sindicância interna. A pasta destacou, ainda, que solicitou a intervenção do MPPB, com o objetivo de obter suporte técnico do CRM-PB na apuração dos fatos, incluindo a conduta médica e os procedimentos adotados nas unidades que atenderam a criança.
De acordo com o documento, a intenção é, com o apoio do MPPB e do CRM-PB, esclarecer os fatos, garantir justiça — tanto na responsabilização, caso comprovadas irregularidades, quanto na preservação dos profissionais que atuaram corretamente — e, se necessário, aprimorar os procedimentos institucionais para evitar novas ocorrências.
O velório de Liana ocorreu na Câmara Municipal de Remígio, cidade onde a família reside, e o sepultamento foi realizado no cemitério local, na manhã seguinte. A despedida foi marcada por forte comoção de familiares, amigos, vizinhos e da população, que também exibiram faixas pedindo justiça. A família acredita que, caso um diagnóstico adequado e uma intervenção precoce tivessem sido realizados durante os primeiros atendimentos no HCA-CG, o quadro não teria evoluído de forma tão grave.
Durante o enterro, em vídeo divulgado nas redes sociais, o tio da menina, Alisson Balbino, expressou indignação e dor. “Estamos arrasados. Isso foi negligência e eu vou até o fim, os culpados vão pagar. O sentimento agora é de buscar justiça”, afirmou. Ele também destacou a expectativa que os responsáveis sejam punidos para que casos semelhantes não voltem a ocorrer.
MPPB
O Ministério Público da Paraíba informou que instaurou, desde ontem, uma Notícia de Fato para apurar o caso da morte da menina Liana Maria Torres Balbino. O procedimento foi aberto pela promotora de Justiça Adriana Amorim, que atua na defesa da Saúde, com o objetivo de esclarecer as circunstâncias do atendimento prestado à criança e verificar a regularidade dos protocolos assistenciais adotados pelas unidades de saúde envolvidas.
Diante da gravidade dos fatos divulgados pela imprensa, a promotora determinou que as direções do HCA-CG e do Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes sejam notificadas para, no prazo de 15 dias, apresentarem manifestação detalhada sobre o atendimento realizado. As unidades deverão encaminhar cópia integral e legível do prontuário médico da paciente, incluindo fichas de triagem, evoluções médicas e de Enfermagem, exames, prescrições, relatórios de transferência e registros de atendimentos de urgência.
Além disso, também serão oficiados a Secretaria Municipal de Saúde de Campina Grande (SMS-CG), o Conselho Regional de Medicina da Paraíba, o Instituto de Polícia Científica e o Serviço de Verificação de Óbito, para adoção das medidas e diligências necessárias no âmbito de suas competências.
Poder público
Em razão do falecimento de Liana, a Prefeitura de Campina Grande adiou o lançamento da edição 2026 d’O Maior São João do Mundo, anteriormente prevista para hoje. Segundo publicado na página virtual oficial da administração municipal, a decisão foi tomada diante da comoção provocada pela perda e em sinal de respeito à família.
Em nota, a gestão manifestou profundo pesar e solidariedade aos familiares e amigos neste momento de dor.
O lançamento oficial da edição 2026 d’O Maior São João do Mundo foi transferido para o dia 8 de abril, na Pirâmide do Parque do Povo, quando será apresentada à cidade a programação oficial de um dos maiores eventos de rua do Brasil.
Caso
Liana Maria Torres Balbino deu entrada, inicialmente, no HCA-CG no dia 20 de março, apresentando sintomas gripais. Desde esse primeiro atendimento, conforme o tio da criança, que é técnico de Enfermagem, já teriam ocorrido falhas na assistência. Ele afirma que, durante a triagem, a médica responsável teria minimizado a situação, sugerindo que a mãe estaria exagerando por ser “mãe de primeira viagem” e orientando que levasse a criança para casa e administrasse dipirona.
No dia 23, à noite, a família retornou ao hospital com a menina apresentando vômitos e leve dificuldade respiratória. Ainda assim, conforme o relato, o médico plantonista prescreveu apenas soro, medicação e lavagem nasal, sem solicitar exames ou indicar internação.
Já na madrugada do dia 24 de março, a criança foi levada novamente ao HCA-CG, dessa vez em estado mais grave, apresentando convulsões. Ela foi encaminhada para a ala vermelha da unidade, onde foi entubada. Ainda na manhã do mesmo dia, foi transferida para o Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes, em Campina Grande.
De acordo com a equipe médica que a recebeu no Hospital de Trauma, a menina chegou na unidade com ventilação mecânica e em estado geral gravíssimo. Após a realização de exames, foi diagnosticado um edema cerebral. A paciente permaneceu internada, entubada, sob cuidados das equipes de pediatria e neurologia, mas não resistiu, falecendo na noite do último domingo (29).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de março de 2026.