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operação perfidus

Delegado e dois agentes são presos

publicado: 03/06/2026 09h01, última modificação: 03/06/2026 09h01
Atuação da PCPB e do MPPB desarticulou uma organização criminosa que teria se infiltrado nas Forças de Segurança
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Suspeitos movimentaram valores incompatíveis com seus salários, apontam investigadores | Foto: Roberto Guedes

por Camila Monteiro*

Um delegado e dois agentes da Polícia Civil foram presos durante operação deflagrada nas primeiras horas de ontem, em João Pessoa, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa investigada por tráfico de drogas, corrupção e outros crimes. Os policiais são suspeitos de repassar informações sigilosas para o grupo criminoso. A ação também resultou na prisão de cinco pessoas investigadas por envolvimento com o tráfico de drogas.

A Operação Perfidus foi realizada pela Polícia Civil da Paraíba (PCPB) e pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB), por meio da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), da Unidade de Inteligência Policial (Unintelpol) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Foram cumpridos nove mandados de prisão e 24 de busca e apreensão. Dentre os presos, estão o delegado Braz Morroni de Paiva, titular da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), e os agentes Everton Rychelyson da Silva Aires e Eduardo Jorge Ferreira do Egito. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 10 milhões dos suspeitos.

O relatório final dessa fase da investigação deverá ser encaminhado ao Ministério Público, em até 30 dias, para eventual oferecimento de denúncia. Ainda ontem, os suspeitos passaram por audiência de custódia e tiveram a prisão mantida, sendo encaminhados ao Presídio Especial Valentina de Figueiredo.

O caso

As investigações tiveram início em janeiro de 2025, após a denúncia de um traficante integrante da organização criminosa. Segundo o delegado Rafael Bianchi, da Draco, o denunciante relatou que uma carga de drogas pertencente ao grupo havia sido subtraída por policiais civis. “Recebemos uma comunicação com fotos e vídeos de uma atitude policial suspeita. Identificamos o denunciante, verificamos que ele era membro cadastrado de uma organização criminosa e passamos a acompanhar a rotina dos policiais citados”, afirmou Bianchi, durante entrevista coletiva realizada ontem.

De acordo com o delegado, as apurações ganharam força após o monitoramento de um encontro entre o investigado e um traficante do Sertão paraibano. “A partir deste fato, instalamos formalmente o inquérito policial”, informou.

As apurações apontam para a existência de uma organização criminosa que utilizava informações privilegiadas e a própria estrutura estatal para favorecer atividades ligadas ao tráfico de drogas. Segundo Bianchi, os servidores públicos recebiam informações sobre imóveis e veículos usados para armazenar e transportar entorpecentes e, a partir desses dados, realizavam ações clandestinas. “Conseguimos identificar que os policiais subtraíam drogas de veículos e casas a partir de informações repassadas por um núcleo de traficantes de confiança. Eles utilizavam o aparato estatal e adentravam as residências”, declarou.

O delegado explicou, ainda, que os investigados simulavam operações regulares, mas deixavam de apreender todo o material encontrado ou registravam quantidades inferiores às efetivamente localizadas. As apurações também indicam que parte das drogas era retirada antes da incineração e posteriormente revendida de forma ilegal, inclusive dentro do sistema prisional, com os lucros sendo divididos entre integrantes do esquema.

Outro elemento considerado relevante para a investigação foi a análise da movimentação financeira dos suspeitos. “Verificamos que os salários anuais dos servidores giravam em torno de R$ 140 mil. Contudo, em quatro anos, um deles movimentou cerca de R$ 5 milhões”, frisou Bianchi.

O nome da operação faz referência à palavra latina “perfidus”, que significa “traidor” ou “desleal”, em alusão à conduta atribuída aos investigados que, segundo as apurações, teriam utilizado estruturas e prerrogativas estatais para favorecer atividades criminosas.

Policiais vazavam informações das ações

Um dos pontos mais graves apontados pela força-tarefa é a suspeita de manipulação de procedimentos policiais para ocultar irregularidades e conferir aparência de legalidade às ações criminosas. As investigações indicam que informações sigilosas sobre operações policiais eram sistematicamente repassadas a integrantes do tráfico. O vazamento permitia que suspeitos evitassem prisões, alterassem rotas de transporte de drogas e escapassem de ações planejadas pelas Forças de Segurança.

“Enquanto a grande maioria acordava cedo para realizar prisões e combater o crime, existiam aqueles que informavam aos grupos criminosos sobre as operações. Veja a gravidade desse esquema”, alertou o delegado-geral da PCPB, André Rabelo.

“Apuramos crimes muito graves e, principalmente, a utilização de todo o aparato estatal, como viaturas e sistemas de inteligência, para que essas pessoas cometessem esses delitos. As apurações demonstram uma rede muito bem organizada, na qual cada integrante possuía uma função específica”, pontuou o promotor do Gaeco, Marko Scaliso. Ele ainda destacou a parceria entre o Gaeco e a Draco como fundamental para o resultado da operação.

O promotor do Gaeco, Bruno Figueiredo, afirmou que o MPPB acompanhará o desdobramento do caso e adotará as medidas cabíveis. “Reafirmamos o nosso compromisso no combate intransigente à criminalidade e perante a sociedade. O Ministério Público da Paraíba aguarda a finalização das diligências para, posteriormente, adotar as medidas judiciais que entender pertinentes”, declarou.

Para o secretário de Estado da Segurança e da Defesa Social, Jean Nunes, a operação está entre as mais importantes já realizadas em conjunto pela Polícia Civil e pelo Gaeco. Segundo ele, a investigação durou mais de um ano e analisou mais de 40 mil áudios relacionados ao grupo criminoso.

O delegado-geral da Polícia Civil afirmou não haver dúvidas quanto ao envolvimento dos servidores investigados. Segundo ele, um dos agentes atuaria na negociação com integrantes da organização criminosa, enquanto o delegado teria a função de oferecer proteção ao esquema. Rabelo destacou ainda que a operação demonstra o compromisso das instituições de segurança com o combate ao crime organizado, independentemente da posição ocupada pelos investigados.

“Com essa operação, conseguimos mostrar à sociedade que somos capazes de detectar o problema e dar uma resposta. Além dos três servidores públicos investigados, prendemos outros cinco integrantes da organização criminosa, entre eles um dos principais alvos da operação. Estamos prontos para combater o crime em todas as camadas da sociedade”, frisou.

“O governo não tolera o crime”, afirma Lucas

O governador da Paraíba, Lucas Ribeiro, afirmou, em suas redes sociais, que a ação de ontem demonstra o empenho do Estado no enfrentamento das facções. “A Operação Perfidus é o reflexo do nosso compromisso com o combate ao crime organizado na Paraíba. Quero parabenizar publicamente a nossa Polícia Civil e todos os profissionais envolvidos”, declarou.

Lucas destacou, ainda, a complexidade que envolveu a operação, a qual teve um desfecho satisfatório, com a prisão dos suspeitos. “Desarticular uma organização criminosa de tráfico de drogas desse porte, que tentava infiltrar-se na estrutura pública para se favorecer, mostra que o nosso governo não se curva e não tolera o crime organizado”, celebrou.

O chefe do Executivo estadual também foi incisivo em relação às novas tentativas de burlar o sistema legal. “Minha mensagem para os criminosos é curta: aqui não haverá a mínima tolerância com o crime. Enquanto eu liderar este estado, as Forças de Segurança terão todo o meu apoio para agir com rigor e nós continuaremos combatendo as facções com tecnologia, inteligência e estrutura”, garantiu.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026