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LUTA POR DIREITOS

Motoboys fazem paralisação em JP

publicado: 01/04/2025 11h15, última modificação: 01/04/2025 11h15
Protesto para reivindicar melhor remuneração e melhores condições de trabalho acontece em todo o Brasil
2025.03.31 Paralização entregadores © Leonardo Ariel (2).JPG

Primeira mobilização aconteceu ontem, na Praça da Paz; grupo espera mais adesões hoje | Foto: Leonardo Ariel

por Bárbara Wanderley*

Motoboys e ciclistas entregadores do iFood de João Pessoa, assim como motociclistas de Uber moto, paralisaram as atividades desde a manhã de ontem e devem continuar sem trabalhar durante todo o dia de hoje. O protesto, que ocorre em todo o Brasil, é uma forma de reivindicar melhor remuneração e melhores condições de trabalho. “Nossa reivindicação é contra o monopólio dos aplicativos. Eles ficam cada vez mais ricos, enquanto o entregador trabalha de forma cada vez mais precarizada, infelizmente”, disse o motoboy Beethoven Gomes de Oliveira, um dos representantes dos entregadores de iFood da capital paraibana.

Na manhã de ontem, dezenas de trabalhadores se reuniram na Praça da Paz, no bairro Bancários, e depois seguiram para o Manaira Shopping, em busca de mais adesões para a paralisação. Segundo Beethoven, a taxa mínima que os trabalhadores ganham por entrega, de R$ 6,50, mantém-se a mesma há quase três anos. “A inflação subiu muito, mas a taxa segue igual. Em relação à quilometragem, recebemos R$ 1,50 por km, mas estamos lutando para que o km chegue a R$ 2,50”, disse. Sobre a taxa mínima, eles pleiteiam o valor R$ 10, por entrega. “O iFood alega que não pode pagar, mas a gente sabe que, hoje em dia, essa empresa é a quarta maior do mundo”, afirmou.

O grupo também pede que as entregas repassadas para trabalhadores de bicicleta não excedam três quilômetros de distância — atualmente, o aplicativo considera que os ciclistas podem fazer entregas para distâncias de até quatro quilômetros.

Outro ponto destacado por Beethoven é o desamparo dos trabalhadores em caso de acidentes — infelizmente, muito comuns entre os motociclistas. “Se você se acidentar, conta somente com a sua turma, que faz uma vaquinha e leva alguma coisa para aquele trabalhador sobreviver. Do contrário, ele passa fome. O iFood diz que tem um seguro de R$ 100 mil, mas que seguro é esse? Eu conheço um entregador que quebrou os dois braços, cada braço em dois cantos, ele chegou a tentar o suicídio, porque estava passando necessidade. Ele tentou acessar o seguro do iFood, mas o iFood não liberou o seguro. Se não fosse a ajuda dos companheiros, ele não teria conseguido superar”, contou.

Uber

Condutor de Uber moto, Lukas Ediell também conversou com a reportagem do Jornal A União sobre as reivindicações da categoria. “Desde que os motoubers começaram a atuar em João Pessoa, já começou com uma taxa mínima bem abaixo do aceitável, que nunca foi nem sequer o preço de um litro de combustível. Muitas vezes, a gente recebe menos de R$ 1 por quilômetro. Para transportar vidas humanas, é algo totalmente inaceitável, certo? É um valor muito pequeno diante da responsabilidade, do desgaste físico e da manutenção das motos. O lucro não acompanha”, disse.

Lukas e Beethoven observaram, porém, que a adesão à paralisação ainda estava abaixo do esperado, representando cerca de 30% dos trabalhadores. Para Lukas, essa é mais uma prova de como a remuneração defasada prejudica os trabalhadores, pois parar de trabalhar por dois dias causa problemas no orçamento. “A gente escolheu uma segunda e uma terça-feira porque são dias mais tranquilos”, comentou. Beethoven acrescentou que, além dos trabalhadores, algumas empresas também aderiram à paralisação e não funcionarão pelo iFood, nesses dois dias, como o Bar do Cuscuz e o Carrefour. Ele esperava conseguir mais apoiadores até o final do dia de ontem.

Na concentração, também estavam representantes das motogirls de João Pessoa, que estavam lutando pelas mesmas pautas dos entregadores de iFood, já que a maior parte delas trabalha com esse tipo de serviço.

As empresas

Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa a Uber, afirmou que respeita o direito de manifestação e que suas empresas associadas mantêm canais de diálogo contínuo com os entregadores.  “Sobre a remuneração dos profissionais, de acordo com o último levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a renda média de um entregador do setor cresceu 5% acima da inflação, entre 2023 e 2024, chegando a R$ 31,33 por hora trabalhada”, disse a empresa, em nota. 

A Amobitec disse ainda que suas empresas associadas apoiam a regulação do trabalho intermediado por plataformas digitais, visando à garantia de proteção social dos trabalhadores e à segurança jurídica das suas atividades. Além disso, atuam dentro de modelos de negócio que buscam equilibrar as demandas dos entregadores, que geram renda com os aplicativos, e a situação econômica dos usuários, que buscam formas acessíveis para utilizar serviços de entrega. São associadas: 99, Alibaba, Amazon, Buser, iFood, Flixbus, Lalamove, nocnoc, Shein, Uber e Zé Delivery. 

Já a assessoria de comunicação do iFood informou que respeita o direito à manifestação pacífica e à livre expressão dos entregadores e entregadoras. “Como empresa brasileira e ciente do seu papel na geração de oportunidades, desde 2021, nos dedicamos à criação de uma agenda sólida e permanente de diálogo com os entregadores parceiros e representantes da categoria, para o aprimoramento de iniciativas que garantam mais dignidade, ganhos e transparência para estes profissionais”, afirmou, em nota.

A empresa também informou que estuda a viabilidade de um reajuste para os trabalhadores, ainda este ano, e ressaltou que, nos últimos três anos, houve reajustes anuais da seguinte forma: em 2022, aumento do valor mínimo da rota em 13%, de R$ 5,31 para R$ 6, e do valor por quilômetro rodado em 50%, de R$ 1 para R$ 1,50; em 2023, reajuste da taxa mínima em 8,3%, de R$ 6 para R$ 6,50; em 2024, introdução de adicional de R$ 3 por entrega extra em rotas agrupadas.

“O ganho bruto por hora trabalhada no iFood é quatro vezes maior do que o ganho do salário mínimo-hora nacional. De 2022 até 2024, os ganhos líquidos médios por hora trabalhada na plataforma foram 2,2 vezes superiores ao salário mínimo-hora, de acordo com os custos apontados em pesquisa realizada pelo Cebrap, em 2023. Além disso, todos os entregadores parceiros do iFood têm acesso a seguro pessoal gratuito, para casos de acidentes durante as entregas, planos de saúde, programas de educação e apoio jurídico e psicológico para casos de discriminação, assédio ou agressão sofridos pelos profissionais”, salientou a nota.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de abril de 2025.