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Do lixo ao ateliê: artesãos paraibanos mostram que materiais descartados podem ser tornar obras de arte

Exibir carrossel de imagens Edson Matos O paraibano Joaquim Davi da Silva Neto, conhecido como Joca dos Galos, sobrevive do artesanato de resíduos descartados desde 2000

O paraibano Joaquim Davi da Silva Neto, conhecido como Joca dos Galos, sobrevive do artesanato de resíduos descartados desde 2000


Alexandre Nunes

Alguns objetos são considerados lixo descartável para a maioria da população, mas para os artesãos são produtos que podem ser reutilizados como matéria-prima para transformar lixo em arte. Com isso, o artesanato passa a ser um grande referencial de uma reciclagem com responsabilidade ecológica, beleza e qualidade das peças produzidas e comercializadas, conforme explica a gestora do Programa de Artesanato da Paraíba (PAP), Lu Maia.

"A gente está incentivando o uso responsável das matérias-primas e o que se tem observado é que os artesãos tiram muita coisa do lixo, que são reaproveitadas e transformadas em peças artesanais belas, de muita qualidade e que preservam nossa identidade cultural. Os artesãos paraibanos que trabalham com metal, por exemplo, utilizam 100% de matéria-prima da reciclagem de sucatas", complementa.

Joaquim Davi da Silva Neto, conhecido como Joca dos Galos, é um desses artesãos cuja arte flui de ideias que dão vida ao que parecia não ter mais nenhuma utilidade: as latas jogadas nos lixões impactando o meio ambiente, que se transformam em matéria-prima para o surgimento de belas peças artesanais, a exemplo de galos, pavões, araras, papagaios, tucanos e outras aves.

"Eu tenho 52 anos, trabalho e sobrevivo do artesanato desde o ano 2000. Sou casado e tenho dois filhos. Trabalho com latas de óleo, leite, todo tipo de lata, que consigo no lixão, ou compro aos catadores. Recorto tudo, soldo com ferro quente e depois pinto com tinta acrílica, que é para a lata não enferrujar. Invento pássaros da minha cabeça e considero o artesanato minha vida e o sustento da minha família", comenta.

Segundo informa Joca dos Galos, as peças artesanais são criadas por encomenda, já com venda certa. "Às vezes mando as peças para o Rio de Janeiro e São Paulo, mas no Brasil todo já tem peças minhas. Quando tem o Salão de Artesanato Paraibano, o pessoal do governo leva e expõe minhas peças lá. Esse trabalho me deixa feliz por conta da aceitação e porque ajudo a preservar o planeta, reciclando latas usadas, que antes eram consideradas lixo e hoje são peças aceitas como arte", comemora o artesão paraibano, que nasceu e reside em Bayeux.

Tudo que pode ser reutilizado e reciclado não é lixo Peças de resíduo eletrônico podem ser reaproveitadas na montagem de novos equipamentos

O Brasil gera 194 mil toneladas de lixo por dia, a maioria reciclável, segundo dados do IBGE. Na verdade, tudo o que pode ser reutilizado e reciclado deve ser chamado de resíduo e apenas o que não tem mais possibilidade de reutilização e reciclagem é que deve ser considerado lixo.

Para o professor e coordenador do projeto de extensão Apoio à Inclusão Digital (AID) do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê), Renato Leite, já faz muito tempo que, em logística reversa, não se chama mais lixo eletrônico de lixo, se chama de resíduo, justamente por essa questão de que o lixo é o último subproduto do resíduo, aquilo que realmente não funciona ou não serve para mais nada. "Resíduo é o primário, é o que sai da cadeia consumidora e adentra na cadeia de logística reversa. Lá dentro, vai virar lixo apenas aquilo que não tem uso. Vai para aterros, vai para ser incinerado, ou algo do tipo, mas aquilo que tem reúso é resíduo", explica.

O projeto de Apoio à Inclusão Digital do Unipê reaproveita peças de resíduo eletrônico, monta microcomputadores e os doa a pessoas sem condições de ter acesso às novas tecnologias da informação. E assim, monitores, teclados, CPUs e outros componentes de computadores usados e que iriam para o lixo são submetidos a minucioso trabalho de restauração executado por alunos dos cursos de Ciência da Computação, Gestão da Tecnologia da Informática e Sistemas para Internet, que constroem novas máquinas ou recuperam máquinas doadas por empresas e instituições.

Segundo revela Renato Leite, atualmente o projeto tem buscado ONGs, instituições e até mesmo empresas que desejem atuar na região para incentivar e fomentar a inclusão digital. "Esse é o foco do projeto hoje. É tanto que a gente não tem recebido mais tanto lixo eletrônico, o que a gente tem recebido são equipamentos que não têm mais uso na empresa doadora, que por ventura iria se tornar lixo eletrônico, se não tivesse um projeto como o nosso para recebê-los. São máquinas que funcionam ou máquinas que funcionam parcialmente, mas que ainda não são consideradas totalmente lixo", esclarece.

Renato Leite explica que as máquinas são revisadas e quando se verifica que estão aptas para o uso, são doadas para ONGs ou entidades da comunidade que solicitaram a doação. "A última vez que a gente fez doação foi para um quilombo, que fica lá em Alagoa Grande. A gente recebeu computadores usados de um grande escritório de advocacia aqui de João Pessoa que comprou a ideia do projeto, e em seguida a gente doou as máquinas para o quilombo Caiana dos Criolos, bem expressivo aqui no Estado", exemplifica.

Consciência ecológica leva ao reaproveitamento de materiais Casal de italianos encontrou na Praia de Jacumã a inspiração para a confecção artesanal de bolsas a partir de caixas de leite e de suco

A paranaense e paraibana de coração Camila Almeida Demori, além de designer de interiores, também reaproveita materiais que poderiam ter como destino poluir o planeta. Ela faz bijuterias com garrafas pet e papel de revistas velhas. "Comecei desenvolvendo alguns acessórios com revistas, garrafas pet e, hoje em dia, também estou trabalhando com câmara de pneu. O interessante do artesanato é você dar outra roupagem para a peça, a fim de que as pessoas não visualizem que aquilo é feito com reaproveitamento de material. Aí, quando você fala é a grande surpresa, porque as peças têm um design bacana. Fui desenvolvendo a técnica com os anos. Comecei quando saí da faculdade. Já faz dez anos que trabalho com isso", revela.

Camila acrescenta que sempre gostou de desenhar, customizar suas roupas, fazer painéis com colagem e aos 15 anos começou a desenvolver algumas bijus para vender nas férias. "Ao me formar tive a oportunidade de trabalhar em uma oficina de artes, onde o forte era a sustentabilidade, foi quando me apaixonei pelo papel e a pet. A garrafa pet me fez enxergar nela o mesmo valor do diamante: ambos são ‘para sempre’. Por isso, a ideia de criar peças contemporâneas com o material. E o papel, eu recuperei uma técnica muito antiga de fazer os canutilhos. Todos os dias eu descubro novas possibilidades, e me apaixono mais pelo produto. Minhas peças são o reflexo da minha personalidade", garante.

Camila Demori, que atualmente trabalha no Unipê, no curso de Modas e Design de Interiores, relata que despertou sua consciência ecológica para a reciclagem logo após a conclusão do curso universitário. “Na ocasião resolvi fazer uma linha de móveis sustentáveis. Então, comecei a ler muito a respeito e me assustei com a situação do planeta atualmente e com a quantidade de lixo que o ser humano gera e não tem mais onde colocar e, com isso, resolvi dar minha contribuição buscando reaproveitar materiais que iriam para o lixo", acrescenta.

Ela conta que gosta de comprar a matéria-prima para o seu trabalho aos catadores de rua. "Falo com alguns que estou precisando de garrafas pet. Consigo as câmaras de pneus nas lojas de motos, oficinas, e as revistas recebo de doação. Vou pedindo para as pessoas e aviso a elas que quem for jogar revista fora guarde para mim. Agora a garrafa pet eu compro", reitera.

Já os italianos Rafaella Leonzi e Sebastiano Bulgari aproveitam as belezas naturais da Praia de Jacumã, no Conde, onde residem e mantêm um ateliê, como inspiração para a confecção artesanal de bolsas, carteiras e acessórios, a partir do reaproveitamento de embalagens cartonadas (tetra pak), como caixas de leite longa vida, de suco e de outros produtos.

Rafaella Leonzi afirma que a bolsa fica muito resistente, além de bonita. "Faz quase nove anos que a gente trabalha com esse material retirado do lixo e do chão. A gente mora aqui em Jacumã e, como trata-se de lugar pequeno, todo mundo que trabalha com pousadas, restaurantes, padarias, vizinhos, amigos, guardam caixinhas pra gente. Todos estão envolvidos nisso. De verdade é um material muito resistente e dá para ter uma vida além da sua função de caixa de leite, ou caixa de outras coisas", assegura.

Sebastiano Bulgari, por sua vez, informa que sempre tenta estimular as pessoas que compram e também as que não compram suas peças artesanais a pensarem mais na importância da reciclagem. "Às vezes, as pessoas têm a ideia de que coisa reciclada fica feia. No entanto, a bolsa que fazemos revela exatamente o contrário, porque se apresenta como um objeto muito bonito e na moda, além de sequer dar para ver que a matéria-prima é caixa de leite vazia e reciclada. Nosso produto é muito bom e muito legal para incentivar a reciclagem", complementa.

Sebastiano explica que a intenção do casal, desde o início, era produzir com material ecológico, por isso a opção pelo reaproveitamento das caixas de leite. "Uma vez por semana, corto e limpo as caixas. Tem todo um processo de higienização que, com o tempo, a gente desenvolveu. Ao ser lavada, a caixinha não se machuca e ao mesmo tempo perde todo o cheiro de leite. Depois desse processo ela vira matéria-prima. Costuro ela, depois coloco um tecido por cima e dou outros acabamentos, a depender do modelo", detalha.

Meio ambiente na agenda de instituições paraibanas Além de preservar o meio ambiente, o trabalho realizado por catadores proporciona a criação de peças diferenciadas

A implantação da Coleta Seletiva nos municípios da Paraíba ainda está muito incipiente. No entanto, segundo informações da Secretaria Executiva de Segurança Alimentar e Economia Solidária (SESAES), órgão vinculado à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Humano (SEDH), uma experiência paraibana que vem se destacando nacionalmente pela gestão de resíduos sólidos municipais é a de Bonito de Santa Fé, com a inclusão sócio produtiva dos catadores de materiais recicláveis. Esta experiência teve aporte de recursos do Projeto Cooperar.

Atualmente, 15 grupos de empreendimentos das regiões do Sertão, Zona da Mata, Brejo e Agreste recebem periodicamente cursos de formação e assessoramento técnico, além das entregas de equipamentos para as cooperativas e associações. Cerca de 2.300 catadores são beneficiados com as ações do Governo do Estado, por meio da SESAES. Além disso, alguns municípios vêm construindo um diálogo junto às associações e cooperativas de catadores para a contratação por serviços prestados para realização da coleta seletiva.

Em 2016, a Secretaria Executiva de Segurança Alimentar e Economia Solidária realizou quatro Oficinas de Reaproveitamento de Materiais Recicláveis para os catadores/as que se encontram organizados em associações, nos municípios de Pombal, Sumé, Bananeiras e João Pessoa. Uma das ações do Projeto de Fomento a Empreendimentos Econômicos e Solidários atuantes com Resíduos Sólidos no Estado da Paraíba, desenvolvido pela SESAES, é firmar parcerias estratégicas com outros órgãos públicos, na perspectiva da integração de ações e sistematização de políticas públicas para a inclusão social e econômica de catadores e catadoras de resíduos sólidos e a promoção da educação ambiental na Paraíba.

Neste sentido, a educação ambiental tem sido prioridade em diversas instituições, a exemplo da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) que, por meio de sua Coordenadoria de Educação Ambiental (CEDA), atua na temática envolvendo a reciclagem e promove atividades como oficinas de garrafas PET, para o reaproveitamento das garrafas, transformando-as em brinquedos ou decoração; oficinas de sabão ecologicamente correto, para o reaproveitamento do óleo de cozinha, onde na grande maioria dos casos vai para o ralo da pia, prejudicando desde as tubulações até os corpos d’água; além de palestras sobre o tema e o projeto Sudema na Escola.

Reciclar é fundamental

Com muitos benefícios ambientais, a reciclagem se torna uma atitude importante para a saúde do planeta e de acordo com a opinião da professora Claudiana Maria da Silva Leal, reduz a exploração dos recursos naturais e do consumo de água e energia; previne da proliferação de doenças; evita a poluição das águas, ar e solo; gera renda para a população de catadores; movimenta um mercado de emprego e produção de matéria-prima significante.

A doutora em Engenharia Civil e professora do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) afirma que a reciclagem torna um planeta sustentável ao ser gerenciado adequadamente. Ela esclarece que a experiência de reciclagem no IFPB é a de resíduo Orgânico, ou compostagem. Atualmente, o IFPB gerencia apenas os resíduos gerados por suas atividades, não é mais um eco-ponto.

"No IFPB, os resíduos são segregados em rejeito, o que não recicla, e tem sua destinação final; o aterro sanitário; os resíduos recicláveis secos, que são colocados em um depósito, e tem destinação para uma associação de catadores; e os resíduos recicláveis úmidos, que são encaminhados para o campo de futebol onde são reciclados em um pátio de compostagem com 14 módulos de um metro cúbico, que transforma-se em adubo de forma estática por um período de quatro meses aproximadamente", detalha Claudiana.

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