Notícias

cultura urbana

Monumentos intrigam pessoenses

publicado: 20/03/2026 08h54, última modificação: 20/03/2026 08h54
Porteiro do inferno teve que ser realocado, algumas vezes, em função da manifestação de setores religiosos
2026.03.18 Monumentos artísticos em João Pessoa © Leonardo Ariel (5) Monumento Cavalo Alado.JPG

Os equipamentos, além de conviverem com a curiosidade e a reprovação manifestadas pelo desconhecimento, também sofrem com a falta de manutenção | Fotos: Leonardo Ariel

por Camila Monteiro*

Quem circula por João Pessoa pode vislumbrar diversos monumentos artísticos que, na correria diária, acabam passando despercebidos pela população. Embora já integrem a paisagem urbana da capital paraibana, para aqueles que prestam um pouco mais de atenção, essas obras ainda despertam curiosidade, indagações e, para alguns, esses símbolos são alvo de reprovação.

“Do ponto de vista histórico, [os monumentos] são extremamente relevantes, porque ajudam na construção da memória coletiva de uma cidade, de uma nação, de um povo. Por isso, carregam essa importância social, artística e política”, detalhou Sabrina Melo, professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Um dos exemplos mais emblemáticos na cidade é a escultura em ferro popularmente conhecida como “Porteiro do Inferno”, criada pelo artista plástico Jackson Ribeiro. Produzida na década de 1960, a obra foi um presente ao Governo da Paraíba. 

O monumento, cujo  nome original era “Porteiro”, foi instalado em diversos pontos da cidade em função de manifestações, sobretudo religiosas, de uma parcela da população local. O símbolo foi inicialmente “expulso” do encontro das avenidas Getúlio Vargas e Duarte da Silveira por uma solicitação de representantes evangélicos. Após esse ocorrido, passou uma temporada no Espaço Cultural, sendo instalado, posteriormente, mais perto da orla, em um cruzamento entre o bairro Altiplano e Cabo Branco, onde também não foi bem-aceito. Atualmente, está em uma rotatória no Castelo Branco, em frente à UFPB, próximo a uma parada de ônibus. 

O garçom Edvaldo Neto, que frequenta o local diariamente, estava esperando o transporte público quando comentou que não compreendia muito bem o significado da obra. “Ninguém entende. Eu até acho interessante, mas não sei o que é aquilo”.

Outro destaque entre os monumentos da cidade é o Cavaleiro Alado, do artista Wilson Figueiredo, instalado, também, no Castelo Branco, em outro giradouro, próximo à entrada para o Hospital Universitário. A escultura, feita em chapas de ferro nas cores preto e vermelho, foi selecionada em um concurso público de esculturas promovido pela Prefeitura de João Pessoa, em 2009. Popularmente, é chamada de “Cavalo do Cão”.

Além do nome aplicado à obra, o que chama a atenção, atualmente, é o estado de desgaste em que ela se encontra, condição que se agrava em função das obras que acontecem próximas ao lugar onde o monumento está situado. Para Geovane César Santos, pedreiro, o Cavalo do Cão deve até já ter sido bonito, mas está bastante vandalizado. Já Ismael de Almeida, também pedreiro, enxerga o valor da escultura: “É uma arquitetura que muita gente não entende, mas, para mim, fala sobre uma história do passado que a gente não conhece”.

No bairro do Varadouro, a Praça do Trabalho, popularmente conhecida como “Praça da Pedra”, abriga outro monumento curioso: uma grande rocha instalada no meio do espaço público. O local recebeu esse nome por causa da pedra-monumento. Apesar da importância histórica, a ausência de sinalização dificulta a compreensão do seu significado. “Era para ter uma placa explicando. Ficamos imaginando o que era isso aqui antes. Eu queria saber como colocaram essa pedra”, comenta o motorista por aplicativo José Luiz da Silva.

Já A Pedra do Reino, outra obra presente na cidade, localizada no Parque da Lagoa, também provoca diferentes leituras. Enquanto alguns enxergam beleza, outros associam a significados mais sombrios. “Eu acho muito legal, acho bonito”, disse o estudante José Ronaldo da Silva Júnior, que passava pelo local. Em contraste, o autônomo Oliveiros Montenegro afirmou: “Na minha concepção, passa uma mensagem muito terrível”.

Para Sabrina Melo, falta debate público sobre a colocação desses monumentos. “É muito comum que as pessoas que passam por um monumento não saibam do que se trata, não entendam o que ele significa. E isso mostra um distanciamento entre a obra e o público, porque não houve um diálogo anterior com a sociedade para decidir que monumento é aquele, qual memória é aquela inserida nesse espaço público”, explicou. Ainda segundo a pesquisadora, falta um processo de mediação cultural que busque levar em conta a relação do público com essas obras. “Eu acho que, sem essa discussão e essa mediação, o monumento acaba virando apenas um item, entre aspas, decorativo, e acaba perdendo essa função de memória, de reflexão e de debate”, finalizou.

Legislação

A Lei Municipal nº 5.738 de 1988, estabelece a obrigatoriedade de obras de arte nas edificações na cidade de João Pessoa. A norma prevê que construções públicas municipais ou privadas, com área superior a 2.000 m², têm que conter, em lugar de destaque e de fácil visibilidade, obra plana ou tridimensional. Já para as construções superiores a 1.000 m², os responsáveis pela construção devem contratar uma obra de arte original, que pode ser de qualquer forma, como quadros, painéis, murais, esculturas, entre outros.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de março de 2026.