Os frutos do 40º Salão do Artesanato Paraibano, que aconteceu no ano passado, em Campina Grande, ainda estão sendo colhidos. Na ocasião o tema foi o “Macramê — A arte de arrochar o nó”, e o espaço serviu, para além das vendas, como meio de articulação entre as artesãs do estado que trabalham com a técnica. A partir daí, surgiu uma associação que conta com cerca de 30 artesãos e um catálogo de produtos intitulado “Macramê da Paraíba”.
O produto, que reúne o trabalho de 28 macramistas de João Pessoa, Campina Grande e Araruna, será lançado no próximo dia 30 de janeiro, às 20h, durante o 41º Salão do Artesanato Paraibano, que acontece no estacionamento do antigo Hotel Tambaú, em João Pessoa. As peças que compõem o catálogo ainda serão apresentadas em um desfile, dentro do “Tramas Arretadas — A passarela da moda paraibana”, que será realizada no próximo sábado (31), às 18h30, no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, também na capital.
A gestora do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), Marielza Rodriguez, contou que o processo de criação do catálogo começou durante as atividades do Salão, que serviu como um espaço para fazer contatos profissionais e articulação do segmento. A partir dessas conversas, os macramistas decidiram criar a Associação dos Macramistas da Paraíba. Para isso, pediram apoio ao Governo do Estado e ao Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Nós contratamos uma consultoria, de Roberto Meireles, que é especialista em trabalhos coletivos com artesãos, e ele e uma equipe acompanharam, durante três meses, esse grupo, para formar essa associação”, relatou. Ela ainda compartilhou que todo esse trabalho também levou a criação coletiva de uma coleção e, consequentemente, do catálogo.
“O Salão que aconteceu em Campina Grande também levou à conquista de um equipamento que está sendo reformado, em Araruna, pela prefeitura local e com recursos também do Governo do Estado, para ser o Centro de Referência do Macramê da Paraíba”, ressalta.
Para ela, é uma satisfação ver que o Salão de Artesanato resultou em desdobramentos que ajudam a transformar vidas. “O catálogo que estamos vendo editado tanto virtual como impresso é a materialização dos sonhos de artesãos que planejam, juntos, terem mais oportunidades em um mercado consumidor cada vez mais exigente e competitivo. Nosso papel se cumpre dentro de uma política pública efetiva e consolidada que visa à melhoria de vida dos artesãos envolvidos e ao desenvolvimento sustentável do setor”, destaca.
O diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Moda (ABPModa), contratado para a consultoria, Roberto Meireles, destaca que, durante o processo, houve momentos coletivos e jornadas criativas com as artesãs. “O objetivo era aprimorar o desenvolvimento de conjuntos e coleções, do ponto de vista do desenvolvimento de produtos, e não tanto da técnica do macramê em si, que elas dominam bem. O catálogo materializa esse processo de criação e contamos também a história disso, que está materializado através de uma peça-conceito, que foi feita coletivamente pelas artesãs dos três municípios”. O diretor da ABPModa ainda informou que, paralelo ao trabalho criativo, foi desenvolvido também o conceito da associação e o estatuto, para sua formalização.
Roberto comenta, também, que um ponto muito focado no processo de criação foi o estímulo aos participantes no sentido de como manter a técnica e a criação que já fazem há anos, que é tradicional, e ao mesmo tempo inovar, buscando também atender ao mercado. A designer de moda, professora de moda, macramista e especialista em macramê moderno, Carol Teixeira, também integrou o projeto como produtora-executiva e esteve nesse processo criativo junto às artesãs. Ela reforça que a ideia era provocar uma saída da zona de conforto, fazendo com que as macramistas criassem peças dentro do campo da moda.
“Era nítido que elas estavam surpresas com o que conseguiram fazer. Nunca tinham tentado antes fazer um vestido ou algo assim. E, para mim, existe sempre uma satisfação muito grande poder ver essa nova estruturação e as possibilidades que o macramê nos dá. Apesar de ser composto por nós, ele não nos prende a nada, pelo contrário. A partir desta técnica, nós temos um mundo de coisas possíveis”, comenta.
Esse novo mundo de possibilidades foi uma experiência única para a macramista de Araruna, Julieta Estevão, artesã há mais de 50 anos. “Foi maravilhoso, depois de tanta luta, a gente conseguiu essa visibilidade. Isso mostra o potencialdo macramê. Fomos chamados para dois desfiles Fashion Week, em Fortaleza e em São Paulo, e eu já expus também em Paris. Fiquei muito orgulhosa e emocionada”, ressalta ela. O catálogo “Macramê da Paraíba” conta com a curadoria de Roberto Meireles e Ana Paula Sudano Freitas. Após o lançamento, ele estará disponível em versão digital e também impressa.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de janeiro de 2026.
