As fortes chuvas que caíram na Paraíba durante a semana passada causaram transtornos e danos em várias partes do estado. Segundo o relatório do Gabinete de Crise Interinstitucional, formado pelo Governo do Estado para articular ações de assistências à população das áreas atingidas, foram mais de 37 mil pessoas afetadas, das quais 3.295 estavam desabrigadas ou desalojadas até o último domingo (3). De acordo com o monitoramento da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa), o município de Alhandra teve o maior volume de chuvas registrado, nos dias 1º e 2 de maio, com um acumulado de 297,8 mm. Outras cidades que também apresentaram números elevados foram Pitimbu (270,0 mm), Pedras de Fogo (161,8 mm) e a capital, João Pessoa (161,8 mm).
Na Região Metropolitana de João Pessoa, uma das áreas mais atingidas, o volume de chuva em apenas dois dias chegou a quase 70% da média histórica para todo o mês de maio. Bairros como Gramame registraram alagamentos, deixando ruas intransitáveis e obrigando moradores a deixar suas casas. A região da comunidade Engenho Velho foi uma das mais afetadas. Segundo a Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil de João Pessoa, 16 famílias tiveram que deixar suas casas e estão em um abrigo temporário em uma escola.
Apesar de as chuvas terem cessado na manhã de ontem, a Defesa Civil da capital informou que o nível do Rio Gramame havia baixado um pouco, mas ainda permanece alto. O morador Eliabe Batista estava com água na cintura ao atravessar a Rua Pedro Camilo de Sousa, que leva à comunidade de Mituaçu, em Conde. “Faz 29 anos que moro aqui. Todos os dias, fazemos esse trajeto para levar o gado para se alimentar e nunca vi o nível da água tão alto assim”, comentou.
As cheias do Rio Gramame também causaram transtornos no abastecimento de água na cidade, além de áreas dos municípios de Cabedelo e Conde. A inundação atingiu a Estação Elevatória de Água Bruta de Gramame. Segundo o relatório situacional divulgado pelo Governo da Paraíba, as operações foram retomadas no domingo(3), com a normalização gradual do abastecimento da Grande João Pessoa até ontem. Em Conde, o sistema foi restabelecido ainda no começo da noite do último sábado (2).
O município de Bayeux também foi bastante afetado pelas chuvas. A prefeitura decretou situação de emergência no sábado e equipes da Defesa Civil do município estão realizando o monitoramento das áreas afetadas pela elevação do Rio Paraíba. De acordo com a prefeitura, até o fechamento desta edição, 840 pessoas e 210 famílias foram atingidas pelas chuvas.
Santa Rita
Em Santa Rita, o nível do Rio Paraíba, que cruza a cidade, subiu mais de 7 m, segundo a Defesa Civil. De 30 de abril a 3 de maio, segundo dados da Aesa, o município registrou um volume de 179,2 mm de chuvas.

- Sadraque coordena um abrigo, em Santa Rita, que recebe moradores e doações de insumos | Foto: Evandro Pereira
Com as precipitações, em toda a Paraíba, 349 pessoas precisaram ser resgatadas diretamente de áreas de risco. Em Santa Rita, um desses locais foi a comunidade conhecida como “Canaã”, onde os moradores ficaram ilhados. Esse foi o caso da idosa Ana Lúcia, que mora nessa região e atualmente está em um abrigo montado no Núcleo de Arte e Cultura (NAC). “A gente passou a noite acordados, eu e outros vizinhos, e vimos que a água estava entrando. Quando olhei, já estava tudo cheio de água dentro de casa. Foi muito rápido. Só deu tempo pegar a bolsa com os documentos e algumas roupas”, afirma.
No local, mais 18 pessoas estão abrigadas, segundo o coordenador do espaço, Sadraque Barreto. O espaço também está sendo o ponto de referência para recebimento, triagem e distribuição de doações. “No momento, nossa maior demanda é por água, alimentos, itens de limpeza e de higiene pessoal”, aponta.
Cerca de 300 pessoas estão, de forma mais crítica, precisando dessas doações. “Aqui, no abrigo, temos muitos idosos. Eles têm alimentação diferenciada, têm cuidados médicos, psicológicos, tomaram vacina”, destaca Barreto. O coordenador também ressalta que, além do trabalho dos órgãos ligados à prefeitura e ao Governo do Estado, a ação dos voluntários é essencial.
Ontem, a Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES--PB), por meio da Gerência Executiva de Vigilância em Saúde (Gevs), realizou uma visita técnica aos abrigos instalados no município. Durante a agenda, as equipes da SES-PB dialogaram com gestores da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e avaliaram as condições sanitárias e as principais demandas emergenciais. Dentre as medidas adotadas, destaca-se o envio de insumos essenciais, como hipoclorito de sódio para tratamento da água, além do reforço na oferta de vacinas em abrigos e pontos estratégicos.
A SES-PB também alerta para o risco de acidentes com animais peçonhentos, que tendem a se deslocar para áreas urbanas durante enchentes, além da necessidade de atenção com animais domésticos, que podem apresentar alterações de comportamento em situações de estresse. O monitoramento segue intensificado para doenças como leptospirose, hepatites virais e doenças diarreicas agudas, além do acompanhamento da qualidade da água para consumo humano.
Já a Prefeitura de Santa Rita vem realizando, além do trabalho de assistência social e de saúde às famílias, ações de limpeza urbana e segurança, bem como o monitoramento pela Defesa Civil, para identificar os danos aos imóveis. Devido às chuvas, o município também suspendeu as aulas na rede municipal até amanhã.
Quem quiser deixar doações às famílias atingidas pelas chuvas na cidade pode entregá-las no NAC, localizado na Rua Deputado Flaviano Ribeiro Coutinho Filho, bairro Popular; na Escola Estadual Antônio Teixeira, localizada na Avenida Flávio Ribeiro Coutinho, no Centro; e na Escola Municipal Odilon Ribeiro Coutinho, na Rua Campina Grande, em frente ao supermercado Edilícyo, em Tibiri.
Campina Grande
Apesar de os maiores impactos provocados pelas chuvas terem ocorrido na Região Metropolitana de João Pessoa, Campina Grande também registrou um volume significativo de precipitações na quinta e sexta-feira passadas, dias 30 de abril e 1º de maio, respectivamente. De acordo com a Aesa, o acumulado de chuvas nesses dois dias chegou a quase 60 mm, o que representa cerca de 50% do volume esperado para todo o mês de maio.
Mesmo com o aumento expressivo das chuvas, os açudes localizados em Campina Grande e na região permanecem com níveis controlados e não atingiram o ponto de sangramento. O principal reservatório responsável pelo abastecimento da cidade, o Açude Epitácio Pessoa, situado em Boqueirão, encontra-se atualmente com cerca de 50% de sua capacidade total.
Em contrapartida, outros mananciais do estado apresentaram elevação significativa em seus níveis em um curto período. Segundo Wellington Barbosa, subgerente de Monitoramento da Aesa, o número de açudes sangrando praticamente dobrou em cerca de um mês. “Até o fim de março, tínhamos registro de 15 açudes vertendo na Paraíba. Agora, com apenas quatro dias do mês de maio, esse número já chegou a 33 reservatórios”, destacou. A maior parte desses açudes que transbordou recentemente está ligada à bacia do Rio Paraíba, seja por abastecimento direto ou por deságue, o que ajuda a explicar as ocorrências de alagamentos em cidades como Santa Rita, Rio Tinto, Conde, Lagoa Seca e Bayeux.
Rodovias
O Departamento de Estradas de Rodagem da Paraíba (DER-PB) oficializou, na manhã de ontem (04), o plano de ações para restabelecer as condições de tráfego nas rodovias paraibanas. Intitulada “Operação Reconstrução”, a iniciativa atua, principalmente, nas regiões de Itabaiana e Sapé, onde a malha rodoviária foi mais afetada.
Dividido em três etapas, o plano prioriza o monitoramento ininterrupto e a sinalização de advertência para garantir a segurança dos usuários das rodovias. A quantificação geral dos danos ocasionados será realizada por meio de inspeções de campo, quando o nível das águas reduzir o suficiente para permitir a análise técnica das avarias. Após a vistoria, a recuperação dos segmentos rodoviários será realizada.
Dentre as ocorrências mais graves, estão os rompimentos de duas pontes na região de Itabaiana — uma delas na PB-054, na altura de São José dos Ramos, e a segunda na PB-
-066, que conecta os municípios de Ingá e Itabaiana. De acordo com o diretor de operações do DER-PB, Orlando Soares, o abalo à estrutura nos encontros de pontes é uma resposta direta à força das águas. “Estruturalmente, não havia nada de errado com ela. Pedimos que a população evite deslocamentos desnecessários nessas áreas, até que a avaliação estrutural seja concluída”, solicita.
Com os bloqueios, o único acesso seguro, no momento, para quem pretende seguir viagem até Itabaiana é via Pilar, por meio da PB-048. Entretanto, após o rompimento de um bueiro de concreto na rota, notificado no último sábado (2), o caminho também exige cautela dos condutores.
Ainda segundo o DER-PB, serviços de manutenção corretiva e preventiva estão sendo realizados do trecho da Fábrica de Cerâmica Elizabeth até o entroncamento com a PB-008, onde o excesso de chuva provocou a carreação de material sólido sobre a pista e o descalçamento de saídas d’água. A limpeza da via foi feita ao longo do último domingo (3).
Na Zona da Mata paraibana, a PB-032, principal acesso ao município de Pedras de Fogo, está totalmente bloqueada desde a última terça-feira (28), em decorrência de uma cratera causada pela elevação do nível de uma barragem. Como via alternativa, o DER-PB possibilitou um desvio provisório de 4 km na área da Usina Giasa, onde tem aplicado pedregulhos regularmente, para combater atoleiros. Entretanto, no último fim de semana, o volume das chuvas também impossibilitou a passagem pelo desvio. Atualmente, a recomendação do órgão para a região é que os motoristas evitem o trecho e optem por utilizar a PB-030 ou a PE-075, ligada ao município pernambucano de Itambé.
Em Santa Rita, a Ponte do Rio Preto encontra-se em situação de alerta máximo. No último sábado, o volume de água subiu o suficiente para que a correnteza passasse sobre a pista. Devido à força da água, a travessia está impedida para veículos, e o DER-PB aguarda a redução do nível da enchente para avaliar os danos estruturais.
Intervenções emergenciais estão sendo realizadas nas rodovias PB-036 e PB-028, que apresentam erosão. Os trechos estão devidamente sinalizados para alertar os condutores, e o DER-PB recomenda atenção redobrada aos motoristas que trafegam pelas áreas. A PB-036, assim como a PB-087 — conhecida como o “Caminho dos Engenhos”, que liga os municípios Areia e Pilões —, está operando em meia pista.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou um único registro de ocorrência nas rodovias federais da Paraíba, no último fim de semana. Trata-se de uma erosão no km 76,5 da BR-101, em Santa Rita. O local permanece isolado, com estreitamento de faixa e devidamente sinalizado. O serviço de recomposição do aterro teve início na tarde de ontem, mas a continuidade da manutenção depende da estabilidade climática na região.
Previsão e alerta
De acordo com a Aesa, a previsão meteorológica indica continuidade das chuvas, a partir da noite de hoje, principalmente no Litoral, Brejo e Agreste. Já o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta laranja para todo o dia de hoje, que representa perigo de acumulado de chuva em municípios da Mata e do Agreste paraibanos. Além disso, o órgão mantém o alerta amarelo de chuvas intensas (perigo potencial) até as 10h de amanhã. Diante do cenário, a orientação das autoridades é que a população evite áreas de risco e acione a Defesa Civil em caso de emergência.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de maio de 2026.