A partir deste ano, as tartarugas-marinhas que escolherem o Litoral paraibano para depositar ninhos serão marcadas com sensores e monitoradas diuturnamente. A Associação Guajiru, organização não governamental (ONG) voltada à proteção desses animais no estado, iniciou rondas noturnas nas praias de Cabedelo, João Pessoa e Baía da Traição, com o intuito de registrar os hábitos comportamentais das espécies que vêm à costa da Paraíba. Até o momento, sete tartarugas já estão com esses sensores.
“Nessas rondas noturnas, a gente não está mais buscando só os ninhos, mas também observando as fêmeas e fazendo a marcação desses indivíduos. A gente faz esse registro e coloca todas essas informações em um banco de dados nacional, para que outros locais possam acessar as informações sobre as tartarugas marcadas aqui, e ver se, porventura, alguma tartaruga de fora desova no Litoral da Paraíba. Como são animais migratórios, que percorrem distâncias consideráveis, inclusive de um país para outro, isso também acontece. A gente está fazendo essa pesquisa para entender realmente um pouco mais da população”, explica a presidente da ONG, Danielle Siqueira.
As tartarugas recebem um sensor de numeração única, capaz de identificar cada animal via satélite. Após a desova, a equipe implanta esses aparelhos nas nadadeiras dianteiras das fêmeas. “Eles têm um registro do país e do número daquele indivíduo. Com isso, em qualquer canto do mundo em que essa tartaruga for registrada, a gente consegue acessar essas informações”, revela.

- Ao nascer, os filhotes correm o risco de se desorientar e seguir rumo à cidade, ao invés de dirigir-se ao oceano | Foto: Wellingthon Castro/Colaboração
De acordo com a presidente da Associação Guajiru, essa tecnologia permite coletar dados acerca do comportamento do animal. A análise das informações obtidas ajuda a determinar, por exemplo, as áreas preferidas para desova, os fatores que interferem no nascimento dos filhotes e o sucesso reprodutivo dos ninhos. O monitoramento acontece por meio de grupos de quatro a seis pessoas, nos períodos de maior ocorrência de ninhos, e requer o acompanhamento do corpo técnico da ONG, diante da necessidade de interagir com o animal.
Para se habilitar nas atividades de marcação dos bichos, voluntários da iniciativa participaram de uma capacitação, no Espírito Santo, com a Fundação Projeto Tamar e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Durante a temporada reprodutiva das tartarugas, as excursões ocorrem de três a quatro vezes por semana. Nos demais turnos, a supervisão é diária e envolve mais de 100 voluntários.
“A partir dos rastros que a tartaruga deixa na areia e de outros registros, a gente consegue identificar o ninho e protegê-lo. É muito importante que a gente faça essa proteção, porque nós estamos em área urbana. A espécie que majoritariamente desova aqui é a tartaruga-de-pente, que está classificada como ‘criticamente em perigo’, em nível mundial, e no Brasil, recentemente, como ‘em perigo’. Esses filhotes, ao nascer, desorientam-se pela poluição urbana e acabam indo ao local incorreto. Ao invés de ir em direção ao oceano, como eles seguem a luz, acabam indo em direção à cidade e morrem atropelados, perdidos na vegetação”, detalha.
Orientações
Quem encontrar uma tartaruga-marinha pode entrar em contato com a Associação Guajiru, por meio do telefone (83) 99608-5226 ou do perfil da entidade no Instagram (@associacaoguajiru). Como lembra Danielle, se avistar um desses animais à noite, recomenda--se não se aproximar dele nem tirar fotos com flash. “Isso aconteceu, inclusive, em uma das rondas. Um casal quase passou por cima de uma tartaruga. Ela desistiu de desovar e acabou retornando ao mar, e a gente não conseguiu marcar esse indivíduo”, conta.
Também é possível acionar o Disque 190 da Polícia Militar da Paraíba (PMPB) e pedir encaminhamento para o Batalhão Especializado em Policiamento do Meio Ambiente (BPMA). Em todo o estado, a Divisão de Fiscalização da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) recebe denúncias por meio do número (83) 98844-2191. Para ocorrências na capital, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de João Pessoa (Semam-JP) disponibiliza o telefone (83) 98214-7473.
Atuação
A Associação Guajiru opera na conservação do Litoral paraibano desde 2002. Além do projeto Tartarugas Urbanas, que monitora e protege esses animais, a ONG organiza atividades de educação e de sensibilização ambiental, como palestras escolares e mutirões de limpeza nas praias do estado. Essas ações também buscam contribuir para o desenvolvimento de estudos científicos na região.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de março de 2026.